Posts

Neste importante momento da nossa pesquisa vamos analisar o Ayurveda dentro do contexto histórico da sua gênese. Pois apesar dos autores indianos colocarem a Medicina Ayurvedica ou Ayurveda como um derivado dos vedas ou upa-veda. Nos textos védicos,
que chegaram até a nossa era não existe nenhuma referencia ao termo Ayurveda, e nem a tradicional classificação do tipo psico-fisico dos doshas que é fundamental, dentro do diagnóstico e tratamento, segundo os textos clássicos da Medicina Indiana. Ranade, Qutab e Deshpande, médicos e autores indianos afirmam:

“ Dentro dos quatro Vedas, Atharva Veda é o mais antigo registro do conhecimento médico durante o período védico. Então a ciência do Ayurveda é um sub-ramo do Atharva Veda. Este contém muitos hinos, preces e encantamentos para o tratamento de doenças para serem utilizados com as plantas medicinais. A maioria dos versos védicos de cura estão no Atharva Veda. Mais de cem dos seus hinos são dedicados a condições como: febre, lepra, doença do coração, dor de cabeça, reumatismo, epilepsia etc…” (Ranade, Qutab, Deshpande,1998: 11 )

Esta afirmação é uma crença geral da tradição indiana, porém o nosso questionamento é que como um conhecimento pode ser um sub-ramo de outro mais antigo se este não cita nenhuma das suas teorias básicas e muito menos o seu nome? Os mesmos autores parecem se contradizer quando mais adiante no livro “ History and Philosophy of Ayurveda” afirmam:

“ É importante notar que o conhecimento sobre os princípios fundamentais do Ayurveda não foram documentados durante o período védico. O crescimento e desenvolvimento do Ayurveda ocorreu principalmente durante o período Asha.” (Ranade, Qutab, Deshpande, 1998:12)

E mais adiante os autores não descrevem uma data precisa para o período Asha mas dão uma idéia subjetiva que este período seria posterior ao período védico quando os principais textos clássicos do Ayurveda foram compilados:

“ Este período se estende através de alguns séculos e é caracterizado pelo aparecimento de muitos tratados, sistematizados, sobre o tema do Ayurveda por diferentes sábios. Ayurveda, a ciência da vida, é reconstituído de uma origem mítica através do semimítico até o seu inicio histórico.” (Ranade, Qutab e Deshpande, 1998: 12)

É exatamente esta origem histórica que não está bem clara, pois do período védico, que Max Muller colocou como entorno do segundo milênio antes da nossa era, até a compilação dos compêndios clássicos do Ayurveda, chamados de Samhitas, principalmente Bhela, Susrura e Charaka Samhitas pode haver uma distancia de algumas centenas de anos que estão cobertos por escuridão. A colocação de Ramachandra Rao sobre os ramos da Medicina Indiana e a possível raiz do Ayurveda é deveras interessante:

“ A Medicina Indiana chegou até nós em alguns ramos, quatro deles sobressaem-se claramente. O primeiro ramo é composto por médicos profissionais chamados vaidyas ou bhishaks originalmente pertencentes a uma classe de pessoas chamados ambashtas. O segundo consiste de vendedores errantes, a maioria deles de origem tribal, que coletam drogas e ervas nas florestas e montanhas e as vedem nas aldeias. O terceiro grupo são sacerdotes dos templos, especialmente os de crença Vaikhanasa que também são chamados a atuar como médicos.O quarto ramo é ilustrado por aquilo que podemos chamar de “remédios caseiros”, a sabedoria e prática médica que foram, até recentemente, comuns dentro do meio doméstico denominadas como “prescrição da vovó”em todo o país.” (Rao,1985: 2)

Com esta afirmação podemos ver a grande heterogeneidade das práticas médicas na Índia, aqui Ramachandra Rao sugere um sincretismo da sabedoria popular com influencia na origem do Ayurveda:

