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O Ayurveda e a Meditação
O Ayurveda é a filosofia médica oriental que foi desenvolvida no subcontinente indiano há muitas centenas de anos. Nesta racionalidade a mente e o corpo sempre estiveram interligados pois benefícios ao físico influenciam positivamente a nossa dimensão mental e a bem estar psicoemocional promove harmonia a fisiologia. Afirma-se que o ser humano é uma árvore invertida, se o objetivo é melhorar as flores e frutos deve-se atuar na raiz da planta. A raiz da pessoa está no sistema nervoso e para acessá-lo deve-se abordar a mente e através da dimensão mental atuamos no cérebro. Isto demonstra claramente que não adianta recomendar medicamentos para a doença física sem abordar os distúrbios mentais que invariavelmente estão associados. O Charaka Samhita, principal texto de clinica medica ayurvedica, afirma “ O corpo e a mente constituem o substrato das doenças e da saúde e é a sua utilização equilibrada que torna-se a causa da felicidade”.
A tradição indiana afirma que a mente possui três grandes qualidades ou mahagunas em sânscrito: Sattva traz equilíbrio, paz de espirito, introspecção e autoconhecimento, Rajas promove paixões, desejos, movimento e ação porem Tamas gera inércia, escuridão, preguiça e embotamento. Apesar de ser claro a necessidade das 3 qualidades para nossas atividades diárias o Ayurveda recomenda que deve-se aumentar Sattva e diminuir Rajas e Tamas. Mais uma vez retornamos ao Charaka que ensina: “ Os fatores patogênicos do corpo são os Doshas Vata, Pitta e Kapha, enquanto as causas do adoecimento da mente são Rajas e Tamas”. Mais adiante este autor refere; “ … os fatores patogênicos da mente são apaziguados por sabedoria espiritual, estudo das escrituras, paciência, memória e meditação”.
Desde os anos 1970 que a ciência ocidental vem explorando os benefícios físicos e mentais de uma prática regular e bem orientada de meditação. Foram realizadas centenas de pesquisas, em muitos países, que apontaram para os seguintes efeitos positivos do método: maior estabilidade emocional, aumento da espontaneidade, diminuição dos quadros de ansiedade e depressão, redução da dependência por drogas, benefícios importantes para a memoria, inteligência e a criatividade, desenvolvimento da concentração, melhora a qualidade do sono, aumenta a vitalidade, diminui a pressão arterial em hipertensos, redução de estresse e doenças psicossomáticas, alivio de dores crônicas, melhora o tempo de resposta e a coordenação e diminuiu a frequência dos quadros de asma e reações alérgicas. Lawrence Leshan autor do livro “ How to Meditate” afirma de forma contundente: “…A meditação parece produzir um estado fisiológico de relaxamento profundo conjugado a um estado mental desperto e altamente alerta…O estado fisiológico produzido pela meditação parece ser oposto ao estado produzido pela ansiedade ou pela raiva”.
O autor Victor N. Davich no seu interessante livro “ O Melhor Guia para a Meditação” afirma “ Quanto mais meditação fizer mais você irá entrar em contato consigo mesmo e por conseguinte mais consciente ficará do que faz a cada momento” . A meditação silenciosa é a arte do autoconhecimento mas para atingirmos o estado de meditação profunda é necessário uma regularidade diária na prática e também, não menos importante, a orientação de um professor experiente e bem intencionado. Algo que funciona para mim é ter um cantinho de meditação e me comprometer a sentar diariamente, duas vezes ao dia, manha e noite neste espaço. Mas porque duas vezes ? A meditação da manhã prepara a mente para as atividades do dia, porem a introspecção noturna dissolve as ansiedades e tensões provenientes do estresse diário e promove um sono mais reparador. O melhor é praticar antes das refeições ou pelo menos duas horas após a comida. As melhores meditações que eu tive foram com fome, ou seja, com o estomago totalmente vazio.
Afirma-se que “a repetição é a mãe da habilidade” e este ditado esta relacionado a pratica da meditação. Quanto mais eu pratico melhor fica a minha introspecção. Na minha rotina diária utilizo duas metodologias: a respiração e o uso do mantra. A respiração é algo que está disponível a todos o que torna-se simples porem muito eficaz. Já o mantra é uma ferramenta poderosa para a transcendência. Na Índia quando o aluno recebe o mantra do professor é chamado de “guru-mantra” e este som deve apenas ir da boca do preceptor para o ouvido do estudante, ou seja, não deve ser divulgado. Meu instrutor indiano me ensinou a repetir o mantra 108 vezes a partir do ajna chakra ou terceiro olho. Com a repetição da pratica a mente torna-se mais calma, uma mente tranquila é mais concentrada e o aumento da concentração gera uma mente muito mais eficiente. Então além de melhorar a saúde física e mental a meditação também deixa a mente mais eficiente e melhor capacitada a resolver problemas. Termino com as palavras do incomparável mestre Yogananda autor do belíssimo livro “ Autobiografia de um Iogue” : “ Mergulhe novamente e novamente no oceano da meditação e capture as pérolas da comunhão abençoada”.
Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Tel: (21) 25373251, Visite: www.ayurveda.com.br

Toda pessoa normal deseja uma vida longa, produtiva e feliz, mas para isto se realizar é necessário ter svastha ou saúde. Para o Ayurveda um ser humano saudável é aquele que apresenta Doshas ( humores) e Agni ( fogo digestivo) em equilíbrio, Dhatus ( tecidos) e Malas ( excreções) cumprindo suas funções adequadamente e um bem estar com relação a sentidos, mente e alma ( Atma).. A definição da Organização Mundial de Saúde é semelhante a visão da Medicina Ayurvedica: “saúde não é apenas a ausência de doença mas o completo bem estar físico, mental e social”. Para alcançarmos este objeti-vo necessitamos de uma rotina diária de hábitos saudáveis denominada dinacharya.
O médico e mestre de Ayurveda, dr. Robert Svoboda, afirma que Svasthavritta significa “estabelecer-se em bons hábitos”.A Medicina Ayurvedica tem recomendações para uma vida saudável desde o momento que se acorda até a hora de dormir. A regra de ouro na tradição indiana é a moderação, ou seja, todos os excessos e deficiências são prejudiciais a saúde. Este talvez seja uma das maiores dificuldades na vida ocidental: seguir o “caminho do meio”. Durante uma interessante aula, em um curso na Índia, o professor, médico ayurvedico e sacerdote brâmane, afirmou de forma contundente: “uma rotina diária equilibrada deve ser dividida em 3 partes: 8 horas de descanso noturno ( sono), pois o repouso é a base da atividade, 8 horas de trabalho e as outras 8 horas para família, higiene, atividade física, transporte, alimentação saudável e meditação”. Quando ele disse isto uma pergunta surgiu na minha mente “será que eu sigo esta sábia recomendação no Brasil ?”

