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Feche os olhos e entre em estado meditativo. Agora imagine incontáveis esferas gigantescas em volta das quais há outras esferas gigantescas, as quais estão envolvidas por uma terceira esfera tão grande que abarca todas as demais esferas. Estas três categorias de esferas, de tão imensas, estão muito além da sua capacidade sensorial de percepção.

Metade da esfera maior é ocupada pelo Oceano Causal, conhecido como Karanodakashayi em sânscrito. Sobre este Oceano flutua a incomensurável serpente Ananta, sobre a qual repousa em yoganidra (o sono místico) o Purusha primordial, chamado Karanodakashayi Vishnu. O sonho deste Purusha é a criação do cosmos – a cada inspiração dEle, a criação se torna imanifesta; e a cada expiração, a criação se torna manifesta, podendo-se ver saírem dos poros de Seu imenso corpo deitado inúmeros universos. A Deusa Lakshmi, absorta em massagear os pés do Purusha, contempla este movimento de dimensões de tempo extraordinárias e sorri extasiada.

Cada um dos universos surgidos dos poros do corpo de Karanodakashayi Vishnu corresponde a uma segunda esfera. Metade de cada segunda esfera é ocupada pelo Garbhodakashayi (o Oceano Placenta), sobre o qual repousa uma segunda expansão do Purusha chamada Garbhodakashayi Vishnu, também adormecido em yoganidra. Do umbigo deste Purusha, surge uma flor de lótus de proporções espetaculares, e, ao se abrirem suas pétalas, surge Brahma, a primeira criatura, sentado em padmasana, a postura do lótus. Assim, Brahma é filho unigênito de Garbhodakashayi Vishnu. Este mesmo Brahma entra em meditação e recebe, através do som da flauta de Krishna, a semente de todo o conhecimento. Ele rega esta semente com a água de sua dedicação e, deste modo, faz surgirem todas as formas de vida do universo, inclusive os planetas. Neste momento, nascem da inteligência de Brahma os primeiros naras, ou seres humanos, a quem Brahma incumbe de povoar os planetas terrestres, ou intermediários; os primeiros devas, ou semideuses, a quem Brahma incumbe de povoar os planetas celestiais, ou superiores; e os primeiros assuras, a quem Brahma incumbe de povoar os planetas sombrios, ou inferiores.

Concomitantemente, naquelas que seriam as terceiras esferas manifestam-se as expansões do Purusha chamadas Kshirodakashayi Vishnu (pois repousam sobre o Oceano de Leite, Kshira). Estas formas do Purusha assumem dimensão infinitesimal para penetrarem em cada átomo e entre cada átomo e passarem, assim, a ser companheiras de cada atma, ou alma espiritual individual, e a testemunhar os desejos de cada uma dessas atmas enquanto estão condicionadas às diversas formas de vida material (os reinos mineral, aquático, vegetal, animal, humano, dêvico e assúrico).

Agora, procure compreender que estes três Purushas ocupam apenas um terço do Reino de Deus, exatamente o espaço reservado para aqueles que se esqueceram de sua consciência divina e de sua relação eterna com Deus. Entenda, ainda, que, além deste um terço regido pelos três Purushas, não existe nascimento nem morte, muito menos necessidade de luz do sol, da lua ou de eletricidade, pois basta o brilho emanando de cada ser habitante desta região para iluminar tudo.

E o nara, ou ser humano? O nara é a forma de vida propícia para a atma, a centelha divina, entender quem é de fato e despertar para o seu elo natural com Deus.

Existe um mistério profundo por trás do comportamento e da atitude do filósofo védico. Trata-se de um mistério que se revela naturalmente no coração de quem mergulha em sharanagati (palavra sânscrita que significa ‘rendição plena’ ou ‘entrega plena’). Toda vez que refletirmos sobre esta palavra, poderemos visualizar duas entidades experimentando um relacionamento especial: a pessoa que se entrega ou se rende e a pessoa a quem a primeira se entrega ou se rende. Que motivo teria a primeira pessoa para se render plenamente à segunda? Na resposta a esta pergunta está a raiz do mistério profundo já mencionado.

Voltemos ao nosso filósofo védico.

Na Índia, os filósofos em geral são conhecidos como munis, sendo tradicionalmente aceitos como os membros mais importantes da sociedade por representarem o princípio de orientação e harmonização do sistema social. Ao formularem códigos de pensamento através dos quais o homem logra evoluir material e espiritualmente, os munis imortalizam sua obra e consolidam a tarefa da preservação da verdade superior. No entanto, a ilusão do muni reside em achar que pode acessar esta verdade por seus próprios méritos intelectuais.

