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Fitoterapia Ayurvedica: Malva Branca

A Malva Branca é uma planta ayurvedica, conhecida na Índia como Bala, seu nome cientifico é Sida cordifolia, deve-se evitar confundir com a Malva sylvestris que não é uma erva indiana. A Malva Branca vegeta em quase toda a extensão de nosso país e é uma planta histórica pois foi cantada pelo poeta romano Virgilio do século I antes de Cristo. Atinge cerca de um metro de altura com folhas de 2,5 a 5,0 cm com formato de coração. As pequenas flores são amareladas ou esbranquiçadas. Bala em sânscrito significa força, vigor e vitalidade, as raízes são resistentes e promovem energia e nutrição. Externamente o óleo medicado com Malva Branca é muito usado nas desordens do Dosha Vata: dores, reumatismos e edemas. Já internamente pode ser usado em uma decocção com leite para distúrbios do sistema nervoso ( Vata) e como rasayana ( rejuvenescedor), nutridor e estimulante do coração.
A erva é uma depuradora do sangue, promotora do tecido muscular, aumenta a vitalidade, sendo indicada nos casos de debilidade e fadiga. No Ayurveda utiliza-se, principalmente, as folhas, raízes e o óleo da semente para uso externo. Apresenta um sabor adocicado e uma potencia fria, beneficia os três Doshas mas pode agravar Kapha quando usada em excesso. Tem uma ação promotora dos tecidos orgânicos, fortalecedora, anabolizante, afrodisíaca, diurética, gera aumento de Ojas ( vitalidade), facilita a função respiratória, é tônica do coração, anti-oxidante, adaptógena ( anti-estresse), analgésica, anti-inflamatória e atua harmonizando o sistema nervoso.
Devido a suas múltiplas qualidades é indicada para as seguintes mazelas: fadiga, fraqueza muscular, disfunção erétil, distúrbios do sistema nervoso, sangramentos do tipo Pitta, neuralgias, dores ciáticas, dormências, reumatismos, processos inflamatórios, doenças neurológicas e respiratórias. O óleo medicado da planta está indicado na forma de massagens no caso de reumatismos, distúrbios músculo-esqueléticos e dores ciáticas. A dose diária é 1 a 2 gramas do pó que pode ser fervido com leite. Também pode ser utilizado 2 a 3 gramas da planta seca ou 4 a 5 gramas da planta fresca na forma de decocção em 200 ml de água, tomar 2 a 4 vezes ao dia. Lembre-se que esta erva ayurvedica não deve ser usada na gestação, em pacientes com hipertensão arterial, aumento do Dosha Kapha, obesidade e acumulo de Ama ( toxinas digestivas). “ Respeitando estas contra-indicações e as doses terapêuticas indicadas é uma planta medicinal segura e sua utilização segue a recomendação tradicional do Ayurveda: “Na região que nós vivemos é onde encontramos os alimentos, ervas e medicamentos naturais para tratar nossos desequilíbrios”.
Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em Acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Telefone: (21) 25373251, www.ayurveda.com.br

Na milenar tradição do Ayurveda é dito que existem duas escolas principais: a escola de Charaka-Atreya, de medicina interna, e a escola de Dhanvantari-Susruta que é a escola de cirurgia. O clássico Susruta Samhita é considerado o primeiro livro de cirurgia da história da medicina. Susruta, se é que existiu um médico com este nome, era um cirurgião da antiga Índia, que foi aluno de uma figura mítica chamado Dhanvantari. Bhishagratna na sua tradução do Susruta Samhita para o Inglês coloca:

“ …Quando o santo Dhanvantari, o maior dos poderosos celestiais, encarnou na forma de Divodasa, o rei de Kasi, estava sentado em seu eremitério, cercado pelos sábios;…Susruta e outros lhe falaram o seguinte: “ó senhor, nos aflige muito encontrar os homens…caindo vitimas das doenças, mentais, físicas, traumáticas ou naturais, e lamentavelmente gemendo em agonia como criaturas sem amigos… e nós suplicamos a vós, ó Senhor, para iluminar nossas mentes com o eterno Ayurveda…para que nós possamos aliviar o sofrimento da humanidade como um todo. Bem-aventurança nesta vida e após, é a dádiva deste eterno Ayurveda, e para isto, ó Senhor, nós nos fizemos destemidos para abordá-lo como vossos humildes discípulos. Para eles, respondeu o santo Dhanvantari:“bem-vindos a todos vocês a este bem-aventurado eremitério. Todos vocês são dignos da honra do discipulado.” ( Bhishagratna, 1991: 1 e 2)

Este é o primeiro parágrafo do primeiro capitulo do Susruta Samhita, notamos a forte presença da religião hindu no texto, pois Dhanvantari, na mitologia é o deus da medicina, que encarna como rei em Kasi , cidade de Benares ou Varanasi, “Cidade da Luz’ segundo a tradição fundada pelo deus Shiva, renovador da criação na mitologia hindu. Varanasi é considerada uma das cidades mais antigas do mundo e afirma-se que ela mantem a sua vida religiosa desde o VI século antes de Cristo ou seja justamente no período da vida de Buda. Varanasi ou Kashi é considerada pelos indianos como a cidade mais sagrada do mundo e local de muitos templos e peregrinações religiosas. (Abram e cols., 1996: 322)

Susruta significa “aquele que escutou bem” , e o autor do clássico refere-se a Susruta na terceira pessoa e o descreve como o digno filho de Visvamitra, que é na verdade um nome de família. No Rig Veda existe um sábio autor do hino Gayatri que possui o nome de Visvamitra. Ramachandra Rao   coloca que existiu um Visvamitra descendente deste autor do Rig Veda que era médico e provavelmente o pai de Susruta. Sobre a data do tratado Filliozat afirma:

“ Provisoriamente nós podemos considerar o Susruta Samhita como um trabalho dos últimos séculos antes da nossa era, o qual atingiu a sua forma definitiva nos primeiros séculos da era cristã.” (Filliozat, 1964: 15)
 
A controvérsia com relação as datas antigas é muito grande, e este caso não é uma exceção a esta regra geral. Nós podemos encontrar na literatura de origem indiana diferenças que vão até várias centenas de anos. Ramachandra Rao afirma com relação ao trabalho original do cirurgião Susruta:

“ Pode-se supor que o original Samhita de acordo com os ensinamentos de Dhanvantari-Divodasa era o traballho do velho Susruta que pode ter vivido antes ou durante o século VI A C (como acredita Hoenle) ou mesmo cerca de 1000A C ( como Afirma Mukhopadhyaya). O trabalho foi reformulado, provavelmente, em uma data posterior, nos primeiros séculos da era cristã.”(Rao, 1985: 94)

Como podemos aceitar o trabalho destes autores como fidedignos quando eles discordam por 400 anos? Este é um bom exemplo de como é difícil chegar a uma provável
data com relação aos tratados antigos do Ayurveda. Relembrando as palavras de Svoboda:

         “ Todas as datas são arbitrarias até a época de Gautama 563 A C a 483 A C)” (Svoboda, 1992; 9)

O principal comentario do Susruta Samhita foi escrito por um famoso monge budista chamado Nagarjuna que também era alquimista e filósofo. Com relação a Nagarjina Feuerestein comenta:

   “ O mestre budista Nagarjuna, do século II D C, não foi somente um célebre taumaturgo ( siddha) e alquimista tantrico mas também um gênio filosófico de primeira categoria.” (Feuerstein, 2001: 271)

   Ramachandra Rao refere sobre Nagarjuna:

“ No campo da medicina, ele é reconhecido como ter reescrito todo o Suruta Samhita, que provavelmente estava em um pobre estado de preservação durante os seus dias.” (Rao, 1985: 71)

Este importante personagem da história do Ayurveda, através de seus múltiplos conhecimentos, faz uma conexão, já citada anteriormente nesta monografia, entre a Medicina Indiana, a alquimia tantrica e o budismo. Como vimos a alquimia indiana provavelmente sofreu influencia da alquimia chinesa que estava associada ao taoísmo e a tradição médica na China.