“saúde não é apenas a ausência de doença mas o completo bem estar físico, mental e social”.

Quando nós olhamos para a natureza observamos que ela segue um ritmo. Podemos ver isto nos ciclos de dias e noites e nas estações do ano. O ser humano é um “mini universo”, ou seja, um microcosmo dentro do macrocosmo. As mesmas leis que regem o universo também controlam a fisiologia humana. Se nós queremos ter mais saúde é necessário uma sintonia com estas leis. Semelhante a um jogo de futebol: quando nós entramos em campo temos que respeitar as regras se não podemos ganhar um cartão amarelo, um aviso, e se continuamos violando as normas somos punidos com cartão vermelho, ou seja, estamos expulsos de campo. Desta mesma forma é interessante equilibrar nossas ações e hábitos com as leis da natureza, pois estas são invencíveis. Infelizmente não existe outra maneira de alcançar o bem estar físico, mental e emocional que nós buscamos. O Ayurveda enfatiza esta harmonia com a natureza.
O Ayurveda recomenda acordar cedo, e o ideal é após levantar beber água, em jejum, a temperatura ambiente, deve-se tomar um ou dois copos d água bem cheios pois isto ajuda a ir ao banheiro e evacuar. Deve-se habituar o intestino a funcionar todo dia pela manhã. O Ayurveda afirma que o intestino é o jornal do corpo, deve-se ler o jornal todo dia pela manhã para saber como está o corpo. Qualquer distúrbio nas excreções pode ser um sinal de uma digestão inadequada e acumulo de Ama ( toxinas digestivas) princi-palmente se estiver associado a uma cobertura espessa e pegajosa na língua. Neste caso o ideal é não se alimentar e utilizar chá de ervas como o gengibre e erva doce ( Foeniculi vulgaris), que auxiliam a regularizar a função digestiva, até normalizar a evacuação. Claro que se o distúrbio persistir procure um profissional de saúde.

O Ayurveda recomenda acordar cedo, e o ideal é após levantar beber água, em jejum, a temperatura ambiente.

O Ayurveda recomenda acordar cedo, e o ideal é após levantar beber água, em jejum, a temperatura ambiente, deve-se tomar um ou dois copos d água bem cheios pois isto ajuda a ir ao banheiro e evacuar. Deve-se habituar o intestino a funcionar todo dia pela manhã. Após o banho matinal tire alguns minutos para a introspecção e autoconhecimento. Com este objetivo é importante ter um “cantinho de meditação”, onde você pode colocar uma almofada no chão ou cadeira para a prática, porem se você for um devoto, como eu, pode fazer um pequeno altar com seus mestres. Claro que ninguém tem a necessidade de ter um altar para meditar regularmente. Isto é algo pessoal pois sigo o caminho devocional chamado de Bhakti Yoga. O mais importante é comprometer-se a sentar diariamente e praticar meditação, 15 a 20 minutos, 2 vezes ao dia, manhã e noite, são suficientes para os iniciantes. Um livro, que comecei a ler recentemente, que estimula e explica esta metodologia é “Meditação para Leigos” de Stephan Bodian. Boas meditações!

O coentro ou Coriandrum sativum é uma planta anual de talo cilíndrico, ereto e estriado que mede cerca de meio metro de altura, possui folhas de cor verde brilhante e flores brancas ou róseas. a erva exala um cheiro forte até que os frutos ( equivocadamente chamados de sementes) de aroma doce característico amadureçam. Após secos os frutos exalam um odor especial quando triturados. Encontra-se à venda inteiros ou moídos.
A planta foi mencionada na Bíblia e era usada junto com o cominho e o vinagre para conservar a carne, porem na idade média foi utilizado como afrodisíaco e esta fama provem de sua citação no famoso livro“As Mil e Uma Noites “. Os frutos moídos entram na preparação do “curry” e em muitas massalas, ou seja, misturas de condimentos encontradas nos supermercados indianos e muito valorizadas na culinária da Índia.
O professor e pesquisador indiano Bharat Aggarwal PhD, do M.D. Anderson Cancer Center no Texas, no seu tratado “ Healing Spices” refere-se ao coentro como “acalmando os problemas da barriga”. Aggarwal afirma que a planta medicinal pode contribuir na prevenção ou no tratamento dos seguintes distúrbios e doenças:

Inchaços, aumento do colesterol, cólicas, constipação e flatulência, diabetes, eczemas, hipertensão arterial, má digestão, insônia, síndrome do intestino irritável, distúrbios do fígado, psoríase, rosácea, gastrite, ulcera e candidíase.

Pesquisadores afirmaram na revista “Phytoterapy Research” que o coentro é um medicamento usado nas culturas tradicionais para má digestão, diabetes, reumatismo e dores articulares. Pesquisa em animais que tiveram o diabetes induzido, em laboratório, demonstrou diminuição do nível de açúcar no sangue e aumento de insulina ( hormônio que controla o açúcar no sangue) com o uso de extrato de coentro.
No Ayurveda a erva apresenta sabores adocicado, amargo, picante e adstringente, potencia quente para os frutos e fria para as folhas e tem a capacidade de equilibrar os 3 Doshas na nossa fisiologia. As suas principais ações são:
Estimula a digestão, tira calor do corpo, elimina toxinas, alivia cólicas e gases intestinais, antiparasitário, diurético, febrífugo.
Porem apresenta as seguintes Indicações: externamente uma pasta dos frutos e folhas da planta pode ser utilizado para inflamações, alergias e conjuntivites. Internamente é indicado na acidez ( agravação de Pitta), má digestão, síndrome do intestino irritável, parasitoses, infecção urinaria, febre e na disfunção erétil. A comissão E alemã aprovou seu uso nos seguintes distúrbios: dispepsia ( má digestão) e perda de apetite. Evitar a utilização na gravidez.
As sementes de coentro podem ser utilizadas em associação com as sementes de funcho e cominho pois apresentam propriedades medicinais semelhantes o que induz a um efeito sinérgico desta combinação fitoterápica: sementes secas socadas de coentro 2 g, sementes secas socadas de funcho 2g e sementes secas socadas de cominho 2g, colocar em uma panela, jogar 200 ml de água fervente, abafar por 20 minutos, coar e tomar 3 vezes ao dia, antes das refeições. Isto beneficia as funções digestivas, alivia a gastrite, flatulência e má digestão.