O filósofo védico é um muni diferente simplesmente porque não propõe o seu sistema de filosofia. Em virtude de seu sadhana e de outras práticas espirituais, bem como de seu entendimento da importância de guru-tattva (a verdade transcendental relativa ao papel do mestre espiritual), o filósofo védico é sobretudo um mantenedor da riqueza filosófica dos Vedas eternos sob sua forma original. Não lhe interessam modismos, influências circunstanciais, interpretações tendenciosas da sabedoria védica e tantos outros elementos que vão surgindo na história do pensamento humano e se distanciando cada vez mais da Fonte.

No relacionamento especial por conta de sharanagati, o filósofo védico é a primeira pessoa (aquela que se entrega ou se rende plenamente), e a segunda pessoa é a Fonte. Na verdade, a Fonte é a Primeira Pessoa, ou Adi Purusha em sânscrito. Toda a vida e obra do filósofo védico gira, portanto, em torno da intenção de demonstrar ao observador atento e de mente aberta que:

1. Somos todos partes integrantes da Pessoa Suprema, ou Deus;
2. Tanto como Deus, somos pessoas eternas qualitativamente iguais a ele e quantitativamente diferentes d’Ele;
3. A Pessoa Suprema é shaktiman, o Energético ou Fonte Primordial, e tudo mais é Sua shakti, ou energia;
4. Inteligência verdadeira significa entender que, por trás de tudo na existência, há um princípio pessoal, reflexo do Supremo Princípio Pessoal;
5. Embora sejamos emanações da Pessoa Suprema, Ele sempre permanece o Todo Supremo inalterável;
6. A inalterabilidade é uma qualidade do plano espiritual, onde vive a Pessoa Suprema com Seus companheiros eternos;
7. A partir de sharanagati, começamos a mergulhar na ananda (bem-aventurança) ilimitada de nosso relacionamento eterno com a Pessoa Suprema;
8. Yoga verdadeiro é sinônimo de relacionamento pessoal com a Pessoa Suprema;
9. O objetivo da filosofia védica é ajudar-nos a conhecer Deus, de modo que possamos nos relacionar com Ele.
Concluindo, o filósofo védico não é adepto de um sistema filosófico-religioso sectário e regionalista. O filósofo védico sempre existiu em todas as culturas do planeta – mas jamais procurou chamar a atenção de outra pessoa que não o próprio Deus. E é aí que reside o mistério profundo de seu contentamento.

Dattatreya era absolutamente livre de intolerância ou preconceitos de qualquer tipo. Ele aprendia a sabedoria de qualquer fonte que viesse. Todos os que buscam a sabedoria devem seguir o exemplo de Dattaterya.

Uma certa vez o rei Yadu avistou Dattaterya que estava caminhando alegremente pela floresta. Ao ver tamanha felicidade, Yadu perguntou à Dattatreya o nome de seu Guru. Dattatreya por sua vez disse à Yadu: “Somente Atma é meu Guru, porém obtive a sabedoria de 24 indivíduos, logo estes são meus Gurus:”

1 – Terra
2 – Água
3 – Ar
4 – Fogo
5 – Céu
6 – Lua
7 – Sol
8 – Pombo
9 – Jibóia
10 – Oceano
11 – Mariposa
12 – Abelha coletora
13 – Abelha
14 – Elefante
15 – Veado
16 – Peixe
17 – Dançarina
18 – Corvo
19 – Bebê
20 – Donzela
21 – Cobra
22 – Artesão
23 – Aranha
24 – Besouro

1 – Eu aprendi paciência e a fazer o bem para os outros através da Terra, pois ela suporta cada ofensa que o homem comete em sua superfície e assim mesmo lhe faz o bem ao produzir os frutos, grãos, etc.

2 – Da água eu aprendi a qualidade da pureza. Assim como a água pura limpa os outros, também o sadhu, que é puro e livre do egoísmo, luxúria, raiva, ganância, etc; purifica todos aqueles que entram em contato com ele.

3 – O ar está sempre se movendo através de vários objetos, mas ele nunca se apega a nenhum deles; então eu aprendi do ar a ser não-apegado, mesmo movendo-me com muitas pessoas neste mundo.

4 – Assim como o fogo brilha ao queimar, assim também o sadhu deve resplandecer com esplendor do seu conhecimento e Tapas (Austeridade).

5 – O ar, as estrelas, as nuvens, etc estão todos contidos no céu, mas o céu não entra em
contato com nenhum deles. Eu aprendi do céu que Atma é todo-penetrante e ainda assim não tem contato com nenhum objeto.

6 – A lua é em si mesmo completa, mas parece aumentar ou diminuir, de acordo com a sombra da terra por sobre ela, que varia. Disto eu aprendi que Atma está sempre perfeito e imutável e que são somente os Upadhis (corpos) ou adjuntos limitantes que sobrepõem sombras sobre Ele.

7 – Assim como o sol, refletido em diversos potes de água, aparece como muitas diferentes
reflexões, assim também, Brahman aparece em diferentes formas por causa dos Upadhis causados por sua reflexão através da mente. Esta lição eu aprendi do sol.