Prana é a energia da vida ligada a respiração, oxigena¬ção e circulação. Governa também todas as funções motoras e sensoriais. A força vital prânica inflama o fogo central cor¬poral (agni). A inteligência natural do corpo é manifestada espontaneamente através de prana. Por exemplo, se uma criança tem deficiência de ferro ou cálcio, a inteligência na¬tural do corpo governada por prana levará a criança a comer lama, que é uma fonte daqueles minerais.

A sede de prana é a cabeça e prana governa todas as atividades cerebrais superiores. As funções da mente, da memória, do pensamento e das emoções estão todas sob o controle do prana. O funcionamento fisiológico do coração também é governado pelo prana, e do coração prana penetra no sangue e então controla a oxigenação em todos os dhatus e órgãos vitais.

Prana governa as funções biológicas das outras duas essências ojas e tejas. Durante a gravidez, o umbigo do feto éa principal porta por onde prima entra no útero e no corpo do feto. Prana governa também a circulação de ojas no feto. Assim, em todos os humanos, mesmo naqueles que ainda não nasceram, um distúrbio do prana pode criar um desequilíbrio de ojas e tejas, e vice-versa.

Ojas é a essência dos sete dhatus ou tecidos corpóreos. E a energia vital que governa o equilíbrio hormonal. O elemen¬to por excelência de shukralartav, que é a essência de todos os dhatus, está localizado no coração. Ojas é a energia vital que controla as funções da vida com a ajuda do prana. Ojas con¬tém os cinco elementos básicos e todas as substâncias dos tecidos corpóreos. É responsável pelo sistema auto-imune e pela inteligência mental.

Porque ojas está relacionada a kapha, o agravamento de kapha desaloja ojas e vice-versa. Ojas, quando desalojada, cria as desordens kapha como diabetes, lassidão dos ossos e juntas, entorpecimento dos membros. Ojas, quando reduzida, irá criar reações-vata, como medo, fraqueza geral, incapacidade da per¬cepção dos sentidos, perda de consciência e morte. Ojas equi¬librada é necessária para a energia e imunidade biológicas.

Ghee ajuda a intensificar ojas. O leite materno promove ojas no corpo da criança, portanto é essencial que a criança receba o leite materno para desenvolver o vigor biológico. Durante o oitavo mês de gravidez, ojas proveniente do corpo da mãe vai para dentro do feto. Assim, se o nascimen¬to for prematuro, antes dessa transferência de ojas, a criança encontrará dificuldade para sobreviver. Esse fenômeno de¬monstra a importância de ojas na manutenção das funções da vida. Assim como ojas é fundamental no início da vida, énecessária também para a longevidade.

No nível psicológico, ojas é responsável pela compaixão, pela paz, pela criatividade e pelo amor. Através de pranayama, disciplina espiritual e técnicas tântricas, a pessoa pode transformar ojas em força espiritual. Essa poderosa energia espiritual cria uma aura ou auréola ao redor da coroa chakra. Uma pessoa que tem ojas fortalecida possui atrativos, olhos brilhantes, sorriso espontâneo e calmo. É plena de energia e poder espirituais. Práticas espirituais e celibato realçam essas qualidades. Aqueles que procuram excessiva satisfação em sexo e masturbação dissipam a energia ojas no momento do orgasmo. O resultado é ojas enfraquecida que afeta diretamente o sistema imunológico. Tal pessoa torna-se vulnerável a males psicossomáticos.

Tejas é a essência de um fogo muito sutil que governa o metabolismo através do sistema de enzimas. Agni, o fogo central no corpo, estimula a digestão, absorção e assimilação do alimento. A transformação posterior dos ingredientes da nutrição nos tecidos sutis é administrada por um nível sutil de energia, pertencente a agni é tejas. Tejas é necessária para a nutrição e transformação de cada dhatu. Cada dhatu tem sua própria tejas, ou dhatu-agni. Essa essência é responsável pelo funcionamento fisiológico dos tecidos sutis.

Quando tejas é agravada, ela consome ojas lentamente reduzindo a imunidade e superestimulando a atividade prânica. Prana agravado produz desordens degenerativas no dhatus. A falta de ojas resulta na superprodução de tecido insalubre, que cria o desenvolvimento de tumores e obstrui o fluxo da energia prânica.

Dieta inadequada, maus hábitos de vida e uso excessivo de drogas causarão um desequilíbrio em tejas. Substâncias que são picantes, acres e penetrantes intensificam tejas dire¬tamente.

Da mesma forma que é essencial para a saúde assegurar o equilíbrio entre o tridosha, os dhatus e os três malas, ou re¬síduos corporais, para a longevidade é importante que prana, ojas e tejas permaneçam equilibrados. Para criar tal equilí¬brio, o processo de rejuvenescimento ensinado pela Ayur¬veda é o mais eficaz.

 

Para compreender o corpo é preciso antes saber que toda a matéria do Universo, viva ou não, é constituída por 5 elementos, conhecidos como “Pancha Mahabhutas” (cinco elementos básicos): Céu ou Éter, Ar, Fogo, Água e Terra.

Estes elementos são como estados da matéria: a Terra representa o estado sólido; a Água, o líquido; o Ar, o gasoso; o Fogo, o poder de mudar o estado de qualquer substância; e o Éter, o elemento que é ao mesmo tempo a fonte de todos os outros e o espaço onde eles existem. Destes elementos, o Éter é o menos denso e a Terra a mais densa, sendo extremos da manisfestação de todas as matérias.

Os 5 elementos básicos aparecem sempre combinados de maneira inseparável na natureza; variam apenas em sua proporção relativa para conferir as qualidades diferentes de cada substância e isso permite classificá-la de acordo com o elemento mais predominante em sua estrutura. Exemplo: uma substância que, em condições normais, seja um sólido diz-se que está composta principalmente de Terra, mas os outros 4 elementos também entram na sua composição, porém em quantidades muito reduzidas. Prova disso é que se aquecermos o sólido, ele se liquefaz, manifestando o elemento Água; ao evaporar-se a Água, teríamos o elemento Ar. Toda essa metamorfose se dá no espaço, o elemento Éter, sob ação do calor e da luz do Fogo, o agente transformador.

Refletindo o Universo, nosso corpo também é composto por 5 elementos básicos. Os espaços dentro dele são manifestações do elemento Éter: espaços no nariz, na boca, no trato digestivo e no trato respiratório, no abdome, no tórax, nos vasos sanguíneos, nos tecidos e nas células. O elemento Ar é o elemento do movimento. Tudo que se movimenta no corpo, músculos, pulmões, células, impulsos nervosos, é governado pelo Ar corporal. Na natureza, o Sol é a fonte do Fogo e da luz. No ser humano, o elemento Fogo é produzido pelo metabolismo. Manisfesta-se na temperatura do corpo, na digestão, na inteligência e na visão. O elemento Água é considerado tão importante que no corpo é chamado de Água da Vida; é fundamental para o pleno funcionamento de órgãos e tecidos. Manifesta-se nos sucos digestivos, nas secreções das glândulas, no sangue. Do elemento Terra derivam todas as substâncias sólidas como a pele, cabelos, unhas, dentes, ossos, músculos e tendões.