No movimento que vem sendo efetuado neste século no campo da abertura e da difusão da espiritualidade, no sentido de se aproximar Oriente e Ocidente, tem-se procurado geralmente somar o que há de melhor em cada um, para assim poder otimizar as técnicas e seus resultados.

No Yoga, esta “simbiose” também não podia deixar de ocorrer. Os conhecimentos ocidentais tem servido para comprovar, respaldar e corroborar as milenares teorias e técnicas de que o Yoga dispõe, e para incrementar a eficácia destas mesmas antigas técnicas mediante o auxilio de outras tantas técnicas desenvolvidas aqui no Ocidente.

Hoje, no meio do Yoga, além de Patanjali, asanas e pranayamas, também já se ouve falar em Reich, Lowen, Feldenkreis, RPG, Anti-ginástica, Eutonia, Rolfing… numa busca de se encontrar uma linguagem comum que venha enriquecer todos os caminhos, e passar eficientemente a grande mensagem que é do homem holístico que caminha rumo à plenitude, à Unidade.

E a grande mensagem do Yoga é justamente a de não “vender um peixe” específico, dogmático ou sectário, e sim, traçar diretrizes amplas, porém bem fundamentadas, que levem em consideração que cada um é um conjunto de corpo/mente/emoção/espírito, uno em essência com seu semelhante, mas
profundamente singular em sua manifestação.

Esta singularidade – aliada ao contexto ambiental e histórico em que o homem moderno se encontra, com todas as suas peculiaridades e desequilíbrios sociais, políticos, ecológicos, psicológicos, etc. – tem feito com que o Yoga tenha que se adaptar e se capacitar mais para atender mais eficientemente à demanda corpo/mente/emoção/espírito deste homem moderno estressado, desarmonizado e desequilibrado.

Este esforço para otimização do trabalho do Yoga, unindo Oriente e Ocidente, tem sido realizada por várias pessoas e grupos em vários países do mundo, gerando os mais diversos estilos de trabalho, dependendo da área e da bagagem de quem fez a “releitura” do Yoga.

Na Yogaterapia este trabalho holístico é feito sem que se perca de vista a espinha-dorsal do Yoga, que é a sua filosofia, a sua ética e o seu embasamento teórico. Patanjali ainda é a mola-mestra da maioria das escolas de Yoga, embora não mais sob os auspícios da escola Samkhya (a filosofia dualista que embasa Patanjali em seu “Yoga Sutras”), e sim sob uma visão não-dual da Unidade (mais afeita portanto, à visão da Vedanta).

Yogaterapia é Hatha-Yoga, na medida em que utiliza seu instrumental : asanas (posturas), pranayamas (respiração), mudras (gestos psicossomáticos), bandhas (contrações), kriyas (limpezas) e yoga nidra (relaxamento), para manter e/ou restaurar a saúde fisica.

É Tantra Yoga, na medida em que busca a saúde mental , emocional e energética atravéz do reequilíbrio da personalidade por meio da utilização do instrumental do Hatha-Yoga (de maneira bastante mais ampla) e de diversas técnicas que trabalham as dimensões mais sutis de cada um, estudando e trabalhando profundamente o funcionamento e a importância de elementos tais como: os tanmatras (os órgãos dos sentidos), os mahabhutas (os 5 elementos, indriyas (órgãos de conhecimento e ação), as gunas (visão dialética tríplice da Criação), os koshas e shariras (os corpos), os chakras (centros energéticos), as nadis (condutos de energia) , os pranas (energia vital) , a kundalini, etc.

E é também Medicina Ayurvédica (Medicina tradicional indiana) na medida em que leva em conta a avaliação e o reequilibrio dos 3 princípios ayurvédicos: vata (ar), pitta (bilis) e kapha (fleuma). E o Hatha Yoga consta entre o arsenal utilizado por esta importante vertente da Medicina.

A Yogaterapia é profundamente interagente com a Medicina ocidental, com a Fisioterapia, com a Educação Física e com a Nutrição, na medida em que trata (também) do corpo físico, e exige do profissional sólidos conhecimentos de Anatomia e Fisiologia.

Interage com a Psicologia ocidental, na medida em que o Yoga trabalha também no campo da psique e das emoções, exigindo do profissional fundamentos das principais escolas psicoterapêuticas ocidentais (que de uma forma ou de outra, tem seu pé no Oriente).
Interage ainda com a Educação, na medida em que Yoga é fundamentalmente um trabalho de (re)educação, que exige do profissional conhecimentos nas áreas de Pedagogia e Didática.

E, por fim, (e sobretudo) a Yogaterapia é uma terapia eminentemente holística e “aquariana” na medida em que está aberta para lançar mão, despreconceituosamente, de técnicas e treinamentos psico-físicos ocidentais que ao final das contas, direta ou indiretamente, também tem seu berço no Yoga e só vem confirmar sua eficácia, fazendo ver aos ocidentais que Yoga não é só “coisa de gente mística”.

É interessante fazer aqui um pequeno retrospecto histórico, e colocar para os leitores que o Hatha Yoga tal como hoje o conhecemos, com sua metodologia e sua estrutura de aulas (geralmente coletivas ou individuais com sistema de fichas) , é coisa relativamente recente (algo em torno do início do século 20).

O Hatha Yoga foi elaborado inicialmente por Gorakhnath, para que servisse como preparo do corpo e da energia , para a prática do Raja Yoga. Dois textos mais famosos – o Hatha Yoga Pradipika (de Swatmarama) e o Gerandha Samhita – atestam literalmente este fato.

A tradição hindu considera o Hatha Yoga como tendo sua gênese no Tantra, reportando-nos mitologicamente aos diálogos entre Shiva e sua consorte Parvati, como está indicado em outra escritura importante do Hatha Yoga, o Shiva Samhita.

O Hatha Yoga é , na verdade, uma forma resumida do Tantra – mais especificamente do Dakshina Tantra (o Tantra da mão direita), – cuja finalidade principal é preparar o corpo para a meditação (Raja Yoga).