8 – Certa vez vi um casal de pombos com seus filhotes. Um passarinheiro jogou uma rede e capturou os jovens pássaros. A mãe pombo estava muito apegada a seus filhotes. Ela não se importava em viver, então entrou na rede e foi capturada. O pombo macho era apegado a pomba fêmea, logo ele também caiu na rede e foi capturado. Disto eu aprendi que o apego era a causa do cativeiro (Samsara).

9 – A jibóia não se move para obter comida. Ela contenta-se com o que quer que ela capture e fica deitada em um lugar somente. Disto em aprendi a ser não me preocupar com comida e a me contentar com o que quer eu consiga pegar para comer (Ajahara Vritti).

10 – Assim como o oceano permanece imóvel mesmo que centenas de rios desemboquem nele, assim também o homem sábio deve permanecer imóvel entre os diversos tipos de tentação, dificuldades e problemas. Esta é a lição que eu aprendi do oceano.

11 – Assim como a mariposa, sendo atraída pelo brilho do fogo, cai dentro dele e se queima, assim o homem passional que se apaixona por uma linda garota chega à tristeza. Controlar o sentido da visão e fixar a mente no Ser é a lição que eu aprendi da mariposa.

12 – Assim como a abelha-coletora suga o mel de diferentes flores e o suga de somente uma flor, assim eu também pego um pouco de comida de uma casa e um pouco de outra e assim apasigüo minha fome (Madhukari Bhiksha ou Madhukari Vritti). Eu não sou um fardo para os chefes-de-família.

13 – As abelhas coletam o mel arduamente, mas o caçador vem e pega o mel com facilidade. Do mesmo modo, as pessoas acumulam riquezas e outras coisas com grande dificuldade, mas eles têm que deixar todas elas quando partem ou quando o Senhor da Morte as chama. Disto eu aprendi a lição de que é inútil acumular coisas.
14 – O elefante macho, cegado pela luxúria, cai dentro de um buraco coberto por folhas ao simples vislumbre de uma elefoa feita de papel. Ele é capturado, acorrentado e torturado pelo caçador. Do mesmo modo os homens passionais caem nas armadilhas das mulheres e são levados à tristeza. Logo deve-se destruir a luxúria. Esta é a lição que eu aprendi do elefante.

15 – O veado é seduzido e capturado pelo caçador através de seu amor pela música. Do mesmo modo, um homem é atraído pela música da mulher de caráter duvidoso e é levado a destruição. Não deve-se ouvir canções libertinosas. Esta é a lição que eu aprendi do veado.

16 – Assim como o peixe é cobiçoso pela comida e é vítima fácil de uma isca, assim também, o homem que é ganancioso por comida, e permite que seu sentido da gustação o domine, perde sua independência e é facilmemte arruinado. A ganância por comida deve estão ser destruída. Esta é a lição que eu aprendi do peixe.

17 – Havia uma dançarina chamada Pingala na cidade de Videha. Ela estava cansada de
procurar por clientes uma noite. Ela ficou sem esperanças. Então ela decidiu permanecer contentada com o que ela tinha e dormiu suavemente. Eu aprendi desta mulher caída a lição de que o abandono de esperanças leva ao contentamento.

18 – Um corvo pegou um pedaço de carniça. Ele foi perseguido e surrado por outros pássaros. Ele deixou o pedaço de carniça cair e então obteve paz e descanço. Disto eu aprendi a lição de que um homem mundano passa por todos os tipos de problemas e desgraças quando ele corre atrás da satisfação dos sentidos e torna-se tão feliz como o pássaro que abandona os prazeres sensuais.

19 – O bebê que suga o leite é livre de todas as preocupações e ansiedades e está sempre alegre. Eu aprendi esta virtude de um bebê.

20 – Os pais de uma jovem donzela sairam em busca de um pretendente apropriado para ela. A garota estava sozinha em casa. Durante a ausência dos pais, uma comitiva de pessoas foi até a casa com o mesmo propósito. Ela mesmo recebeu a comitiva. Ela foi para dentro para debulhar o arroz com casca. Enquanto ela estava debulhando, os braceletes de vidro em suas mãos fizeram um ruido estridente. E sábia garota então refletiu: “A comitiva irá perceber, pelo barulho dos braceletes, que eu estou debulhando o arroz sozinha e que minha família é muito pobre para contratar outros para ter o trabalho feito. Deixe-me quebrar todos os braceletes, deixando apenas dois em cada mão.” Então ela quebrou todos os braceletes deixando apenas dois em cada mão. Ainda assim os braceletes criavam muito barulho. Então ela quebrou mais um bracelete em cada mão. Não havia mais barulho e então ela prosseguiu o debulhar. Eu aprendi da experiência desta garota o seguinte: “Vivendo em meio a muitos causaria discórdia, pertubações e brigas. Mesmo entre duas pessoas podem haver palavras desecessárias ou conflitos. O asceta ou Sannyasi deve permanecer sozinho na solidão.