O ser humano, porém, não é apenas produto da combinação destes 5 elementos. Ele possui o Eu imaterial. Nas palavras de Caraka, “a Terra está representada no homem pela dureza, a Água pela umidade, o Fogo pelo calor, o Ar pelo alento vital, o Éter pelos espaços e o Eu pelo espírito que mora em seu interior”.
Os Sentidos
Toda esta teoria cósmica dos 5 elementos só se torna importante se compreendermos sua função de ligação entre nós e o meio que nos cerca. Esta ponte se estabelece na manifestação destes elementos nos cinco sentidos do homem, ou seja, na capacidade que temos de perceber o mundo e de interagir com ele, através de cinco ações principais que são reflexos desta percepção sensorial.

Cada elemento básico apresenta uma relação direta com os órgãos dos sentidos e os mediadores de percepção correspondentes. Assim, os elementos Éter, Ar, Fogo, Água e Terra correspondem, respectivamente, à audição/ouvido, ao tato/pele, à visão/olhos, ao paladar/língua e ao olfato/nariz. Da mesma maneira, estes elementos têm correspondência com a ação e com os órgãos da ação.

A constituição tipo kapha

As pessoas com constituição kapha possuem corpo bem desenvolvido, porém com tendência a ganhar peso e se tornarem obesos. O tórax é largo e possuem uma boa massa muscular e óssea. A pele é macia com tendência ao frio e a palidez; já os cabelos são grossos escuros e ondulados, os olhos são escuros e com muitos cílios.

Têm apetite regular e digestão tendendo a lenta, bom sono e boa capacidade vital. Psicologicamente são tolerantes e calmos, porém tendem a ser invejosos, apegados e possessivos. Possuem compreensão lenta, mas quando absorvem o conhecimento, este é retido por um longo.

O indivíduo kapha deve ter uma dieta amornante, leve e seca. Deve-se evitar alimentos frios, oleosos e pesados, assim como os sabores doce, salgado e ácido, porque favorecem o acúmulo de muco e gordura. Os sabores indicados para estas pessoas são: picante, amargo e adstringente. Deve-se ingerir menos quantidade de alimentos e fazer uso de plantas medicinais, como o gengibre e a erva-doce. Neste caso, o jejum uma vez na semana ou de 15 em 15 dias é aconselhado. OurStage | Frederik Speler’s Songs – Gokkasten + Casino Spellen + Online Casinos

Estou na Gujarat Ayurved University estudando Medicina Ayurvedica, durante 4 meses, como parte do meu projeto de doutorado no Instituto de Medicina Social da UERJ. Eu tive a sorte de conhecer um dos fundadores desta Universidade em 1946, dr. C. P. Shukla, que está com 85 anos e tem mais de 60 anos dedicados ao Ayurveda. O médico é proprietário da Shukla Ayurved Clinic e continua atendendo muitos pacientes, crianças, adultos e idosos, diariamente com uma habilidade e sabedoria dignas de um mestre.

O sábio vaidya ( médico ayurvedico) me aceitou como aluno e tenho aulas particulares 3 vezes na semana, na sua residência, gratuitamente, pois não houve meio de convencê-lo a aceitar uma remuneração pelos encontros noturnos. As nossas conversas abordam os mais variados assuntos relacionados a tradição Hindu e a medicina ocidental: espiritualidade, Yoga, meditação, Medicina Ayurvedica, tratamento das doenças mais comuns na Índia, Pancha Karma, diagnóstico, massagem, psicologia, psiquiatria, reumatismo, câncer entre outros assuntos da experiência do mestre. O que realmente impressiona é a integridade do intelecto e da memória do médico. Como disse uma colega psiquiatra francesa que freqüenta as aulas comigo: “ o dr. Shukla parece ter uma capacidade mental de um homem de 40 anos e não de 85 anos”.

Durante a nossa primeira aula conversamos sobre as alterações psico-emocionais e a mente. O mestre ensinou que a mente e o sistema nervoso devem ser harmonizados pela prática regular da meditação e afirmou:
“para acalmar a mente a utilização de um mantra durante o processo meditativo é importante”. Eu tenho observado na minha prática clínica que muitos pacientes, principalmente com desequilíbrio de Vata Dosha ( ar e éter), têm uma enorme dificuldade de praticar meditação pois não conseguem ficar 10 minutos sentados em silêncio. Para estas pessoas, que apresentam aumento de Vata Dosha, recomendo a prática de Hatha Yoga com um profissional habilitado, as posturas ou Yogasanas irão preparar o sistema nervoso para a prática da meditação diária.

Em um encontro posterior o sábio mestre afirmou: “A psicologia do paciente é o mais importante”, desenvolveu este ensinamento dizendo “se o médico puder penetrar no coração do paciente, através do conhecimento, a maioria das doenças poderiam ser controladas”. No ocidente, muitas vezes, não valorizamos o estado psico-emocinal do paciente e concentramos a nossa atenção no corpo físico quando a maioria das doenças têm uma relação direta com a mente e as emoções do ser humano.

Termino este artigo com as palavras de sabedoria do dr. Shukla: “o excesso de uso dos órgãos dos sentidos leva ao desequilíbrio e a desarmonia destes órgãos, na vida nós temos que seguir o caminho do meio”.

Neste importante momento da nossa pesquisa vamos analisar o Ayurveda dentro do contexto histórico da sua gênese. Pois apesar dos autores indianos colocarem a Medicina Ayurvedica ou Ayurveda como um derivado dos vedas ou upa-veda. Nos textos védicos,
que chegaram até a nossa era não existe nenhuma referencia ao termo Ayurveda, e nem a tradicional classificação do tipo psico-fisico dos doshas que é fundamental, dentro do diagnóstico e tratamento, segundo os textos clássicos da Medicina Indiana. Ranade, Qutab e Deshpande, médicos e autores indianos afirmam:

“ Dentro dos quatro Vedas, Atharva Veda é o mais antigo registro do conhecimento médico durante o período védico. Então a ciência do Ayurveda é um sub-ramo do Atharva Veda. Este contém muitos hinos, preces e encantamentos para o tratamento de doenças para serem utilizados com as plantas medicinais. A maioria dos versos védicos de cura estão no Atharva Veda. Mais de cem dos seus hinos são dedicados a condições como: febre, lepra, doença do coração, dor de cabeça, reumatismo, epilepsia etc…” (Ranade, Qutab, Deshpande,1998: 11 )

Esta afirmação é uma crença geral da tradição indiana, porém o nosso questionamento é que como um conhecimento pode ser um sub-ramo de outro mais antigo se este não cita nenhuma das suas teorias básicas e muito menos o seu nome? Os mesmos autores parecem se contradizer quando mais adiante no livro “ History and Philosophy of Ayurveda” afirmam:

“ É importante notar que o conhecimento sobre os princípios fundamentais do Ayurveda não foram documentados durante o período védico. O crescimento e desenvolvimento do Ayurveda ocorreu principalmente durante o período Asha.” (Ranade, Qutab, Deshpande, 1998:12)

E mais adiante os autores não descrevem uma data precisa para o período Asha mas dão uma idéia subjetiva que este período seria posterior ao período védico quando os principais textos clássicos do Ayurveda foram compilados:

“ Este período se estende através de alguns séculos e é caracterizado pelo aparecimento de muitos tratados, sistematizados, sobre o tema do Ayurveda por diferentes sábios. Ayurveda, a ciência da vida, é reconstituído de uma origem mítica através do semimítico até o seu inicio histórico.” (Ranade, Qutab e Deshpande, 1998: 12)

É exatamente esta origem histórica que não está bem clara, pois do período védico, que Max Muller colocou como entorno do segundo milênio antes da nossa era, até a compilação dos compêndios clássicos do Ayurveda, chamados de Samhitas, principalmente Bhela, Susrura e Charaka Samhitas pode haver uma distancia de algumas centenas de anos que estão cobertos por escuridão. A colocação de Ramachandra Rao sobre os ramos da Medicina Indiana e a possível raiz do Ayurveda é deveras interessante:

“ A Medicina Indiana chegou até nós em alguns ramos, quatro deles sobressaem-se claramente. O primeiro ramo é composto por médicos profissionais chamados vaidyas ou bhishaks originalmente pertencentes a uma classe de pessoas chamados ambashtas. O segundo consiste de vendedores errantes, a maioria deles de origem tribal, que coletam drogas e ervas nas florestas e montanhas e as vedem nas aldeias. O terceiro grupo são sacerdotes dos templos, especialmente os de crença Vaikhanasa que também são chamados a atuar como médicos.O quarto ramo é ilustrado por aquilo que podemos chamar de “remédios caseiros”, a sabedoria e prática médica que foram, até recentemente, comuns dentro do meio doméstico denominadas como “prescrição da vovó”em todo o país.” (Rao,1985: 2)

Com esta afirmação podemos ver a grande heterogeneidade das práticas médicas na Índia, aqui Ramachandra Rao sugere um sincretismo da sabedoria popular com influencia na origem do Ayurveda:

“ Pode ser visto prontamente que o primeiro destes ramos apóia-se em uma literatura tradicional elaborada e uma disciplina empírica. Os outros três estão obviamente enraizados em práticas populares, para eles naturalmente faltam uma tradição documentada e padronizada para sustentar suas práticas e prescrições . Mas considerando a difusão e a singular surpreendente correspondência entre estas práticas em diferentes partes da Índia, é razoável assumir que a tradição popular, apesar de não estar documentada, foi profundamente enraizada e largamente embasada. É possível que mesmo a habilidade e a sabedoria médica do profissional médico na Índia antiga foram definitivamente fundadas na tradição popular. O arcabouço essencial foi fornecido pela habilidade popular e os detalhes foram trabalhados nos anos subseqüentes pela observação, racionalização, experiência e experimentação.”(Rao, 1985:2)

Com esta afirmação o autor coloca a sabedoria da medicina popular como uma grande influencia dentro do Ayurveda, mas as suas especulações não se limitam a medicina
popular. Ramachandra Rao acredita na influencia de outras fontes e escolas na formação do Ayurveda:

“ A medicina profissional na Índia tem quatro linhas maiores de desenvolvimento, todas elas têm origem em um passado remoto. Duas delas, uma representada pelo médico Charaka e outra pelo cirurgião Susruta ( ambos viveram em séculos anteriores a era cristã) são coletivamente chamadas de Ayurveda ( ou a Ciência da Vida), e foram integradas dentro do corpo védico.Eles constituem uma tradição, separada em oito ramos. A terceira linha de desenvolvimento é o sistema de alquimia terapêutica conhecido como Rasavaidya ( ou a escola Rasayana), no qual há um grande uso de metais e mercúrio. Este é um ponto de encontro entre a química indiana e a Medicina Indiana. Este sistema está normalmente incluído na tradição ayurvedica, desenvolveu-se quase que indepen-dente do corpo védico, e tirou proveito do contato com outras culturas como a Árabe, Persa e Chinesa. A quarta linha de desenvolvimento é o sistema Siddha , ( ou o “perito”) o qual a origem é extremamente obscura, porem foi, claramente, fora da tradição védica. Atualmente é prevalente apenas no sul da Índia, especialmente em Tamil Nadu. Existe pouca dúvida que todas estes sistemas foram enraizados na cultura tantrica e foram grandemente influenciados pelo complexo Samkhya-Yoga.”( Rao, 1985: 3)

Com estas afirmações, que não são aceitas pelos hindus ortodoxos, Ramachandra Rao coloca outras influencias na formação do Ayurveda. A possível interferência de fontes estrangeiras na formação do Ayurveda é uma hipótese bem interessante pois como vimos as trocas comerciais entre a Índia e a China eram uma realidade a partir do século II A C. Mas a influencia da tradição tantrica, certamente não védica, é uma colocação de extrema ousadia dentro do sistema ortodoxo hindu, que não aceita esta tradição como legitima pois é colocada como marginal ao corpo de conhecimento dos Vedas.

Tantra é um termo sânscrito que significa teia ou urdidura, deriva do radical “tan”que tem o sentido de expandir. Tantra também pode significar sistema, ritual doutrina ou compendio. Segundo explicações esotéricas Tantra é aquilo que expande o conhecimento ou sabedoria, neste sentido a filosofia do Tantra levaria ao auto-conhecimento. O Swami Rama em seu interessante trabalho “Vivendo com os Mestres do Himalaia” afirma:

“ Há uma vasta literatura sobre a filosofia e a ciência do Tantra, que não se compreende com facilidade e que é amiúde mal empregada. Ciência esotérica altamente avançada, tem sido praticada por hindus, jainistas e budistas. De acordo com a ciencia do Tantra, macho e fêmea são dois princípios do universo chamados de Shiva e Shakti. Os dois princípios existem no interior de cada individuo.Há três escolas principais de Tantra: Kaula, Misra e Samaya. Os Kaulas, ou tantristas da mão esquerda, adoram Shakti e seu modo de adoração envolvem rituais externos, incluindo práticas sexuais. Meditam sobre a força latente interior (Kundalini) e a despertam no chacra Muladhara, localizado na base da espinha. Os leigos, muitas vezes, empregam mal este caminho. Na escola Mishra ( mista ou combinada), o culto interior combina-se com práticas externas. A força latente, despertada e conduzida ao chacra Anahata ( centro do coração),ali é adorada. O caminho mais puro e mais alto do Tantra chama-se Samaya, ou caminho da mão direita. Puramente iogue, nada tem que ver com qualquer ritual ou forma de culto que envolva sexo. A chave é a meditação no lótus de mil pétalas, o mais elevado de todos os chacras…. O estudo dos chacras, nadis ( correntes nervosas sutis) e pranas ( forças vitais) e um estudo filosófico da vida são necessários a quem quiser ser aceito como discípulo desta escola.” ( Rama, 1978: 241)

Segundo Feuerstein o Tantra desenvolveu a sua própria forma de terapia, pouco conhecida no ocidente, é baseada na idéia da auto-purificação não só no nível físico e mental mas também a nível energético. A purificação física é feita através dos exercícios de Hatha Yoga, o Yoga da força, a purificação mental consiste em práticas de meditação e a purificação energética através de exercícios respiratórios para harmonizar o prana. Os praticantes do Tantra são zelosos em manter o seu bem estar físico. Feuerstein coloca:

“ Com este fim, eles se beneficiam das técnicas do Hatha Yoga e dos muitos remédios naturopaticos do Ayurveda(Ciência da Vida), que vão de ervas à dieta e ao jejum. Fazem inclusive uso de preparados químicos que acreditam promover a saúde e longevidade. Desde os primórdios que tem existido um vinculo entre Tantra, medicina e alquimia. Todos os três se desenvolveram através de experimentação e experiência pessoal ao longo de muitos séculos. Numerosos iniciados escreveram textos sobre Yoga e medicina. Assim Patanjali que compôs o Yoga-Sutras, é considerado também autor de obras sobre medicina e gramática.”( Feuerstein, 2001: 169 )