“ Pode ser visto prontamente que o primeiro destes ramos apóia-se em uma literatura tradicional elaborada e uma disciplina empírica. Os outros três estão obviamente enraizados em práticas populares, para eles naturalmente faltam uma tradição documentada e padronizada para sustentar suas práticas e prescrições . Mas considerando a difusão e a singular surpreendente correspondência entre estas práticas em diferentes partes da Índia, é razoável assumir que a tradição popular, apesar de não estar documentada, foi profundamente enraizada e largamente embasada. É possível que mesmo a habilidade e a sabedoria médica do profissional médico na Índia antiga foram definitivamente fundadas na tradição popular. O arcabouço essencial foi fornecido pela habilidade popular e os detalhes foram trabalhados nos anos subseqüentes pela observação, racionalização, experiência e experimentação.”(Rao, 1985:2)

Com esta afirmação o autor coloca a sabedoria da medicina popular como uma grande influencia dentro do Ayurveda, mas as suas especulações não se limitam a medicina
popular. Ramachandra Rao acredita na influencia de outras fontes e escolas na formação do Ayurveda:

“ A medicina profissional na Índia tem quatro linhas maiores de desenvolvimento, todas elas têm origem em um passado remoto. Duas delas, uma representada pelo médico Charaka e outra pelo cirurgião Susruta ( ambos viveram em séculos anteriores a era cristã) são coletivamente chamadas de Ayurveda ( ou a Ciência da Vida), e foram integradas dentro do corpo védico.Eles constituem uma tradição, separada em oito ramos. A terceira linha de desenvolvimento é o sistema de alquimia terapêutica conhecido como Rasavaidya ( ou a escola Rasayana), no qual há um grande uso de metais e mercúrio. Este é um ponto de encontro entre a química indiana e a Medicina Indiana. Este sistema está normalmente incluído na tradição ayurvedica, desenvolveu-se quase que indepen-dente do corpo védico, e tirou proveito do contato com outras culturas como a Árabe, Persa e Chinesa. A quarta linha de desenvolvimento é o sistema Siddha , ( ou o “perito”) o qual a origem é extremamente obscura, porem foi, claramente, fora da tradição védica. Atualmente é prevalente apenas no sul da Índia, especialmente em Tamil Nadu. Existe pouca dúvida que todas estes sistemas foram enraizados na cultura tantrica e foram grandemente influenciados pelo complexo Samkhya-Yoga.”( Rao, 1985: 3)

Com estas afirmações, que não são aceitas pelos hindus ortodoxos, Ramachandra Rao coloca outras influencias na formação do Ayurveda. A possível interferência de fontes estrangeiras na formação do Ayurveda é uma hipótese bem interessante pois como vimos as trocas comerciais entre a Índia e a China eram uma realidade a partir do século II A C. Mas a influencia da tradição tantrica, certamente não védica, é uma colocação de extrema ousadia dentro do sistema ortodoxo hindu, que não aceita esta tradição como legitima pois é colocada como marginal ao corpo de conhecimento dos Vedas.

Tantra é um termo sânscrito que significa teia ou urdidura, deriva do radical “tan”que tem o sentido de expandir. Tantra também pode significar sistema, ritual doutrina ou compendio. Segundo explicações esotéricas Tantra é aquilo que expande o conhecimento ou sabedoria, neste sentido a filosofia do Tantra levaria ao auto-conhecimento. O Swami Rama em seu interessante trabalho “Vivendo com os Mestres do Himalaia” afirma:

“ Há uma vasta literatura sobre a filosofia e a ciência do Tantra, que não se compreende com facilidade e que é amiúde mal empregada. Ciência esotérica altamente avançada, tem sido praticada por hindus, jainistas e budistas. De acordo com a ciencia do Tantra, macho e fêmea são dois princípios do universo chamados de Shiva e Shakti. Os dois princípios existem no interior de cada individuo.Há três escolas principais de Tantra: Kaula, Misra e Samaya. Os Kaulas, ou tantristas da mão esquerda, adoram Shakti e seu modo de adoração envolvem rituais externos, incluindo práticas sexuais. Meditam sobre a força latente interior (Kundalini) e a despertam no chacra Muladhara, localizado na base da espinha. Os leigos, muitas vezes, empregam mal este caminho. Na escola Mishra ( mista ou combinada), o culto interior combina-se com práticas externas. A força latente, despertada e conduzida ao chacra Anahata ( centro do coração),ali é adorada. O caminho mais puro e mais alto do Tantra chama-se Samaya, ou caminho da mão direita. Puramente iogue, nada tem que ver com qualquer ritual ou forma de culto que envolva sexo. A chave é a meditação no lótus de mil pétalas, o mais elevado de todos os chacras…. O estudo dos chacras, nadis ( correntes nervosas sutis) e pranas ( forças vitais) e um estudo filosófico da vida são necessários a quem quiser ser aceito como discípulo desta escola.” ( Rama, 1978: 241)

Segundo Feuerstein o Tantra desenvolveu a sua própria forma de terapia, pouco conhecida no ocidente, é baseada na idéia da auto-purificação não só no nível físico e mental mas também a nível energético. A purificação física é feita através dos exercícios de Hatha Yoga, o Yoga da força, a purificação mental consiste em práticas de meditação e a purificação energética através de exercícios respiratórios para harmonizar o prana. Os praticantes do Tantra são zelosos em manter o seu bem estar físico. Feuerstein coloca:

“ Com este fim, eles se beneficiam das técnicas do Hatha Yoga e dos muitos remédios naturopaticos do Ayurveda(Ciência da Vida), que vão de ervas à dieta e ao jejum. Fazem inclusive uso de preparados químicos que acreditam promover a saúde e longevidade. Desde os primórdios que tem existido um vinculo entre Tantra, medicina e alquimia. Todos os três se desenvolveram através de experimentação e experiência pessoal ao longo de muitos séculos. Numerosos iniciados escreveram textos sobre Yoga e medicina. Assim Patanjali que compôs o Yoga-Sutras, é considerado também autor de obras sobre medicina e gramática.”( Feuerstein, 2001: 169 )

A origem do Ayurveda pode ter sido múltipla através de diversas fontes de varias regiões dentro e fora da Índia. Algumas possíveis fontes de desenvolvimento da “Clássica Medicina Indiana” já foram colocadas como: os Vedas, mais especificamente o Atharva Veda, o Tantra, a alquimia indiana e influencias provenientes de países vizinhos como os Árabes e os Chineses. Sobre estas influencias no Ayurveda Ramachandra Rao coloca:

“ Se o Ayurveda surgiu da tradição tantrica para uma carreira independente, os sistemas de alquimia da Medicina Indiana, Rasachikitsa e Siddha, continuaram os seus envolvimentos com as idéias tantricas. Não é fácil identificar as origens das idéias alquímicas na Índia. Presume-se que o contato com a China, o primeiro lar da alquimia ( em torno do terceiro século A C), foi o responsável pelo desenvolvimento deste complexo teórico-pratico aqui. Mas os objetivos gêmeos da alquimia, nominalmente, a transmutação de metais comuns em metais nobres (como ouro e prata ) e o prolongamento da vida por um elixir são sugeridos nos registros védicos. As idéias alquímicas eram prevalentes aqui desde, possivelmente, tempos pré-vedicos, apesar deles não produzirem um sistema,como eles produziram na China, Egito, países Árabes e Europa Ocidental, até três ou quatro séculos após Cristo. A utilização dos metais, minerais pedras preciosas e ervas para fins medicinais e mágicos era conhecida pelos poetas do Rig Veda e do Atharva Veda…. A influencia chinesa estava certamente lá, especialmente nos primeiros séculos da era cristã, e a Mahachina ( a grande China ou Tibet) era uma terra familiar aos tantricos e alquimistas da Índia. Siddha Nagarjuna supostamente foi lá; e o Siddha de Tamil, Bogar, é dito ter vindo daquele país. Ambos foram eminentes mestres da alquimia indiana durante o quarto e quinto século…” (Rao, 1985: 10)