Como dizia acima, a estruturação pedagógica e metodológica do Yoga que conhecemos atualmente, se desenvolveu mais recentemente ,apresentando abordagens e estilos mais ou menos característicos (deixando em aberto a questão se de fato existe realmente um Hatha Yoga “clássico”).
Tradicionalmente, este ensino era feito individualmente de mestre para discípulo.

A grande afluencia de ocidentais interessados em espiritualidade na India a partir do inicio do século, e o crescente agravamento do panorama da saúde nos tempos modernos, recolocou o Hatha Yoga em evidência, e vários mestres resolveram adaptar o ensino tradicional colocando-o mais disponível à realidade agitada do mundo contemporâneo.

Devemos este resgate do Hatha Yoga à vários nomes importantes, tais como: Swami Sivananda de Rishikesh (e seus principais discípulos, tais como S.Satyananda, S. Vishnudevananda e Swami Satchidananda), que deu um enorme impulso ao Hatha Yoga, trazendo para o ocidente o modelo de aulas coletivas com séries pré-estabelecidas; Shri Yogendra (e seus filhos) de Bombaim, que instituiu o método de fichas individualizadas, desenvolvendo e divulgando intensamente a Yogaterapia; T.Krishnamacharya e seus filhos, que desenvolveram a técnica de Vinyoga, onde em cada aula enfoca-se uma só asana, desenvolvendo-se uma sequência de posturas que preparam o corpo para a asana objetivada; e B.K.S. Iyengar de Poona, que, na minha opinião, é o grande responsável pelo que poderíamos chamar de “modernização” do Yoga no que tange ao aspecto físico, de saúde.
Iyengar ousou utilizar “ferramentas” (almofadas, blocos, cavaletes, cordas,etc.) para facilitar a prática dos emperrados ocidentais que à ele afluem abundantemente.

Ainda poderíamos citar Swami Kuvalayananda, Amrit Desai, Yesudian, e tantos outros.

E o trabalho da Yogaterapia deve muito ao trabalho de todos estes Mestres, e bebe de todos os textos, indistintamente.

Sem abandonar o espírito do Yoga, a YI sem preconceitos ou exagerados purismos, utiliza de variado instrumental de apoio físico (almofadas, bolas gymball, apoios de isopor e bambú, bolas de tênis, Yogapro, etc.) ; de variadas técnicas modernas derivadas do Hatha Yoga tradicional (yoga em
duplas, yoga em grupo, yoga restaurativa, yogassage,etc.) e variadas técnicas ocidentais e orientais para a conscientização, sensibilização e reequilibrio fisico/psicológico/emocional (vivências com os 5 elementos, com os chakras, com os 3 doshas, com as 3 gunas, com os 5 koshas , além de
meditações e relaxamentos), sempre buscando unir o que há de melhor e mais eficaz neste encontro entre Ocidente e Oriente.

Toda esta “tecnologia” permite que seja feito um trabalho coletivo ou individual – sempre dentro de uma abordagem absolutamente personalizada – alcançando uma alta eficácia nos casos que mais acometem e afligem o homem moderno : o malfadado stress, as terríveis dores na coluna e os preocupantes problemas cardio-vasculares, respiratórios e digestivos , entre muitos outros.

É importante frisar insistentemente , que todo este trabalho gravita em torno da idéia da Unidade, da busca da plenitude total (sem que isto seja um exercício necessáriamente religioso), e não apenas na conquista do alívio de alguma dor. A grande beleza deste método está no fato de o Yoga abrir um grande e fraterno leque, absolutamente eclético e ecumênico, que vem atender de forma integrada e profunda à todas as nossas características , diferenças e necessidades.

No inicio dos anos 90 a professora dra. Madel T. Luz desenvolveu a categoria “racionalidades médicas” para significar um sistema lógico e teoricamente estruturado, dotados de cinco dimensões interligadas: uma doutrina médica, uma morfologia, uma dinâmica vital, um sistema de diagnose e um sistema de intervenção terapêutica. Segundo esta autora, tais racionalidades, bem como outras práticas tradicionais, podem trazer as seguintes contribuições:

1-     A reposição do sujeito como centro do paradigma médico

2-     A restituição da relação médico-paciente como elemento fundamental da terapêutica

3-     A busca de meios simples, despojados tecnologicamente ( menos dependentes da tecnologia dura), menos caros e entretanto com igual ou maior eficácia em termos curativos nas situações mais gerais e comuns de adoecimento da população

4-     A construção de uma medicina que busque acentuar a autonomia do paciente, e não sua dependência em termos de relação saúde-enfermidade

5-     A afirmação de uma medicina que tenha como categoria central de seu paradigma a categoria saúde e não a de doença

( Luz, 1996)

O projeto coordenado pela professora dra Madel T. Luz, iniciou-se no começo dos anos 90 com a linha de pesquisa “Racionalidades Médicas e Práticas de Saúde”, junto ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ é pioneiro em pesquisas sobre medicinas não convencionais comparadas. Na primeira fase deste projeto foram identificadas e pesquisadas quatro racionalidades médicas: Biomedicina, Homeopatia, Medicina Chinesa e Ayurveda e ao final construiu-se um quadro resumindo as várias dimensões destes sistemas médicos complexos:

 

Racionalidades Médicas

Medicina Ocidental Homeopatia Medicina Chinesa Ayurveda
Cosmologia Física Newtoniana

Clássica

Cosmologia Ocidental Tradicional ( alquímica) e clássica Cosmologia Taoista ( geração do microcosmo a partir do macrocosmo) Cosmologia Samkhya da criação ( Purusha e Prakriti)
Doutrina Médica Teoria da causalidade da doença e seu combate Teoria da força vital e seu desequilíbrio nos indivíduos Teoria do Yin-Yang, das cinco fases e seu equilíbrio nos indivíduos Teoria dos cinco elementos e dos doshas nos indivíduos
Morfologia Morfologia dos sistemas Organismo material e força vital animadora Teoria dos canais e colaterais, pontos de acupuntura e dos órgãos e vísceras ( Zang Fu) Teoria dos Dhatus ( tecidos) e malas ( excreções)
Fisiologia ou Dinâmica Vital Fisiologia e Fisiopatologia Fisiologia energética, fisiologia dos sistemas, fisiopatologia do medicamento e do adoecimento Fisiologia do Qi, Zang Fu e da dinâmica Yin/Yang Dinâmica dos três doshas e sub-doshas, teoria de ojas ( essência vital) e srotas ( canais)
Sistema de Diagnostico Semiologia: anamnese, exame físico be exames complementares Semiologia: anamnese do desequilíbrio individual. Diagnóstico e remédio da enfermidade individual Semiologia: interrogatório, inspeção, ausculta e olfação e palpação Trividha Pariksha ( as 3 categorias da semiologia): Inspeção, palpação e questionamento
Sistema de Intervenção terapeutica Drogas, cirurgia e higiene Medicamentos homeopáticos e higiene Tui Na, Qi Gong, Tai Chi, Acupuntura, moxabustão, dieta, medicamentos de origem animal, vegetal e mineral Massagem, oleação, sudação, dieta, rotina diária e sazonal, medicamentos de origem animal, vegetal e mineral e panchakarma (as 5 terapias depuradoras)