A origem do Ayurveda pode ter sido múltipla através de diversas fontes de varias regiões dentro e fora da Índia. Algumas possíveis fontes de desenvolvimento da “Clássica Medicina Indiana” já foram colocadas como: os Vedas, mais especificamente o Atharva Veda, o Tantra, a alquimia indiana e influencias provenientes de países vizinhos como os Árabes e os Chineses. Sobre estas influencias no Ayurveda Ramachandra Rao coloca:

“ Se o Ayurveda surgiu da tradição tantrica para uma carreira independente, os sistemas de alquimia da Medicina Indiana, Rasachikitsa e Siddha, continuaram os seus envolvimentos com as idéias tantricas. Não é fácil identificar as origens das idéias alquímicas na Índia. Presume-se que o contato com a China, o primeiro lar da alquimia ( em torno do terceiro século A C), foi o responsável pelo desenvolvimento deste complexo teórico-pratico aqui. Mas os objetivos gêmeos da alquimia, nominalmente, a transmutação de metais comuns em metais nobres (como ouro e prata ) e o prolongamento da vida por um elixir são sugeridos nos registros védicos. As idéias alquímicas eram prevalentes aqui desde, possivelmente, tempos pré-vedicos, apesar deles não produzirem um sistema,como eles produziram na China, Egito, países Árabes e Europa Ocidental, até três ou quatro séculos após Cristo. A utilização dos metais, minerais pedras preciosas e ervas para fins medicinais e mágicos era conhecida pelos poetas do Rig Veda e do Atharva Veda…. A influencia chinesa estava certamente lá, especialmente nos primeiros séculos da era cristã, e a Mahachina ( a grande China ou Tibet) era uma terra familiar aos tantricos e alquimistas da Índia. Siddha Nagarjuna supostamente foi lá; e o Siddha de Tamil, Bogar, é dito ter vindo daquele país. Ambos foram eminentes mestres da alquimia indiana durante o quarto e quinto século…” (Rao, 1985: 10)

Alem da possível influencia da alquimia tantrica e da escola chinesa existe uma outra possibilidade que foi pesquisada e referendada por Zysk que é a dos ascetas errantes que eram prevalentes na Índia durante o período de Buda, século V e VI A C, e que faziam parte de uma tradição “não bramanica”ou seja fora do corpo védico de conhecimento. Estes ascetas errantes foram denominados Sramanas. É possível que o nome Charaka (autor do clássico do Ayurveda Charaka Samhita) tenha alguma relação com esta tradição, pois a palavra caraca um nome masculino da raiz sânscrita “car” significa um errante ou um asceta, possívelmente um asceta errante dedicado a medicina ou seja o grupo dos Sramanas. Mircea Eliade em seu surpreendente trabalho “Yoga, Immortality and Freedom” faz referencia aos Sramanas como mágicos:

“Mágicos, ascéticos e comtemplativos continuam a aparecer no crescente corpo de textos rituais e comentários. Algumas vezes há, nada mais que uma alusão, como, por exemplo no caso de certa classe de “black sramanas- magicians” mencionados no Apastamba-sutra ( 2, IX, 23, 6-8): “Agora eles realizam seus desejos meramente, por imaginá-los. Por exemplo, (o desejo de) obter chuva, conceber uma criança, mover-se tão rápido quanto o pensamento e outros desejos desta espécie.”( Eliade, 1967: 135 )

Provavelmente a medicina foi “empurrada” para as tradições marginais ao corpo védico e perdeu seu status devido ao conceito védico, descrito nos textos daquele período, de que o médico era considerado impuro e por isto o Brâmane não deveria seguir a carreira médica pois teria que entrar em contato com pessoas de classes inferiores ou seja impuras.
Podemos entender melhor esta questão ao lermos as palavras de Zysk:

“Trabalhos literários sub-sequentes , particularmente…do período védico tardio( 900a 500 A C) indicam que os médicos e a medicina foram denegridas pela hierarquia sacerdotal, que censurava os médicos pela sua impureza e pela sua associação com todo tipo de pessoas. Uma passagem do Taittiria Samhita fornece evidencias do conceito dos sacerdotes pelos médicos…: “Os deuses falaram para aqueles dois: “estes dois médicos, que vagam com humanos, são impuros. Portanto a medicina não é para ser praticada pelo Brahman, pois aquele que é um medico ( bhisaj ) é impuro, inadequado para o sacrifício”… (Zysk, 1998; 22)

Os médicos, segundo a tradição vedica-bramanica, eram considerados impuros logo inadequados para participar dos rituais e sacrifícios que estavam restritos aos Brâmanes, que eram os sacerdotes e a elite religiosa no período dos Vedas. É provável que esta estrutura social tenha levado a formação de uma tradição não védica associada as artes da cura e que a partir desta tradição, que não estava restrita as regras Bramanicas, tenha surgido uma abordagem, com relação a saúde, distinta daquela dos Vedas. Na literatura encontramos referencias aos ascetas errantes que poderiam ter representado este papel pois não estavam restritos as crença védicas das “impurezas criadas por vagar entre os homens”.

“ Evidencias significativas da conexão entre as artes médicas e os ascetas errantes( Sramanas) é proveniente do relatório do historiador grego Meghasthenes ( 300 A C ), um embaixador especial enviado por Seleucus para a corte de Chandragu Pta Maurya no Pataliputra (moderno Patna). Suas observações são comunicadas pelo historiador e geógrafo Strabo ( 64 A C a 21 D C ): “… e em relação aos Garmanes ( Sramanas), Megasthenes diz que alguns, os mais estimados, são chamados Hylobii, (habitantes das florestas), que vivem nas florestas, sobrevivendo de folhas e frutas selvagens, vestem-se de cascas de arvores, e não se entregam ao intercurso sexual e ao vinho…. E após os Hylobii, Megasthenes diz que, os médicos, vem em segundo em honra, e que eles são filósofos, interessados na humanidade, frugais, porem não vivem da terra, sustentam-se com arroz e cevada…ele diz que eles são capazes de fazer gerar múltiplos filhos… através da arte de preparar e utilizar as drogas, porem eles levam a cura através dos grãos, na maioria das vezes, não através das drogas, e sobre as drogas, ele diz que, as mais estimadas são os ungüentos e os emplastros, mas têm muitos perigos no resto. E, ele diz, que, ambos, os primeiros e os segundos, ( Sramanas) praticam resistência, ativa e inativa, então eles podem ficar fixos em uma postura todo o dia; e há outros que são proféticos, habilidosos no uso dos encantamentos, e habilidosos nas palavra e costumes associado aos que “falecem”, e aqueles que pedem esmolas através das aldeias e cidades, por outro lado há outros que são mais atraentes que estes mais urbanos…e, ele diz que, as mulheres assim como os homens estudam filosofia com alguns deles, e as mulheres também abstêm-se do sexo.” (Zysk, 1998: 37)

Nesta referencia de Megasthenes fica bem claro a associação dos Sramanas com a medicina e a filosofia. Podemos relacionar os Sramanas com monges budistas ou yogues que praticavam austeridades, posturas de Yoga e meditação, assim como o celibato. Provavelmente eram considerados sábios pois “ as mulheres assim como os homens estudam filosofia com alguns deles”. Os Sramanas podem ser aquilo que Filliozat chamou de “ intermediary tradition” no seu trabalho “The Classical Doctrine of Indian Medicine”:

“ A Medicina Indiana teve, portanto, retirado dos Vedas os principais elementos da sua doutrina geral. Desse modo, o Ayurveda é o legitimo herdeiro dos Vedas, porém desenvolveu a uma vasta extensão o patrimônio recebido. Sistematizou idéias antigas que constituiu um imenso tesouro de observações e experiências ambas com relação as doenças e o meio de curá-las. Quando nós encontramos isto pela primeira vez nos textos clássicos, parece como se existisse um abismo entre o conhecimento acumulado por eles e as escassas noções médicas que podem ser encontradas nos antigos textos védicos. Os trabalhos intermediários, aqueles que nós poderíamos observar a constituição gradual do vasto edifício, que repentinamente, aparece a nossa frente na sua forma já pronta, não chegaram até nós …É devido a necessidade de uma continuação entre as especulações védicas e a clássica doutrina do Ayurveda que nós podemos afirmar com certeza a existência de uma tradição intermediária.” (Filliozat, 1968: 188)

Esta tradição intermediária, possivelmente, seria uma tradição de ascetas errantes, que viviam a margem da tradição hegemônica dos Brâmanes védicos. A tradição budista e os ascetas Sramanas, ambos não védicos, seriam possivelmente a mola propulsora no desenvolvimento de um sistema empírico-racional que veio “concorrer” com a medicina
mágico-religiosa dos textos védicos, principalmente o Atharva Veda. É muito interessante a colocação de Ramachandra Rao sobre os ascetas Sramanas:

“ A medicina Indiana foi ativamente cultivada durante alguns séculos ( sete a oito de acordo com Filliozat) antes do nascimento de Cristo. Nós temos a evidencia de Megasthenes, o embaixador grego que visitou a Índia no quarto século A C, que os Sramanas ( um grupo de filósofos e ascetas fora da cultura védica) eram praticantes de medicina e eram grandemente respeitados pela população por estes serviços. Há uma sugestão em Strabo ( 15, 170) que estes Sramanas eram também mágicos, dando crédito a visão que a Medicina Indiana pertenceu a tradição Tantrica.” ( Rao, 1985: 8)

Com estas referencias fica bem claro a conexão entre os ascetas Sramanas e a Medicina Indiana, mas com relação a tradição budista que se iniciou a partir do século VI A C com Sidharta Gautama, o Buda, podemos afirmar que a medicina budista, que era um dos conhecimentos que os monges deveriam estudar, teve como seu pioneiro o próprio medico de Buda, Jivaka Komarabhacca. Contam os textos budistas que Jivaka fez sua formação em Taxila, no noroeste da Índia, onde estudou por sete anos com um renomado médico chamado Atreya. Segundo a tradição Jivaka, após sua formação com Atreya, se tornou médico do rei e foi designado para tratar o próprio Buda sendo considerado o maior médico da sua época.. Zysk cita uma importante passagem de um texto budista em pali que faz uma conexão direta entre o Ayurveda, a medicina budista e os Sramanas, ou Samanas em pali, através das palavras do próprio Buda:

“ Quando questionando o Buddha sobre a causa do sofrimento da humanidade, o asceta errante Sivaka, que pode ter sido um medico, disse que alguns Samanas e Bramanas afirmam que o sofrimento é causado apenas pelas ações passadas, Karma. O Buddha disse que esta visão era incorreta e que a causa do sofrimento da humanidade tinha oito razoes: “bile (Pitta), fleuma ( Kapha), vento( Vata) e suas combinações ( sannipata), mudança das estações ( utu), estresse de atividades não usuais (visamaparihara) (e.g.sentar ou ficar muito tempo em pé), os excessos, sair repentinamente a noite,( ser mordido por uma cobra) agentes exter-nos (ser preso como ladrão ou adultero) e o resultado de ações passadas é o oitavo” ( Zysk, 1998; 30)

Este texto acima poderia, sem nenhum erro de doutrina, estar dento de um tratado   clássico sobre Ayurveda, pois as mudanças de estações, as alterações de Vata, Pitta e Kapha, os excessos e os agentes externos são todos citados na clássica Medicina Indiana como causadores de doenças. Podemos, então, aferir a ligação que existia do budismo primitivo com o Ayurveda e a tradição dos ascetas errantes, cada um deles estava fora da tradição dos Vedas ou seja não eram aceitos pela tradição religiosa hegemônica naquela época. Isto coloca a comunidade budista (sangha) em destaque, pois, afirma a tradição, que Buda negou a autoridade dos Vedas e como vimos os textos védicos daquele período colocavam a profissão médica como impura logo inadequada para o Brâmane. A nossa hipótese aqui é bem clara: a tradição que deu origem ao Ayurveda não pode ser védica pois a medicina foi menosprezada pelos textos védicos.Com relação a isto Zysk afirma:

“ O movimento ascético heterodoxo na Índia antiga abasteceu com uma orientação social e filosófica os primeiros budistas e teóricos médicos. Os médicos, como os ascetas, eram buscadores de conhecimento e fora de castas, evitados pelos hindus ortodoxos. Eles erravam, realizando curas e adquirindo novos medicamentos, tratamentos e conhecimento médico, e eventualmente se tornaram indistinguíveis dos outros Sramanas com os quais estavam em contato freqüente. Os médicos não eram necessariamente ascetas, mas muitos ascetas, como os monges budistas curadores, poderiam muito bem ter sido médicos.Um enorme deposito de conhecimento médico desenvolveu-se entre estes médicos Sramanas fornecendo a tradição médica indiana os preceitos e a prática daquilo que seria conhecido como Ayurveda. Os primeiros documentos desta tradição médica ocorreram quando os ascetas errantes assumiram uma existência mais estacionária, enclausurados nos monastérios budis-tas primitivos.” ( Zysk, 1998: 37)

A nossa hipótese aqui é que varias tradições, que estavam em contato no primeiro milênio antes da nossa era, principalmente a partir da época de Buda, século VI A C, foram as responsáveis pela interação que deu origem a uma nova abordagem médica: A tradição dos ascetas errantes, Sramanas, o Tantra e sua alquimia, associado as influencias externas chinesas, e o pensamento budista, todos eles não védicos ou seja fora de castas, levaram a uma abordagem empírico-racional da saúde em substituição ao antigo paradigma mágico-religioso brâmane. A filosofia budista com o seu clássico “caminho do meio” foi um combustível importante nesta nova abordagem.

A mudança de paradigma de uma medicina mágico-religiosa, prevalente nos Vedas, para uma medicina empírico-racional dos textos clássicos do Ayurveda pôde acontecer devido aos personagens principais desta transformação não estarem limitados pelos
conceitos védicos, pois eram sem castas, ou seja fora da hierarquia bramanica. Posteriormente quando o Ayurveda tornou-se popular, houve a necessidade dele ser referendado como um conhecimento da tradição hindu, ou seja uma “hindunização” de uma tradição que foi em seu inicio anti-vedica, neste momento “as cartas já estavam marcadas” pois colocou-se o Ayurveda relacionado ao “menor” dos Vedas, o desvalorizado Atharva-Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao sabiamente coloca:

“ A antipatia nutrida pelos ortodoxos ao Ayurveda deve ser considerado neste terreno. E quando o Ayurveda teve que ser acomodado dentro do complexo védico, o Atharva-Veda era naturalmente aonde ele pertencia. Characa afirma que o Atharva-Veda é superior aos outros Vedas por que se relaciona com a vida que é a fundação de toda a felicidade e riqueza, e isto é sintomático da sensibilidade do profissional médico daquele período. Sua afiliação ao Atharva-Veda foi a natureza de um desafio, pois este Veda tinha uma reputação duvidosa nos círculos ortodoxos.” ( Rao, 1985:7)

Vamos agora analisar os principais textos clássicos do Ayurveda: Charaka, Susruta, e Vagbhata Samhita em uma visão critica.