Alem da possível influencia da alquimia tantrica e da escola chinesa existe uma outra possibilidade que foi pesquisada e referendada por Zysk que é a dos ascetas errantes que eram prevalentes na Índia durante o período de Buda, século V e VI A C, e que faziam parte de uma tradição “não bramanica”ou seja fora do corpo védico de conhecimento. Estes ascetas errantes foram denominados Sramanas. É possível que o nome Charaka (autor do clássico do Ayurveda Charaka Samhita) tenha alguma relação com esta tradição, pois a palavra caraca um nome masculino da raiz sânscrita “car” significa um errante ou um asceta, possívelmente um asceta errante dedicado a medicina ou seja o grupo dos Sramanas. Mircea Eliade em seu surpreendente trabalho “Yoga, Immortality and Freedom” faz referencia aos Sramanas como mágicos:

“Mágicos, ascéticos e comtemplativos continuam a aparecer no crescente corpo de textos rituais e comentários. Algumas vezes há, nada mais que uma alusão, como, por exemplo no caso de certa classe de “black sramanas- magicians” mencionados no Apastamba-sutra ( 2, IX, 23, 6-8): “Agora eles realizam seus desejos meramente, por imaginá-los. Por exemplo, (o desejo de) obter chuva, conceber uma criança, mover-se tão rápido quanto o pensamento e outros desejos desta espécie.”( Eliade, 1967: 135 )

Provavelmente a medicina foi “empurrada” para as tradições marginais ao corpo védico e perdeu seu status devido ao conceito védico, descrito nos textos daquele período, de que o médico era considerado impuro e por isto o Brâmane não deveria seguir a carreira médica pois teria que entrar em contato com pessoas de classes inferiores ou seja impuras.
Podemos entender melhor esta questão ao lermos as palavras de Zysk:

“Trabalhos literários sub-sequentes , particularmente…do período védico tardio( 900a 500 A C) indicam que os médicos e a medicina foram denegridas pela hierarquia sacerdotal, que censurava os médicos pela sua impureza e pela sua associação com todo tipo de pessoas. Uma passagem do Taittiria Samhita fornece evidencias do conceito dos sacerdotes pelos médicos…: “Os deuses falaram para aqueles dois: “estes dois médicos, que vagam com humanos, são impuros. Portanto a medicina não é para ser praticada pelo Brahman, pois aquele que é um medico ( bhisaj ) é impuro, inadequado para o sacrifício”… (Zysk, 1998; 22)

Os médicos, segundo a tradição vedica-bramanica, eram considerados impuros logo inadequados para participar dos rituais e sacrifícios que estavam restritos aos Brâmanes, que eram os sacerdotes e a elite religiosa no período dos Vedas. É provável que esta estrutura social tenha levado a formação de uma tradição não védica associada as artes da cura e que a partir desta tradição, que não estava restrita as regras Bramanicas, tenha surgido uma abordagem, com relação a saúde, distinta daquela dos Vedas. Na literatura encontramos referencias aos ascetas errantes que poderiam ter representado este papel pois não estavam restritos as crença védicas das “impurezas criadas por vagar entre os homens”.

“ Evidencias significativas da conexão entre as artes médicas e os ascetas errantes( Sramanas) é proveniente do relatório do historiador grego Meghasthenes ( 300 A C ), um embaixador especial enviado por Seleucus para a corte de Chandragu Pta Maurya no Pataliputra (moderno Patna). Suas observações são comunicadas pelo historiador e geógrafo Strabo ( 64 A C a 21 D C ): “… e em relação aos Garmanes ( Sramanas), Megasthenes diz que alguns, os mais estimados, são chamados Hylobii, (habitantes das florestas), que vivem nas florestas, sobrevivendo de folhas e frutas selvagens, vestem-se de cascas de arvores, e não se entregam ao intercurso sexual e ao vinho…. E após os Hylobii, Megasthenes diz que, os médicos, vem em segundo em honra, e que eles são filósofos, interessados na humanidade, frugais, porem não vivem da terra, sustentam-se com arroz e cevada…ele diz que eles são capazes de fazer gerar múltiplos filhos… através da arte de preparar e utilizar as drogas, porem eles levam a cura através dos grãos, na maioria das vezes, não através das drogas, e sobre as drogas, ele diz que, as mais estimadas são os ungüentos e os emplastros, mas têm muitos perigos no resto. E, ele diz, que, ambos, os primeiros e os segundos, ( Sramanas) praticam resistência, ativa e inativa, então eles podem ficar fixos em uma postura todo o dia; e há outros que são proféticos, habilidosos no uso dos encantamentos, e habilidosos nas palavra e costumes associado aos que “falecem”, e aqueles que pedem esmolas através das aldeias e cidades, por outro lado há outros que são mais atraentes que estes mais urbanos…e, ele diz que, as mulheres assim como os homens estudam filosofia com alguns deles, e as mulheres também abstêm-se do sexo.” (Zysk, 1998: 37)