21 – Uma cobra não constrói o seu buraco. Ela habita nos buracos perfurados pelos outros. Do mesmo modo um asceta ou Sannyasi não deve construir uma casa para ele. Ele deve viver nas cavernas ou templos construídos pelos outros. Esta é a lição que eu aprendi da cobra.

22 – A mente de um artesão estava totalmente focada em afiar e plainar uma flecha. Enquanto ele estava engajado neste trabalho, um rei passou em frente ao seu estabelecimento com toda sua comitiva. Após algum tempo, um homem veio até o artesão e perguntou-lhe se o rei havia passado por sua loja e o artesão respondeu que não havia percebido nada. O fato era que o a mente do artesão estava unicamente absorta em seu trabalho e então ele não notou a passagem do rei em frente a sua loja. Eu aprendi deste artesão a qualidade da intensa concentração da mente.

23 – A aranha produz de sua boca longos fios as tece em uma teia. Ela mesmo acaba ficando presa na teia que acabara de tecer por si só. Do mesmo modo, o homem faz uma teia de suas próprias idéias e fica emaranhado nelas. O homem sábio deve então abandonar todos os pensamentos mundanos e pensar em Brahman unicamente. Esta é a lição que eu aprendi com a aranha.

24 – O besouro captura um verme, coloca-o em seu ninho e lhe dá uma picada. O pobre verme, sempre temeroso do retorno do besouro e da picada, e pensando constantemente no besouro, se torna o besouro em si próprio. O que quer que seja que um homem pense constantemente, ele atinge no curso do tempo. Assim como um homem pensa, ele então se torna. Eu aprendi do besouro e do verme a me tornar o Atma ao contemplar constantemente Ele e então abandonar todo o apego ao corpo e atingir Moksha ou libertação.

O Rei Yadu ficou imensamente impressionado pelos ensinamentos de Dattaterya. Ele abandonou o mundo e praticou constante meditação no Ser.

 

NO ultimo mês de setembro passei 4 semanas na Gujarat Ayurved University, em Jamnagar, noroeste do subcontinente indiano estudando Ayurveda e praticando Yoga e meditação. Nós éramos 5 profissionais brasileiros buscando aprimorar nosso conhecimento em um grande centro de ensino e pesquisa da Medicina Ayurvedica.  Ficamos amigos do hoteleiro Mustak, muçulmano, que é o proprietário do Hotel Presidente e também organiza viagens pelo estado de Gujarat.  A noite visitávamos seu hotel pois a comida era excelente e em um destes encontros ele perguntou : “ Vocês já ouviram falar em Dholaviira ? Nos olhamos em um sinal de interrogação e ele explicou: “ A civilização do Vale do Indu com mais de 5000 anos tem um famoso sitio arqueológico aqui em Gujarat, seria interessante vocês conhecerem”. Claro que topamos na hora…

No ultimo sábado do curso acordamos cedo para a nossa aventura pelo interior do estado de Gujarat em direção ao sítio arqueológico de Dholavira, há cerca de 6 horas de distancia, de carro, ao norte da  cidade de Jamnagar, próximo a fronteira do Paquistão. O carro era um potente Land Rover com ar condicionado. Tínhamos nos abastecido com frutas e muita água pois o calor beirava os 40 graus. O pequeno grupo era formado por 7 pessoas; 5 estudantes brasileiros de Ayurveda, Mustak ( proprietário do Hotel Presidente de Jamnagar) e um experiente e habilidoso motorista. Após mais de 6 horas de uma cansativa viagem em uma região inóspita e desértica chegamos a isolada ilha de Kadir, onde encontra-se um pequeno vilarejo com apenas uma simples pousada controlada pelo governo indiano.

A pousada tinha pequenos chalés redondos, muito simples e rústicos. Ao entrar no meu chalé, surpreso, descobri que ele já tinha um habitante mais antigo: um bonito pássaro indiano que entrava e saia através dos buracos no teto que era feito de madeira com sape. Olhei detalhadamente o quarto e observei um bom ar condicionado, uma cama com lençóis brancos e limpos porem com pequenos insetos, que retirei pacientemente, um banheiro singelo e ainda um ventilador de teto. Foi ai que “ caiu a ficha”, perguntei aos meus botões:  “o que poderá acontecer se chover a noite ?” As minhas preocupações aumentaram quando fui informado que a região era infestada por Najas venenosíssimas que costumavam rondar os chalés. A única solução que encontrei foi rezar para os Deuses indianos nos protegerem das chuvas e das cobras venenosas…

Passado o susto inicial me juntei a Mustak e os outros brasileiros e fomos encontrar o motorista e nosso guia local para a nossa travessia ao sítio arqueológico. O nosso guia chamava-se Jamal, tinha cerca de 50 anos, um típico indiano de Gujarat, moreno, simpático, robusto e receptivo as nossas perguntas. Ele era a pessoa certa para nos orientar pois tinha participado das escavações na cidade arqueológica de Dholavira nos anos 1990 e guardava muitas informações interessantes sobre esta cultura de mais de 5000 anos que é considerada o berço da civilização indiana. Após um pequeno percurso de 20 minutos chegamos ao nosso destino final: O sitio arqueológico de Dholavira da antiga civilização do vale do Indu.