De acordo com o Ayurveda, apesar de existirem diferentes doenças e fatores patogênicos, todos são produtos da desarmonia dos três humores biológicos, Vata, Pitta e Kapha. Os doshas são fatores desencadeantes de doenças físicas e psicológicas; indicam desordens emocionais, desequilíbrio mental e disfunções fisiológicas.

O Ayurveda tem como objetivo equilibrar os humores para neutralizar o processo de formação das doenças. Não é, como a medicina ocidental, uma questão de classificação da doença ou identificação do agente patogênico. O Ayurveda coloca maior ênfase na raiz da doença, que é tratada através da harmonização dos doshas.

O processo curativo do Ayurveda envolve:

1. Alimentação
2. Fitoterapia ( uso de plantas medicinais)
3. Massagem
4. Rotina diária (Dinacharya)
5. Yoga
6. Meditação
Frequentemente, segundo o Ayurveda, mudanças na nossa rotina diária e melhoria da nossa alimentação farão mais pela nossa saúde a longo prazo do que tomar remédios ou procurar tratamento médico. Não existe nenhum substituto para a nossa maneira correta de vida. Quanto mais vivemos em desarmonia com nossa natureza menos podemos esperar em termos de obtenção de saúde, seja lá por que método for. Esta é a beleza do Ayurveda, que dá a cada um de nós o conhecimento e o significado de viver em harmonia.
Hábitos de Vida

É necessário estabelecer o apropriado estilo de vida para cada constituição única, mantendo uma certa consistência e harmonia porém com flexibilidade para respondermos às agressões impostas à saúde a todo momento. O importante é uma vida criativa que estabeleça uma ordem, mas que dê liberdade. Nossa energia é dispersada através do uso inadequado. A inteligência proporciona uma ordem; como diz Krishnamurti “cada coisa tem o seu lugar”. Isso reflete em nós mesmos a profunda harmonia da Natureza.
A rotina ayurvédica nos coloca em sintonia com o Universo e a força cósmica da vida. Esta rotina necessita de um esforço para ser estabelecida no começo; porém, após criada torna-se auto-sustentável. Estes regimes diários foram feitos para estabelecer um programa mensal e annual a serem seguidos. Todo estudioso do Ayurveda deve estabelecer este programa na sua vida de forma consistente, de modo a alcançar um estado de felicidade sem limites: somos resultado daquilo que fazemos todos os dias. Nossas ações determinam nosso nível de consciência assim como o padrão de energia do corpo físico. Segundo os Upanishads “o desejo do homem gera a ação e como ele age, assim ele se tornará”.
Regime ayurvédico e tratamento de doenças

As doenças e seu tratamento no Ayurveda são explicadas de acordo com os humores biológicos. A constituição Kapha tende a ter doenças do tipo Kapha. A constituição tipo fogo (Pitta) tende a ter doenças do tipo fogo. O mesmo vale para os biotipos Vata. A rotina diária apresenta uma metodologia de prevenção, promoção e cura das doenças.
É possível que uma pessoa tenha uma doença causada por desequilíbrio de outro dosha que não corresponda a sua constituição predominante. Neste caso a natureza da doença deve ser cuidadosamente examinada; como regra geral, doenças de um humor diferente da constituição básica do indivíduo são mais fáceis de tratar. Uma doença pode ser identificada através de seu desequilíbrio humoral de acordo com os sinais e sintomas presentes.

A principal dificuldade que temos em qualquer forma de tratamento natural, como o Ayurveda, é maior tempo e esforço do paciente para obter efeitos aparentes. Pode-se levar vários meses seguindo uma rotina para observarmos mudanças importantes. Não devemos esperar que medicamentos naturais, como plantas, alimentação e massagens, tenham uma resposta satisfatória se a nossos hábitos de vida são contrários à saúde.

A rotina diária do Ayurveda é simples, não invasiva, não traumática e, de uma forma geral, não irá interferir com formas mais específicas do tratamento médico ocidental. Pode ser utilizada junto com outros métodos de tratamento, incluindo a alopatia. Na verdade, esta abordagem pode ser usada para “turbinar” praticamente qualquer forma de abordagem terapêutica.

A doença física é frequentemente o resultado da supervalorização do corpo físico e do mundo material. Se nós colocamos muita energia o nosso corpo físico, podemos agravar o processo de doença. Devemos dar ao corpo o cuidado adequado, sem deixar que domine os outros aspectos da nossa vida. Muitos sofrem, hoje pela ingestão de muitas medicações, muitas visitas médicas. Nosso corpo está desarranjado pelo esforço exagerado em querer mantê-lo bem. Assim, num processo de cura o ideal é agir com paciência, sabedoria e simplicidade, dando às terapias seu próprio tempo de agir e evitando combinar diferentes tratamentos ao mesmo tempo.

No inicio dos anos 90 a professora dra. Madel T. Luz desenvolveu a categoria “racionalidades médicas” para significar um sistema lógico e teoricamente estruturado, dotados de cinco dimensões interligadas: uma doutrina médica, uma morfologia, uma dinâmica vital, um sistema de diagnose e um sistema de intervenção terapêutica. Segundo esta autora, tais racionalidades, bem como outras práticas tradicionais, podem trazer as seguintes contribuições:

1-     A reposição do sujeito como centro do paradigma médico

2-     A restituição da relação médico-paciente como elemento fundamental da terapêutica

3-     A busca de meios simples, despojados tecnologicamente ( menos dependentes da tecnologia dura), menos caros e entretanto com igual ou maior eficácia em termos curativos nas situações mais gerais e comuns de adoecimento da população

4-     A construção de uma medicina que busque acentuar a autonomia do paciente, e não sua dependência em termos de relação saúde-enfermidade

5-     A afirmação de uma medicina que tenha como categoria central de seu paradigma a categoria saúde e não a de doença

( Luz, 1996)

O projeto coordenado pela professora dra Madel T. Luz, iniciou-se no começo dos anos 90 com a linha de pesquisa “Racionalidades Médicas e Práticas de Saúde”, junto ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ é pioneiro em pesquisas sobre medicinas não convencionais comparadas. Na primeira fase deste projeto foram identificadas e pesquisadas quatro racionalidades médicas: Biomedicina, Homeopatia, Medicina Chinesa e Ayurveda e ao final construiu-se um quadro resumindo as várias dimensões destes sistemas médicos complexos:

 

Racionalidades Médicas

Medicina Ocidental Homeopatia Medicina Chinesa Ayurveda
Cosmologia Física Newtoniana