( Modificado e adaptado de Luz, 1996)

Em 1993 a pesquisadora Evair A. Marques produziu o primeiro texto relacionado ao Ayurveda com o título: “Racionalidades Médicas: Medicina Ayurvedica – Tradicional Arte de Curar da Índia”. Foi, sem duvida, um trabalho pioneiro sobre esta racionalidade médica, no final do texto a autora afirma: “Na Medicina Ayurvedica, a capacidade que o individuo tem de autocurar-se constitui um dos conceitos básicos, razão pela qual os médicos procuram primeiro auscultar o sistema de defesa natural do organismo do doente para ajudá-lo a lutar contra as agressões da qual ele é objeto, de maneira que possa vencê-la com suas próprias forças”( Marques, 1993: 38)

Este trabalho do grupo de pesquisas “ Racionalidades Médicas” vem de encontro com a proposta da Organização Mundial de Saúde ( OMS ou WHO em inglês), que promove e apóia a utilização das medicinas tradicionais ( medicinas tradicionais são aqueles sistemas que possuem centenas de anos de experiência no seu país de origem, como a Medicina Tradicional Chinesa e o Ayurveda) como método alternativo de tratamento das enfermidades. Em 1983 a OMS publicou um texto denominado “Traditional medicine and health care coverage: a reader for health administrators and pratitioners” onde encontramos a seguinte afirmação:

 “Atualmente está amplamente reconhecido que existe um grande potencial na medicina tradicional para contribuir ao cuidado primário a saúde, especialmente em paises em desenvolvimento. Tal potencial é devido a não apenas a aceitação destes sistemas  ao nível das comunidades mas também a sua abordagem simples, não tóxica, menos dispendiosa e testada pelo tempo dos seus medicamentos para alivio das doenças e reabilitação. Alem disto, o fato que um considerável numero de profissionais formalmente e não formalmente treinados de medicina tradicional vive e trabalha em comunidades rurais distantes, enfatiza a necessidade de seriamente considerar, de que maneira eles podem estar associados ao cuidado primário a saúde para alcançar o objetivo universal de saúde para todos no ano 2000. “ (Mustalik em WHO, 1983: 281)

Neste trabalho pioneiro da OMS de 1983 observamos a importância e valorização da utilização das medicinas tradicionais, como a Medicina Chinesa e o Ayurveda, no cuidado primário a saúde. No Brasil nós temos um exemplo de utilização no Sistema Único de Saúde da Medicina Ayurvedica que é o Hospital de Medicina Alternativa ( HMA ) de Goiânia, no estado de Goiás. A historia da chegada do Ayurveda no Brasil é contada pelo dr. Danilo Maciel Carneiro, médico do Hospital de Medicina Alternativa, no seu trabalho pioneiro denominado “Ayurveda – Saúde e Longevidade”:

  “ O Ayurveda chegou oficialmente ao Brasil em 1985, por força de um convenio do Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social ( INAMPS) e do Ministério da saúde com o Instituto de Ciência e Tecnologia Maharishi, liderado pelo mestre indiano, mundialmente famoso, Maharishi Mahesh Yogi. Uma vez firmado este convenio ele foi proposto pelo Ministério da Saúde e pelo INAMPS aos diversos estados do Brasil, sendo aceito por três estados brasileiros: Pernambuco, Rio de Janeiro e Goiás. Nos dois primeiros estados, o projeto, após iniciado, foi interrompido precocemente em virtude de discordancias políticas ou ideológicas entre as partes envolvidas no convenio, ou de outros motivos que não nos compete discutir no presente texto. Já no estado de Goiás, o projeto se desenvolveu e, nos anos 1986 e 1987, ocorreu o primeiro curso de Medicina Ayurvedica para profissionais de saúde da rede publica estadual contemplando médicos, farmacêuticos, agrônomos e enfermeiros.

                      A partir de então e até por volta de 1995, mais e dez médicos indianos vieram a Goiânia, em grupos que passavam de dois a quatro anos ensinando e acompanhando os profissionais brasileiros em cursos e estágios práticos…Com seus préstimos eles fundamentaram o Ayurveda em Goiania e deram origem a equipe que hoje perpetua este trabalho em nosso meio…

                      No ano de 1988, deu-se a criação, pelo governo do estado de Goiás, de um centro ambulatorial de referencia em Fitoterapia e Medicina Ayurvédica em Goiânia, que passou a ser conhecido como Hospital de Terapia Ayurvedica. Essa unidade da Secretaria de Estado da Saúde passou a congregar os profissionais que realizaram os cursos de Medicina Ayurvédica promovidos pelo convenio antes mencionado. A primeira diretora geral do então Hospital de Terapia Ayurvedica foi a dra Heloisa Helena Teixeira dos Reis, médica especialista em dermatologia…Ela permaneceu á frente desta unidade, que hoje se denomina Hospital de Medicina Alternativa ( HMA ), até o inicio do ano de 1999…O HMA oferece também serviços nas áreas de Homeopatia e Acupuntura, alem da Fitoterapia e do Ayurveda. Ao todo, até a presente data, cinco cursos de introdução’ ao Ayurveda já foram ministrados pelo HMA, e mais de duzentos profissionais de saúde da rede publica estadual passaram a conhecer esta maravilhosa ciência” ( Carneiro, 2007: 16)

A proposta de um novo paradigma em que as diversas racionalidades médicas trabalhem em conjunto com o objetivo de promover a saúde, prevenir as doenças e tratar os enfermos não é uma utopia. Já temos exemplos, como o citado Hospital de Medicina Alternativa, que isto é possível e viável. Quando nós visitamos este serviço, em 1997 e 1998, fomos recebidos pela sua diretora, dra Heloisa Helena Teixeira dos Reis, observamos o grande numero de plantas medicinais cultivadas no horto, que são utilizadas pela farmácia do Hospital para a formulação de medicamentos fitoterápicos, fundamentados no Ayurveda, distribuídos gratuitamente aos pacientes. O grande diferencial é que as plantas medicinais brasileiras podem ser identificadas e catalogadas segundo a experiência milenar da Medicina Ayurvedica. Este modelo que funciona, há mais de 20 anos em Goiânia, deveria ser copiado em outras capitais brasileiras para beneficio da nossa população de baixa renda que muitas vezes não tem acesso as medicinas não convencionais.