Eu me senti voltando no passado de 5000 anos atrás, já tinha estudado e escrito sobre esta antiga cultura mas nunca me imaginei pisando em uma de seus principais sítios arqueológicos., além de Dholavira as outras 2 importantes cidades são Mohenjo Dharo e Harappa que ficam no inacessível Paquistão.  A emoção de estar visitando o berço da civilização do subcontinente indiano é indescritível.  Os arqueólogos descobriram que estes sítios eram únicos para o seu tempo, as suas ruas bem planejadas formavam uma rede , já as casas eram de tijolos cozidos e muitas com 2 andares tinham banheiros próximos as ruas para facilitar a drenagem. Este desenho arquitetônico das construções aponta para uma preocupação com a saúde pública e o saneamento e sugere uma crença explicita em um ritual de purificação que é prevalente no posterior pensamento indiano dos Vedas. Com tamanha preocupação com higiene e saneamento, com certeza, eles tinham um sistema organizado de medicina. Mas como afirma Wendy Doniger no seu espetacular livro “ The Hindus”: “ A Civilização do Vale do Indu não é silenciosa, nós é que somos surdos. Nós não podemos ouvir suas palavras mas podemos ver suas imagens”. A escrita deste antigo povo asiático não foi, apesar de inúmeros esforços, decifrada. Muitos selos e artefatos foram descobertos mas a mensagem escrita continua inacessível aos pesquisadores. Acredita-se que  este povo sucumbiu devido a mudanças climáticas e catástrofes geológicas por volta de 1500 a. C

No final do sábado voltamos para a pousada com seus esburacados tetos de sape e suas prevalentes cobras asiáticas mas, graças aos Deuses, não sofremos nenhum ataque porem ficou a mensagem que esta misteriosa e enigmática civilização ainda apresenta muitos segredos que não foram, ainda, decifrados pelos pesquisadores. Um tema interessante revelado pelos arqueólogos foram os sinetes exibindo “ figuras em postura de Yoga”. Destaca-se um personagem com 3 rostos, sentado em um trono baixo, diante do qual estão 2 gazelas uma de frente para a outra. Além disto apresenta 4 animais: um tigre, um elefante, um rinoceronte e um búfalo. Na sua cabeça observa-se um enfeite com 2 imensos chifres e um  objeto semelhante ao tridente. Os pesquisadores que analisaram esta figura perceberam nela um protótipo do deus Shiva, o senhor do Yoga. Será que eles tinham alguma prática semelhante ao Yoga desenvolvido no subcontinente indiano posteriormente ? Somente o tempo poderá responder esta e muitas outras perguntas ainda sem respostas.  Os leitores interessados, nesta arcaica cultura indiana, podem acessar o site:   www.harappa.com

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, clínico geral, reumatologista, especialista em Ayurveda e Acupuntura. Presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda”. Tel: (21) 25373251,   visite: www.ayurveda.com.br

 

 

 

 

Visitei a Índia em 1991 quando estive nos ashrams de Paramahansa Yogananda, autor do belíssimo livro Autobiografia de um Iogue, praticando meditação,16 anos depois retorno ao subcontinente indiano com o objetivo de estudar Ayurveda. Hoje a Índia é um país diferente daquele que encontrei no inicio dos anos 90, com mais de 1 bilhão de habitantes, uma economia emergente crescendo 8% ao ano, tornou-se um ícone da era digital e da tecnologia da informação para ao países em desenvolvimento.

Estou na Gujarat Ayurved University, maior centro de ensino e pesquisa da Medicina Ayurvedica do planeta, com o objetivo de passar 4 meses estudando para a minha tese de doutorado no Instituto de Medicina Social da UERJ. Aqui, no enorme campus, existem 6 institutos distintos que fazem parte do complexo universitário com as várias disciplinas relacionadas a tradição Hindu.

O Shri Gulabkunverba Ayurved Mahavidyalaya é uma faculdade de graduação em Ayurveda fundada em 1946 e oferece o B.A.M.S., ou seja, o Bacharelado em Medicina Ayurvedica e Cirurgia que dura 5 anos e meio. Esta escola possui um hospital com 105 leitos para pacientes internados onde todos os tratamentos são feitos com as ferramentas terapêuticas da Medicina Indiana, incluindo os medicamentos produzidos dentro da Universidade.