Clássica

Cosmologia Ocidental Tradicional ( alquímica) e clássica Cosmologia Taoista ( geração do microcosmo a partir do macrocosmo) Cosmologia Samkhya da criação ( Purusha e Prakriti)
Doutrina Médica Teoria da causalidade da doença e seu combate Teoria da força vital e seu desequilíbrio nos indivíduos Teoria do Yin-Yang, das cinco fases e seu equilíbrio nos indivíduos Teoria dos cinco elementos e dos doshas nos indivíduos
Morfologia Morfologia dos sistemas Organismo material e força vital animadora Teoria dos canais e colaterais, pontos de acupuntura e dos órgãos e vísceras ( Zang Fu) Teoria dos Dhatus ( tecidos) e malas ( excreções)
Fisiologia ou Dinâmica Vital Fisiologia e Fisiopatologia Fisiologia energética, fisiologia dos sistemas, fisiopatologia do medicamento e do adoecimento Fisiologia do Qi, Zang Fu e da dinâmica Yin/Yang Dinâmica dos três doshas e sub-doshas, teoria de ojas ( essência vital) e srotas ( canais)
Sistema de Diagnostico Semiologia: anamnese, exame físico be exames complementares Semiologia: anamnese do desequilíbrio individual. Diagnóstico e remédio da enfermidade individual Semiologia: interrogatório, inspeção, ausculta e olfação e palpação Trividha Pariksha ( as 3 categorias da semiologia): Inspeção, palpação e questionamento
Sistema de Intervenção terapeutica Drogas, cirurgia e higiene Medicamentos homeopáticos e higiene Tui Na, Qi Gong, Tai Chi, Acupuntura, moxabustão, dieta, medicamentos de origem animal, vegetal e mineral Massagem, oleação, sudação, dieta, rotina diária e sazonal, medicamentos de origem animal, vegetal e mineral e panchakarma (as 5 terapias depuradoras)

( Modificado e adaptado de Luz, 1996)

Em 1993 a pesquisadora Evair A. Marques produziu o primeiro texto relacionado ao Ayurveda com o título: “Racionalidades Médicas: Medicina Ayurvedica – Tradicional Arte de Curar da Índia”. Foi, sem duvida, um trabalho pioneiro sobre esta racionalidade médica, no final do texto a autora afirma: “Na Medicina Ayurvedica, a capacidade que o individuo tem de autocurar-se constitui um dos conceitos básicos, razão pela qual os médicos procuram primeiro auscultar o sistema de defesa natural do organismo do doente para ajudá-lo a lutar contra as agressões da qual ele é objeto, de maneira que possa vencê-la com suas próprias forças”( Marques, 1993: 38)

Este trabalho do grupo de pesquisas “ Racionalidades Médicas” vem de encontro com a proposta da Organização Mundial de Saúde ( OMS ou WHO em inglês), que promove e apóia a utilização das medicinas tradicionais ( medicinas tradicionais são aqueles sistemas que possuem centenas de anos de experiência no seu país de origem, como a Medicina Tradicional Chinesa e o Ayurveda) como método alternativo de tratamento das enfermidades. Em 1983 a OMS publicou um texto denominado “Traditional medicine and health care coverage: a reader for health administrators and pratitioners” onde encontramos a seguinte afirmação:

 “Atualmente está amplamente reconhecido que existe um grande potencial na medicina tradicional para contribuir ao cuidado primário a saúde, especialmente em paises em desenvolvimento. Tal potencial é devido a não apenas a aceitação destes sistemas  ao nível das comunidades mas também a sua abordagem simples, não tóxica, menos dispendiosa e testada pelo tempo dos seus medicamentos para alivio das doenças e reabilitação. Alem disto, o fato que um considerável numero de profissionais formalmente e não formalmente treinados de medicina tradicional vive e trabalha em comunidades rurais distantes, enfatiza a necessidade de seriamente considerar, de que maneira eles podem estar associados ao cuidado primário a saúde para alcançar o objetivo universal de saúde para todos no ano 2000. “ (Mustalik em WHO, 1983: 281)

Neste trabalho pioneiro da OMS de 1983 observamos a importância e valorização da utilização das medicinas tradicionais, como a Medicina Chinesa e o Ayurveda, no cuidado primário a saúde. No Brasil nós temos um exemplo de utilização no Sistema Único de Saúde da Medicina Ayurvedica que é o Hospital de Medicina Alternativa ( HMA ) de Goiânia, no estado de Goiás. A historia da chegada do Ayurveda no Brasil é contada pelo dr. Danilo Maciel Carneiro, médico do Hospital de Medicina Alternativa, no seu trabalho pioneiro denominado “Ayurveda – Saúde e Longevidade”:

  “ O Ayurveda chegou oficialmente ao Brasil em 1985, por força de um convenio do Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social ( INAMPS) e do Ministério da saúde com o Instituto de Ciência e Tecnologia Maharishi, liderado pelo mestre indiano, mundialmente famoso, Maharishi Mahesh Yogi. Uma vez firmado este convenio ele foi proposto pelo Ministério da Saúde e pelo INAMPS aos diversos estados do Brasil, sendo aceito por três estados brasileiros: Pernambuco, Rio de Janeiro e Goiás. Nos dois primeiros estados, o projeto, após iniciado, foi interrompido precocemente em virtude de discordancias políticas ou ideológicas entre as partes envolvidas no convenio, ou de outros motivos que não nos compete discutir no presente texto. Já no estado de Goiás, o projeto se desenvolveu e, nos anos 1986 e 1987, ocorreu o primeiro curso de Medicina Ayurvedica para profissionais de saúde da rede publica estadual contemplando médicos, farmacêuticos, agrônomos e enfermeiros.

                      A partir de então e até por volta de 1995, mais e dez médicos indianos vieram a Goiânia, em grupos que passavam de dois a quatro anos ensinando e acompanhando os profissionais brasileiros em cursos e estágios práticos…Com seus préstimos eles fundamentaram o Ayurveda em Goiania e deram origem a equipe que hoje perpetua este trabalho em nosso meio…

                      No ano de 1988, deu-se a criação, pelo governo do estado de Goiás, de um centro ambulatorial de referencia em Fitoterapia e Medicina Ayurvédica em Goiânia, que passou a ser conhecido como Hospital de Terapia Ayurvedica. Essa unidade da Secretaria de Estado da Saúde passou a congregar os profissionais que realizaram os cursos de Medicina Ayurvédica promovidos pelo convenio antes mencionado. A primeira diretora geral do então Hospital de Terapia Ayurvedica foi a dra Heloisa Helena Teixeira dos Reis, médica especialista em dermatologia…Ela permaneceu á frente desta unidade, que hoje se denomina Hospital de Medicina Alternativa ( HMA ), até o inicio do ano de 1999…O HMA oferece também serviços nas áreas de Homeopatia e Acupuntura, alem da Fitoterapia e do Ayurveda. Ao todo, até a presente data, cinco cursos de introdução’ ao Ayurveda já foram ministrados pelo HMA, e mais de duzentos profissionais de saúde da rede publica estadual passaram a conhecer esta maravilhosa ciência” ( Carneiro, 2007: 16)

A proposta de um novo paradigma em que as diversas racionalidades médicas trabalhem em conjunto com o objetivo de promover a saúde, prevenir as doenças e tratar os enfermos não é uma utopia. Já temos exemplos, como o citado Hospital de Medicina Alternativa, que isto é possível e viável. Quando nós visitamos este serviço, em 1997 e 1998, fomos recebidos pela sua diretora, dra Heloisa Helena Teixeira dos Reis, observamos o grande numero de plantas medicinais cultivadas no horto, que são utilizadas pela farmácia do Hospital para a formulação de medicamentos fitoterápicos, fundamentados no Ayurveda, distribuídos gratuitamente aos pacientes. O grande diferencial é que as plantas medicinais brasileiras podem ser identificadas e catalogadas segundo a experiência milenar da Medicina Ayurvedica. Este modelo que funciona, há mais de 20 anos em Goiânia, deveria ser copiado em outras capitais brasileiras para beneficio da nossa população de baixa renda que muitas vezes não tem acesso as medicinas não convencionais.