 

A palavra Yoga em Sânscrito significa união, integração. Ao praticar Yoga com regularidade e correção, você fecha um elo entre seu corpo, mente, emoções e espírito (seu nível de consciência mais elevado).

Como resultado você conquista um corpo forte, flexível, purificado e saudável; um bela postura; uma mente clara; um coração calmo e amoroso; espiritualidade desenvolvida; equilíbrio externo e interno; auto-conhecimento.

Se os benefícios são tantos e tão promissores para todos, a conjugação de Yoga e Ayurveda vem potencializar ainda mais essa integração. A felicidade, bem-estar e vitalidade se tornam ainda mais acessíveis.  Quando você se integra, você se desfragmenta. O homem no mundo moderno sofre e adoece por viver “aos pedaços”, na rotina barulhenta da vida. A desunião de todos os aspectos da vida é a causa do todo o sofrimento.

Há mestres que chegam a definir o Yoga como o aspecto espiritual do Ayurveda, e o Ayurveda como o aspecto terapêutico do Yoga, tão profunda a conexão existente.

Do ponto de vista do Ayurveda, cada indivíduo é único e traz em si um potencial de auto-cura. Foca o tratamento levando em conta o respeito à essa individualidade, que gera necessidades particulares para cada ser. O paciente recebe orientação para uso das ervas mais apropriadas, dieta, rotina e hábitos de vida, meditação, proteção térmica, etc.

Ora, olhando deste modo, se cada pessoa tem um humor biológico próprio ( Dosha ) que lhe permeia e determina o tempo todo, porque não se observa isso também na prática de Yoga? E, possuindo também o Yoga instrumentos para trabalhar no auto-conhecimento e na eliminação das disfunções do praticante provocadas pelo desequilíbrio dos Doshas, fica clara a adequação de se integrar as duas abordagens na obtenção do equilíbrio físico e mental. O resultado são práticas muito mais eficientes no caminho do bem-estar e da cura.

Como ficaria isso na prática?

  • Paciente PITTA: se beneficiará com uma prática restaurativa com asanas introspectivos, pranayamas refrescantes, mantras entoados de modo doce e suave, comando de aula tranqüilo, mas dinâmico.
  • Paciente VATA: se beneficiará com uma prática suave, asanas equilibrantes, pranayamas que geram harmonia, mantras entoados de modo doce e suave, comando de aula tranqüilo, tom de voz baixo.
  • Paciente KAPHA: se beneficiará com uma prática mais vigorosa, com asanas revitalizantes, pranayamas energizantes, mantas entoados de modo firme, comando de aula estimulante, tom de voz bem pontuado.

A prática Yóguica sob um perspectiva Ayurveda abre uma nova dimensão não só no campo da saúde, mas também na compreensão do comportamento do ponto de vista energético e emocional.

Dessa maneira, ligações profundas podem ser resgatadas, libertando de todo sofrimento, inclusive físico ( doenças ). As doenças tem raízes emocionais, pois são mensageiras daquilo que o ser interior gerou para si.

Como as aulas de Ayurveda Yoga são recentes entre nós, ainda ocorrem apenas em atendimentos individuais, geralmente na residência do paciente, duas vezes por semana. Mas esse fator limitador acaba resultando num trunfo, já que o professor passa a freqüentar a casa do aluno, estreitando vínculo, oferecendo apoio, conhecendo um pouco a rotina e os hábitos domésticos da pessoa, possibilitando um feedback ao médico, que em geral só está com o paciente uma vez ao mês. O foco do paciente, que recai sobre aquele profissional e muitas vezes gera uma dependência ansiosa sobre sua cura, acaba se diluindo quando dividido com o instrutor, com quem tem contato mais constante. E com a convivência ganha-se um reforço na persuasão quanto à mudança de hábitos e observância das recomendações do tratamento.

Não há como não perceber Yoga e Ayurveda como aliados que se complementam, atuando como pilares que unidos dão sustentação rumo à plenitude física, mental, emocional e espiritual do ser humano.

 

A prática e a filosofia do Ayurveda são úteis não apenas para restaurar o equilíbrio do corpo, mas também do espírito. Assim como podemos identificar nossos doshas predominantes (Vata, Pitta e Kapha) e cultivar hábitos coerentes com nossas necessidades, devemos reconhecer os nossos padrões mentais, que vão determinar a maneira como percebemos e respondemos ao estímulos externos.

Tais padrões são chamados de Gunas e representariam nossas tendências mentais: Sattva, Rajas e Tamas.  Uma mente com predominância de Sattva, o princípio do contentamento, da paz e da harmonia, é mais pura, mais positiva e alegre. É típica de pessoas sensíveis e perceptivas. O predomínio de Rajas, princípio da energia, gera movimento, mudança, emoção e desequilíbrio. Uma pessoa com mente rajásica em geral é irritadiça, passional, agitada e dominadora. Tamas é o princípio da inércia; em excesso na mente gera pessoas rígidas, depressivas e resistentes à mudança. Estas três enrgias coexistem dentro de nós e devemos reconhecê-las para sermos capazes de preservar seu equilíbrio. Para vivermos de maneira harmoniosa, deve-se ter Sattva predominante, com pitadas de Rajas e Tamas que tragam movimento e descanso na medida certa. O Ayurveda ensina que somos responsáveis por nossa saúde e como sermos seletivos em relação ao alimento, aos pensamentos e às ações. Técnicas respiratórias, ásanas e meditação são alguns dos recursos deste milenar sistema de saúde indiano que nos ajudam a equilibrar os Gunas e a viver de maneira mais prazeiroza e plena, mais calmos e integrados com a nossa própria natureza.