O Institute of Pos Graduate Teaching and Research in Ayurveda foi fundado em 1956, totalmente financiado pelo governo da Índia, oferece 2 cursos de pós-graduação: o Medical Doctor in Ayurveda com extensão de 3 anos e o PHD ( doutorado em Medicina Ayurvedica) com duração de 2 anos. Cerca e 1200 teses de pós-graduação foram realizadas em 13 especialidades distintas da Medicina Indiana.

Eu me matriculei no Patanjali Institute for Yoga and Naturopathy Education para fazer um curso de Hatha Yoga de 3 meses. Toda manhã praticamos Hatha Yoga e a tarde temos aulas teóricas com o estudo dos textos clássicos da tradição Hindu. Aos sábados as 6:30 da manhã fazemos as Kriyas, purificações com jalaneti e vamana ( limpeza das fossas nasais e vômito terapêutico). Este instituto forma profissionais na área de Yoga e Naturopatia ( terapias naturais) desde 1982, inclusive com curso de pós-graduação para profissionais da área da saúde.

Em 1999 foi fundado o Institute of Ayurvedic Pharmaceutical Science com graduação e mestrado em farmacia Ayurvedica. Neste mesmo ano foi criado o Institute of Ayurvedic Medicinal Plant Science, com o objetivo de fazer pesquisas em Fitoterapia. Este centro de ensino oferece um mestrado em ciência das plantas medicinais com duração de 2 anos para profissionais da área de botânica, farmácia, agricultura e Ayurveda.

Devido ao grande interesse dos estudantes estrangeiros na tradição do Ayurveda, foi criado o International Center for Ayurvedic Studies, onde freqüento as aulas sobre a Medicina Ayurvedica diariamente em inglês indiano ( as vezes literalmente impossível de entender). Este centro de ensino da Medicina Indiana oferece vários cursos, de curta duração, para estrangeiros em língua inglesa. Convido a todos os interessados na tradição Hindu a entrarem no nosso site.

O Ardrak ou gengibre ”e uma das plantas medicinais mais utilizadas na Medicina Ayurvedica, ”e chamado de maha aushadhi, o grande medicamento, ou vishvabheshaj, o remedio universal. Estes nomes demontram as grandes propriedades terapeuticas da erva, largamente utilizada na Medicina Chinesa e no Ayurveda.

 

A parte da planta utilizada ”e o rizoma, possui sabor picante e potencia quente. O Ayurveda recomenda mastigar um pedaco de gengibre com um pouquinho de sal antes das refeicoes para aumentar o fogo digestivo, promover uma boa digestao, diminuir a flatulencia e a constipacao. Uma combinacao de sumo de gengibre com cebola esta indicado nas nauseas e vomitos. Nas gripes e resfriados ”e recomendado o sumo de gengibre com hortela e mel de eucalipto. Ja nas tosses, os indianos recomendam, cha” de gengibre com cinamomo em po e cravo, acrescente uma colher de sopa de mel de eucalipto e tome uma xicara 3 vezes ao dia, entre as refeicoes.

 

Eu tenho utilizado o gengibre frequentemente, aqui na India, na forma de cha ou sumo durante as refeicoes, principalmente no almoco, o que tem auxiliado muito o meu problema de dispepsia ou ma digestao. Associado a uma alimentacao vegetariana, o Ayurveda recomenda o uso dos condimentos na dieta, pois uma refeicao completa ”e aquela que possui todos os sabores: doce, acido, amargo, picante, salgado e adstringente. Entao, amigos, vamos aumentar a proteina de origem vegetal, diminuir as carnes e derivados e fazer uso regular das especiarias associadas ao gengibre. Com isto o nosso sistema digestivo sera mais saudável e equilibrado. How to Play Baccarat Online

Uma das civilizações mais antigas do nosso planeta, a Índia é um país de contrastes. A diversidade de línguas, hábitos e modo de vida não impedem que haja uma grande unidade na cultura do país.Ao mesmo tempo que cada estado tem seu próprio modo de expressão, como na arte, música, linguagem ou culinária, o indiano é profundamente arraigado ao sentimento de amor à sua nação e tem orgulho de sua civilização ancestral, o que mantém vivas até hoje muitas tradições.

Talvez pela profusão de deuses adorados por diferentes segmentos da sociedade, a tolerância religiosa é algo inerente aos indianos acostumados a conviver com a diversidade, como as línguas diferentes faladas muitas vezes por vizinhos. Nos dias de hoje ocorrem conflitos religiosos, mas isso não pode ser considerado característico.

Muita coisa causa estranheza no ocidente, pois são muitos símbolos, muitas deidades, muitos rituais. A maioria é relativo ao Hinduísmo, que ainda é a religião com mais seguidores na Índia, seguido pelo Islamismo e o Budismo. O Hinduísmo é tão antigo quanto a civilização da Índia, tanto que a palavra “hindu”é erroneamente usada para dizer ” indiano”, e toda a simbologia é vista pelos outros países como se representasse a própria Índia.