Nesta referencia de Megasthenes fica bem claro a associação dos Sramanas com a medicina e a filosofia. Podemos relacionar os Sramanas com monges budistas ou yogues que praticavam austeridades, posturas de Yoga e meditação, assim como o celibato. Provavelmente eram considerados sábios pois “ as mulheres assim como os homens estudam filosofia com alguns deles”. Os Sramanas podem ser aquilo que Filliozat chamou de “ intermediary tradition” no seu trabalho “The Classical Doctrine of Indian Medicine”:

“ A Medicina Indiana teve, portanto, retirado dos Vedas os principais elementos da sua doutrina geral. Desse modo, o Ayurveda é o legitimo herdeiro dos Vedas, porém desenvolveu a uma vasta extensão o patrimônio recebido. Sistematizou idéias antigas que constituiu um imenso tesouro de observações e experiências ambas com relação as doenças e o meio de curá-las. Quando nós encontramos isto pela primeira vez nos textos clássicos, parece como se existisse um abismo entre o conhecimento acumulado por eles e as escassas noções médicas que podem ser encontradas nos antigos textos védicos. Os trabalhos intermediários, aqueles que nós poderíamos observar a constituição gradual do vasto edifício, que repentinamente, aparece a nossa frente na sua forma já pronta, não chegaram até nós …É devido a necessidade de uma continuação entre as especulações védicas e a clássica doutrina do Ayurveda que nós podemos afirmar com certeza a existência de uma tradição intermediária.” (Filliozat, 1968: 188)

Esta tradição intermediária, possivelmente, seria uma tradição de ascetas errantes, que viviam a margem da tradição hegemônica dos Brâmanes védicos. A tradição budista e os ascetas Sramanas, ambos não védicos, seriam possivelmente a mola propulsora no desenvolvimento de um sistema empírico-racional que veio “concorrer” com a medicina
mágico-religiosa dos textos védicos, principalmente o Atharva Veda. É muito interessante a colocação de Ramachandra Rao sobre os ascetas Sramanas:

“ A medicina Indiana foi ativamente cultivada durante alguns séculos ( sete a oito de acordo com Filliozat) antes do nascimento de Cristo. Nós temos a evidencia de Megasthenes, o embaixador grego que visitou a Índia no quarto século A C, que os Sramanas ( um grupo de filósofos e ascetas fora da cultura védica) eram praticantes de medicina e eram grandemente respeitados pela população por estes serviços. Há uma sugestão em Strabo ( 15, 170) que estes Sramanas eram também mágicos, dando crédito a visão que a Medicina Indiana pertenceu a tradição Tantrica.” ( Rao, 1985: 8)

Com estas referencias fica bem claro a conexão entre os ascetas Sramanas e a Medicina Indiana, mas com relação a tradição budista que se iniciou a partir do século VI A C com Sidharta Gautama, o Buda, podemos afirmar que a medicina budista, que era um dos conhecimentos que os monges deveriam estudar, teve como seu pioneiro o próprio medico de Buda, Jivaka Komarabhacca. Contam os textos budistas que Jivaka fez sua formação em Taxila, no noroeste da Índia, onde estudou por sete anos com um renomado médico chamado Atreya. Segundo a tradição Jivaka, após sua formação com Atreya, se tornou médico do rei e foi designado para tratar o próprio Buda sendo considerado o maior médico da sua época.. Zysk cita uma importante passagem de um texto budista em pali que faz uma conexão direta entre o Ayurveda, a medicina budista e os Sramanas, ou Samanas em pali, através das palavras do próprio Buda:

“ Quando questionando o Buddha sobre a causa do sofrimento da humanidade, o asceta errante Sivaka, que pode ter sido um medico, disse que alguns Samanas e Bramanas afirmam que o sofrimento é causado apenas pelas ações passadas, Karma. O Buddha disse que esta visão era incorreta e que a causa do sofrimento da humanidade tinha oito razoes: “bile (Pitta), fleuma ( Kapha), vento( Vata) e suas combinações ( sannipata), mudança das estações ( utu), estresse de atividades não usuais (visamaparihara) (e.g.sentar ou ficar muito tempo em pé), os excessos, sair repentinamente a noite,( ser mordido por uma cobra) agentes exter-nos (ser preso como ladrão ou adultero) e o resultado de ações passadas é o oitavo” ( Zysk, 1998; 30)

Este texto acima poderia, sem nenhum erro de doutrina, estar dento de um tratado   clássico sobre Ayurveda, pois as mudanças de estações, as alterações de Vata, Pitta e Kapha, os excessos e os agentes externos são todos citados na clássica Medicina Indiana como causadores de doenças. Podemos, então, aferir a ligação que existia do budismo primitivo com o Ayurveda e a tradição dos ascetas errantes, cada um deles estava fora da tradição dos Vedas ou seja não eram aceitos pela tradição religiosa hegemônica naquela época. Isto coloca a comunidade budista (sangha) em destaque, pois, afirma a tradição, que Buda negou a autoridade dos Vedas e como vimos os textos védicos daquele período colocavam a profissão médica como impura logo inadequada para o Brâmane. A nossa hipótese aqui é bem clara: a tradição que deu origem ao Ayurveda não pode ser védica pois a medicina foi menosprezada pelos textos védicos.Com relação a isto Zysk afirma:

“ O movimento ascético heterodoxo na Índia antiga abasteceu com uma orientação social e filosófica os primeiros budistas e teóricos médicos. Os médicos, como os ascetas, eram buscadores de conhecimento e fora de castas, evitados pelos hindus ortodoxos. Eles erravam, realizando curas e adquirindo novos medicamentos, tratamentos e conhecimento médico, e eventualmente se tornaram indistinguíveis dos outros Sramanas com os quais estavam em contato freqüente. Os médicos não eram necessariamente ascetas, mas muitos ascetas, como os monges budistas curadores, poderiam muito bem ter sido médicos.Um enorme deposito de conhecimento médico desenvolveu-se entre estes médicos Sramanas fornecendo a tradição médica indiana os preceitos e a prática daquilo que seria conhecido como Ayurveda. Os primeiros documentos desta tradição médica ocorreram quando os ascetas errantes assumiram uma existência mais estacionária, enclausurados nos monastérios budis-tas primitivos.” ( Zysk, 1998: 37)

A nossa hipótese aqui é que varias tradições, que estavam em contato no primeiro milênio antes da nossa era, principalmente a partir da época de Buda, século VI A C, foram as responsáveis pela interação que deu origem a uma nova abordagem médica: A tradição dos ascetas errantes, Sramanas, o Tantra e sua alquimia, associado as influencias externas chinesas, e o pensamento budista, todos eles não védicos ou seja fora de castas, levaram a uma abordagem empírico-racional da saúde em substituição ao antigo paradigma mágico-religioso brâmane. A filosofia budista com o seu clássico “caminho do meio” foi um combustível importante nesta nova abordagem.