 

 

 

 

Durante o mês de janeiro nós tivemos a oportunidade de passar 4 semanas no Arya Vaidya Training Academy, em Coimbatore, sul da Índia, estudando Ayurveda, filosofia Hindu e praticando Yoga. O grupo era formado por 28 brasileiros, médicos e terapeutas, profissionais interessados em participar de um curso de imersão organizado pela Associação Brasileira de Ayurveda – ABRA. Os professores, experientes médicos indianos, foram muito atenciosos e pacientes, estavam sempre bem preparados para responder a todas as nossas perguntas e dúvidas sobre o pensamento e a tradição médica indiana.
Nós destacamos a aula com o acharya Vasudeva, famoso mestre de Ayurveda do sul da Índia, sobre rasayana, a terapia indiana de rejuvenescimento. Durante a aula, o carismático professor, colocou os 3 principais métodos utilizados na tradição indiana para promover vitalidade, rejuvenescimento e longevidade:

  1. Vatatapika – É a metodologia ambulatorial, não há a necessidade de internação, onde o paciente recebe tratamento através de uma rotina diária saudável, dieta equilibrada, uso terapêutico de plantas medicinais, massoterapia com óleos vegetais e práticas de Yoga e meditação para promover vitalidade.
  2. Kuti Pravesika – Esta metodologia exige internação em ambiente controlado, o acharya Vasudeva colocou a experiência com um paciente australiano, de 56 anos, que passou 3 meses internado fazendo o tratamento de rasayana. No primeiro mês foi feito o panchakarma ( terapia depuradora), para eliminar toxinas acumuladas no corpo. No segundo mês aconteceu a terapia rejuvenescedora, onde o paciente recebeu uma dieta especial com leite orgânico ( de uma vaca criada especialmente para o tratamento) e o Chyavanprash, medicamento rasayana, composto de 48 ervas medicinais, que o médico preparou 8 kg  para o paciente utilizar durante a internação. O terceiro e último mês foi formatado para o australiano retornar a sua vida normal, pois é necessária uma adaptação gradual a rotina diária. Os resultados foram excelentes, com crescimento de novos cabelos e rejuvenescimento de cerca de 10 anos segundo o médico.
  3. Kayakalpa – método secreto apenas utilizado pelos iogues e monges no Himalaia. O professor Vasudeva citou o caso, descrito na literatura indiana, de Shriman Tapasviji Maharaj, um iogue e santo do Himalaia, que passou por 3 distintos Kayakalpas, viveu até os 185 anos de forma plena e saudável, servindo seus discípulos e ajudando as pessoas.

O Ayurveda é a filosofia médica indiana que nos permite levar uma vida saudável, equilibrada e em harmonia com as leis da natureza. Acima de tudo é um caminho de autoconhecimento e autotransformação, que é fundamentado na sabedoria dos mestres indianos: “O melhor momento da nossa vida é aqui e agora pois é somente no presente que podemos ser felizes”.

  1. A filosofia médica oriental recomenda uma rotina diária de hábitos saudáveis. A moderação e o equilíbrio são o caminho para a saúde física, mental e emocional .
  2. Pela manhã, em jejum, tome um copo de água tépida com 5 gotas de limão.
  3. A alimentação deve ser feita em ambiente tranquilo, sem computador ou TV. Os alimentos devem ser naturais, sem quimiotóxicos, da mesma região e estação que nós vivemos. O alimento é um poderoso medicamento ou um poderoso veneno.
  4. O Ayurveda recomenda uma rotina equilibrada com 8 horas de descanso noturno (sono), 8 horas de trabalho ( excessos no trabalho são prejudiciais a nossa saúde) e 8 horas para outras atividades: alimentação, transporte, exercícios, higiene, meditação.
  5. Recomenda-se apenas alimentar-se quando estiver com fome, não deixar um intevalo muito grande entre as refeições, tomar café como um princípe, almoçar como um rei e jantar como um mendigo, ou seja, a refeição noturna é a mais leve de todas.
  6. Aconselha-se dormir cedo e acordar cedo: “ Deus ajuda quem cedo madruga”
  7. Auto-massagem regularmente com óleo de gergelim (friorentos) ou coco (calorentos)
  8. Devemos dividir nosso estômago em 4 partes: 2/4 ou metade de comida, ¼ de líquidos ( evite gelados) e ¼ vazio, saímos da mesa com um pequeno espaço no estômago.
  9. Para perder peso evite carboidratos após as 18:00 h. e beba água antes das refeições.
  10. Para evitar ansiedade e dificuldade no sono procure ter uma rotina organizada e regular, evite cafeína após as 14:00 h. e busque técnicas de relaxamento a noite.
  11. Lembre-se que excesso de TV, computador e celular são pejudiciais a saúde pois geram radicais livres que acumulam no corpo e promovem doenças.
  12. Procure fazer atividades ao ar livre, ler bons livros e praticar atividades físicas. Lembre-se que o melhor exercício é aquele que fazemos com regularidade e orientação.
  13. A prática da meditação é recomendada a todos. Semelhante as grandes conquistas necessita de regularidade, persistência e paciência. Apresenta efeitos benéficos nos seguintes distúrbios: estresse,ansiedade, depressão, fadiga, insônia, HAS, doenças psicossomáticas, dor crônica, obesidade, reduz o colesterol  e melhora a imunidade.
  14. A busca do autoconhecimento é importante para desenvolvermos nosso potencial latente.  Dedique alguns minutos, diáriamente, ao silêncio e introspecção.
  15. Indicamos uma literatura complementar ao tratamento:
  16. Autobiografia de um Iogue de Paramahansa Yogananda
  17. A Eterna Busca do Homem de Paramahansa Yogananda
  18. Meditação para Leigos de Stephan Bodian
  19. Anticâncer de David Sevan-Schreiber
  20. Cozinha Vegetariana de Caroline Bergerot
  21. Saúde Perfeita de Deepak Chopra
  22. A Ciência de Ser Feliz de Susan Andrews