“Por quê Ganesha tem cabeça de elefante? Como o ratinho tão minúsculo pode ser o seu veículo? Porque algumas pinturas mostram os deuses e deusas com tantos braços? “Não podemos entender a Índia sem entender o significado de símbolos como o Om , a swastika, o lotus que revelam fatos sobre a cultura do país, desenvolvidos por centenas de milhares de anos. Apenas aqueles que estudaram a cultura intensamente podem entender o significado intrínseco desses símbolos, mas é uma obrigação moral de todo indiano se dedicar ao conhecimento da simbologia cultural da Índia.

SÍMBOLOS

A principal mensagem dessa cultura é a aquisição de conhecimento e a remoção da ignorância. Enquanto a ignorância é como a escuridão, o conhecimento é como a luz.
A lamparina, chamada de deepak tem muita importância como símbolo pois, tradicionalmente feita de cerâmica, representa o corpo humano porque assim como o barro, também viemos da terra. O óleo é queimado nela como um símbolo do poder da vida. Uma simples lamparina quando imbuída desta simbologia chama-se deepak e nos dá a mensagem de que toda e qualquer pessoa no mundo deve remover a escuridão da ignorância fazendo o seu próprio trabalho.Nos templos, sempre se oferece uma chama, significando que tudo que fizermos é para agradar a Deus.

Outro símbolo que causa curiosidade para os ocidentais é o Om, que representa o poder de Deus, pois é o som da criação, o princípio universal, entoado começando todos os mantras. Diz-se que os primeiros yoguis o ouviram em meditação, e esse som permeia o cosmos. É o número um do alfabeto, é o zero que dá valor aos números, é o som da meditação.

A flor de lótus, presente em muitas imagens, devido ao fato de crescer na água pantanosa e não ser afetada por ela representa que devemos ficar acima do mundo material apesar de viver nele. As centenas de pétalas do lótus representam a cultura da “unidade na diversidade”.

A swastica, que causa estranheza quando é vista, pois para o ocidente é relacionada com o nazismo, é na verdade um símbolo de auspiciosidade, bem estar e prosperidade. Acima de tudo é uma bênção.

As divindades, com seus muitos braços, cada um deles carregando objetos ou armas, símbolos em si, como o lotus, livro, indicam as direções, a maioria representa os quatro pontos cardeais: norte, sul, leste e oeste. Qualquer poder do espírito supremo é chamado deus ou deusa, apesar de Deus ser Uno e Absoluto. Por isso são tantos, pois são muitas as manifestações de Deus.

RELIGIÃO

Outra coisa que é absolutamente importante para entendermos a cultura indiana é a crença na reencarnação, que para os hinduístas, assim como para muitas outras religiões, é um preceito básico e incontestável. Sómente considerando isso é que um ocidental pode entender o sistema de castas. Na filosofia indiana a vida é um eterno retorno , que gravita em ciclos concêntricos terminando no ceu centro, coisa que os iluminados atingem. Os percalços do caminho não são motivo de raiva , assim como os erros não são uma questão de pecado , mas sim uma questão de imaturidade da alma.. O ciclo completo da vida deve ser percorrido e a posição da pessoa em cada vida é transitória. Essa hierarquia implica em que quanto mais alto se chega na escala maiores são as obrigações. A roda da vida cobra mais de quem é mais capaz. Um Brâmane, por exemplo, que é da casta superior, dos filósofos e educadores, tem uma vida dedicada aos estudos e tem obrigações com a sociedade. As outras castas são: Kshatriya, administradores e soldados, Vaishya , comerciantes e pastores e Sudras , artesãos e trabalhadores braçais. Antigamente esse sistema de castas era seguido como lei, mas depois que Mahatma Gandhi, o grande personagem da libertação da India, contestou isso em nome dos direitos humanos, hoje na India a mobilidade social já se faz presente.

Mas nem tudo é hinduísmo na India. O seu maior cartão postal, o Taj Mahal, é uma construção muçulmana, um monumento ao amor, pois foi construido pelo rei para sua amada que morreu prematuramente. É uma das maravilhas do mundo, feito com mármore branco e ricamente decorado com pedras preciosas.

O Islamismo é fundamentado sobre a crença de que a existência humana é submissão (Islãm) e devoção a Allah, Deus onipotente. Para os muçulmanos, a sociedade humana não tem valor em si, mas o valor dado por Deus. A vida não é uma ilusão, e sim uma oportunidade de bênção ou penitência. Para guiar a humanidadde, Deus deu aos homens o Corão, livro revelado através do Anjo Gabriel, ao seu mensageiro, o Profeta Maomé, por volta do ano 610 DC. Um século depois, houve a grande invasão a Sind, que hoje está fora da India, na região do Paquistão, onde a língua Urdu , introduzida naquela época na região, permanece até hoje .Devido a fatores políticos, o Islamismo se espalhou pelo norte e hoje temos um grande crescimento dos seguidores do Islãm por toda a India.