A mudança de paradigma de uma medicina mágico-religiosa, prevalente nos Vedas, para uma medicina empírico-racional dos textos clássicos do Ayurveda pôde acontecer devido aos personagens principais desta transformação não estarem limitados pelos
conceitos védicos, pois eram sem castas, ou seja fora da hierarquia bramanica. Posteriormente quando o Ayurveda tornou-se popular, houve a necessidade dele ser referendado como um conhecimento da tradição hindu, ou seja uma “hindunização” de uma tradição que foi em seu inicio anti-vedica, neste momento “as cartas já estavam marcadas” pois colocou-se o Ayurveda relacionado ao “menor” dos Vedas, o desvalorizado Atharva-Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao sabiamente coloca:

“ A antipatia nutrida pelos ortodoxos ao Ayurveda deve ser considerado neste terreno. E quando o Ayurveda teve que ser acomodado dentro do complexo védico, o Atharva-Veda era naturalmente aonde ele pertencia. Characa afirma que o Atharva-Veda é superior aos outros Vedas por que se relaciona com a vida que é a fundação de toda a felicidade e riqueza, e isto é sintomático da sensibilidade do profissional médico daquele período. Sua afiliação ao Atharva-Veda foi a natureza de um desafio, pois este Veda tinha uma reputação duvidosa nos círculos ortodoxos.” ( Rao, 1985:7)

Vamos agora analisar os principais textos clássicos do Ayurveda: Charaka, Susruta, e Vagbhata Samhita em uma visão critica.

O Reumatismo ou doença reumatológica envolve mais de 100 doenças na medicina ocidental. Segundo a escola americana de Reumatologia podemos classificar o reumatismo da seguinte forma:

1- Doenças do Colágeno ou auto-imunes: ex. Artrite Reumatóide e Lupus Eritematoso
2- Artrites associadas a espondilites: ex. artrite da Psoríase
3- Reumatismo degenerativo: ex. Artrose
4- Artrites infecciosas
5- Doenças endócrinas e metabólicas: ex. Gota
6- Alterações ósseas: ex. Osteoporose
7- Reumatismo de tecidos moles: ex. Bursite, Tendinite e Fibromialgia

Apesar de serem muitas doenças na visão ocidental o Ayurveda classifica o reumatismo em 3 tipos: Reumatismo do tipo Vata com muitas dores articulares que podem ser migratórias, pioram com o frio e melhoram com o calor. Neste caso o paciente apresenta pele seca e creptações nas articulações, ansiedade, depressão e insônia. Reumatismo do tipo Pitta com muita inflamação, vermelhidão, sensação de queimação, febre e sudorese, piora com o calor e melhora com o frio e irritabilidade. Por último o reumatismo do tipo Kapha, com edema, inchaço, dor em peso que melhora com calor e piora com o frio e umidade, pele oleosa, fadiga e tendência a ganhar peso com facilidade.

O Ayurveda afirma que as doenças reumatológicas estão associadas a acúmulo de AMA ou toxinas devido a alterações digestivas e constipação. Neste caso temos que enfatizar a importância de uma alimentação equilibrada e individualizada de acordo com o diagnóstico da desarmonia do paciente. Uma dieta rica em alimentos de origem animal como leite e derivados, carnes e gorduras pode provocar o acúmulo de AMA, com a formação de alterações músculo-esqueléticas que chamamos de reumatismo.

Associado a uma dieta equilibrada recomendamos a fitoterapia, uso terapêutico das plantas medicinais. O Ayurveda possui muitas ervas com propriedades analgésicas e antiinflamatórias como a Commíphora mukul e a Boswellia serrata.

A massoterapia ayurvedica é uma excelente ferramenta terapêutica no paciente com reumatismo. Pois promove um profundo relaxamento, que alivia as tensões associadas a
Doença, reduz a fadiga, ansiedade e depressão que são prevalentes nestas alterações. No Ayurveda a escolha do óleo medicinal é fundamental pois será feita de acordo com o diagnóstico do desequilíbrio de Vata, Pitta ou Kapha no momento do tratamento.

O tratamento com sucesso das doenças reumatológicas necessita de uma transformação,com uma rotina diária, individualizada, de hábitos saudáveis que propõe uma mudança no padrão mental do paciente,com a prática regular e bem orientada de Hatha Yoga e meditação.