No mês de setembro passei 4 semanas na  Gujarat Ayurved University em Jamnagar, noroeste do subcontinente indiano,  estudando Ayurveda, praticando Yoga e meditação. Um dos destaques foram as aulas de Pancha Karma com a dra Rajkala MD e PhD em Ayurveda, médica do Kerala especialista nesta metodologia de bio-purificação do corpo das suas impurezas. Na última semana do curso eu descobri que ela era discípula de uma mestra de meditação e solicitei um encontro para conversarmos sobre sua metodologia de introspecção e autoconhecimento. A minha professora foi muito solicita e marcou o encontro para a ultima noite do curso, antes de viajarmos. Ela disse: “ vamos chamar um auto-rikshaw ( tuc-tuc) ? Quantos alunos irão com você ? respondi : “ apenas eu, os outros brasileiros não podem ir pois tem outras atividades…” Ah então sobe ai na minha garupa e vamos com a minha moto..”. ela gritou, “mas professora na sua garupa?, Reclamei. “Sim, isto mesmo, assim chegamos rapidamente.” OK, respondi, muito a contra gosto subi na moto e ela partiu em alta velocidade pelas ruas estreitas de Jamnagar. Neste momento parece que “caiu a ficha”…”uma mulher casada e com filhos no estado mais tradicional da Índia, com um ocidental na garupa de sua moto em altíssima velocidade” pensei com meus botões, no mínimo serei preso por “atentado ao pudor e aos bons costumes” ou talvez sejamos atropelados por um caminhão ou ônibus desgovernado, me encolhi o máximo que pude e agarrei o banco da moto atrás de mim…

Mas como dizem na Índia: “existem 300 milhões de deuses que protegem os indianos e por que não os ocidentais desavisados…” em 15 minutos, meu medo chegou ao fim,  estávamos chegando ao edifício da mestra, que era simples e com apartamentos pequenos mas confortáveis. Subimos alguns lances de escada e tocamos a campainha. A porta foi aberta por uma senhora de cabelos grisalhos, simpática, com um semblante pacifico e olhar profundo e inquiridor. Olhei a pequena mas simpática sala, havia fotos de vários mestres indianos mas se destacava uma bela imagem de Buda, Ela sentou na minha frente e perguntou: “ por que você ficou interessado em me conhecer ?”respondi de forma sincera que estava escrevendo sobre minhas experiências na Índia e tinha ouvido falar bem do seu trabalho, ao ouvir isto ela rapidamente afirmou “Ah, então eu sou apenas mais um dado estatístico para sua pesquisa ?”  Nossa! Fiquei desconcertadamente sem palavras…a primeira coisa que saiu foi um pedido de desculpas e a afirmação que estava realmente interessado em meditação.

Após o qüiproquó inicial, rapidamente, perguntei sobre sua história de vida e Indumathi, este era o nome dela, pacientemente me contou: “ desde pequena tenho interesse em religião e espiritualidade, meu avô era devoto de Krishna e me ensinou sobre o hinduísmo. Quando eu tinha 17 anos participei de um workshop com o famoso mestre Osho, estive com ele pessoalmente mas pude ver que aquilo não era “ minha xícara de chá”. Mais tarde fui aluna de um professor da linha de Yoga de Sri Aurobindo, não tive identificação e senti que também não era a “ minha xícara de chá”. Muitos anos depois eu era diretora da faculdade de educação de Jamnagar e passei por um estresse enorme ao tentarem me envolver em uma tramoia de corrupção. Eu tinha dores de cabeça insuportáveis, insônia, medo, raiva, ansiedade e irritabilidade. Isto já durava cerca de dois meses, procurei um psiquiatra mas acabei não fazendo o tratamento pois queria algo mais natural. Terminei no consultório de um naturopata ( médico naturalista), durante a conversa ele tinha um olhar que parecia que via através do meu corpo, no final me recomendou um retiro de meditação por 10 dias. Eu topei pois estava me sentindo muito mal. Ao chegar no retiro imaginei que todos deveriam ser pacientes do médico, quando fui a minha primeira entrevista somente falava das minhas mazelas e o instrutor estava apenas interessado na minha prática de meditação. Foi ai que “ caiu a ficha”: descobri que as pessoas ali não eram doentes mas meditadores da técnica de Vipassana. Durante aqueles 10 dias fui assídua na introspecção e terminei a reclusão completamente curada dos meus sintomas que nunca mais voltaram. Nossa! Finalmente encontrei a “minha xícara de chá”…

“Este primeiro retiro aconteceu em 1997, nunca mais deixei de praticar assiduamente e um dia li no boletim local de Vipassana que eu tinha sido indicada para instrutora do método pelos outros professores. Fiquei muito surpresa pois não tinha solicitado nenhuma indicação mas acabei aceitando e foi assim que me tornei um professora de meditação. Esta pratica foi ensinada há muitas centenas de anos atrás pelo próprio Buda mas foi re-introduzida na Índia moderna pelo birmanes S. N. Goenka em 1969, proveniente de uma linhagem de professores budistas de meditação Vipassana da Birmânia ( atualmente denominado Mianmar).” A mestra me causou uma boa impressão: uma pessoa simples, solteira, modesta, carismática e totalmente dedicada a meditação e a musica pois também é professora de citara ( instrumento musical de cordas).

Eu aprendi que uma técnica utilizada no Vipassana é tomar consciência da respiração. A respiração é um objeto de atenção que esta disponível a todos. Experimente isto agora: Sente-se confortavelmente em um quarto silencioso, com a coluna ereta, feche os olhos e apenas observe sua respiração. Sem tentar controlar, como se você estivesse observando a respiração de outra pessoa, ou então, como se estivesse em uma praia deserta olhando para as ondas do mar, indo e voltando, ou seja, uma observação totalmente passiva. Se vierem pensamentos, emoções ou sensações, lentamente e pacientemente volte a observar o ar entrando e saindo pelas narinas. Este método é simples e pode ser praticado por qualquer pessoa e não deve causar nenhuma tensão. Tente praticar diariamente, no mesmo horário, por pelo menos 15 minutos.

A nossa mente passa a maior parte do tempo perdida em fantasias e ilusões, revivendo experiências prazerosas ou dolorosas ou antecipando o futuro com ansiedades ou medos. Com isto nós perdemos a percepção daquilo que está acontecendo no agora, porem o momento presente é o mais importante. Nós não podemos viver no passado ele já foi, nem podemos vivenciar o futuro pois está alem do nosso alcance. Nós somente podemos viver no presente e esta técnica de Vipassana, que nos leva a tomar consciência da nossa respiração, ajuda a manter a nossa mente no eterno presente, o aqui e agora. Este é o momento da nossa transformação através do autoconhecimento. Após uma conversa inspiradora de cerca de 2 horas a mestra olhou profundamente nos meus olhos e afirmou: “ eu vejo que você tem potencial… agora eu prevejo que você irá se tornar instrutor de meditação…”