Por volta do século XV o Islam estava dominando o norte da India e se tornou muito intolerante, não admitindo a existência daqueles que não acreditavam na sua religião. Os hindus estavam vivendo em condições desumanas, sendo reprimidos e até massacrados e as mulheres eram maltratadas. Por outro lado os hindus , com suas divisões de classes, suas superstições e parafernália de rituais, depois de séculos de invasões e dominação, passaram a ser humilhados em seu próprio país, proibidos de construir seus templos e até velar seus mortos. Nesse contexto surgiu o Guru Nanak , que mostrou que ambas as religiões estavam se distanciando dos princípios de Deus, de paz e amor na humanidade e inaugurou o Sikhismo, uma religião baseada em valores universais : amor, liberdade, dignidade, tolerãncia, harmonia, amizade, realização pessoal , auto confiança, serviço, caridade e sacrifício. Para um Sikh a geração de riqueza não é irreligioso, se for em benefício da sociedade e não apenas para si próprio. È uma fé baseada na realização de Deus dentro de cada um neste mundo e não depois da morte. .

O Budismo também se faz presente, já que a India é a terra onde nasceu Buda, e onde tudo começou. No tempo do Imperador Ashok, o grande rei unificador da Nação indiana, a maior parte se converteu ao Budismo, que alguns chamam de filosofia e não religião, pois não existe adoração a Deus e o ser humano é levado a conquistar a paz interior pelo caminho do meio, ou seja, o equilibrio. O sofrimento é causado pelo desejo e a prática da meditação é usada para aquietar a mente e procurar atingir o Nirvana, o estado de perfeita paz. As mais impressionantes representações do Budismo da época áurea se encontram nas cavernas de Ajanta e Ellora ,em Aurangabad. Esta última consiste em templos e monastérios erguidos pelos monges budistas , hinduístas e jainistas e contam a história das três religiões.

A vida do indiano é dividida em quatro fases, e essa divisão se chama Ashrama: a infãncia , a juventude, que é absolutamente devotada aos estudos, (não existe namoro nesta fase) , o tempo de se constituir familia, que é pela tradição arranjada pelos pais (este hábito está caindo em desuso com os tempos modernos) e na velhice a vida é dedicada à realização espiritual. Tal modo de vida mostra a grande importância dada ao conhecimento, e um grande número de indianos , apesar do alto índice populacional do país, e da pobreza que é conseqüencia disso, tem escolaridade e fala mais de uma língua.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

Quase tudo na India é espiritualidade, mas na verdade o grande propósito da cultura indiana é o conhecimento, e toda essa importância dada às religiôes se deve ao princípio de que o propósito da vida na terra é sair da escuridão da ignorância e chegar à luz do conhecimento. O que muita gente não sabe é que o conceito do Zero nasceu na India, e também que a primeira Universidade , com o significado que a palavra deve ter, existiu em Nalanda, no estado de Bihar ,nos tempos ancestrais.

A matemática do modo como entendemos hoje em dia deve à India todo o seu fundamenrto,pois todo o sistema de numeração é indo-arábico, ou seja, os árabes buscaram na India e difundiram os algarismos que usamos até hoje. A fórmula de Bhaskara que foi criada na India é usada para resolver todas as equações de segundo grau.

A grande contribuição para o mundo além da filosofia , que faz parte da vida e todos os indianos, são os avanços na tecnologia da informação , pois a Índia hoje tem exportando Phd””””s na área de Softwares principalmente para a Europa e EUA. No Brasil, o Departamento de Microeletrõnica da Universidade de São Paulo, USP, o nosso Instituto de Pesquisas Espaciais, INPE, e o IPEN, Instituto de Pesquisas Nucleares contam com profissionais indianos em cargos importantes. No campo da pesquisa espacial, o telescópio Chandra, da NASA, que leva o nome do físico indiano, é superior em tecnologia ao Hubble, mais conhecido por ser responsável por telecomunicações.Outra área importante é a biotecnologia, campo que a India domina sobre muitos países.

ATUALIDADE

A contribuição da Inglaterra, país que colonizou a India, foi principalmente a introdução da lingua inglesa, que permite que haja uma língua comum falada em todos os estados, cada qual com sua lingua nativa. Mas, além disso, introduziram o sistema de trens , que cobre todo o país, o telégrafo e toda a modernização nas comunicações. A independência foi conquistada em 1947, após a célebre resistência pacífica liderada por Mahatma Gandhi, o grande personagem do século XX, que deu o exemplo para o mundo, ensinando que a paz é possível. Ele mobilizou a população a produzir os próprios tecidos, para mostrar que não precisavam depender da Inglaterra, por isso vemos sempre seu retrato com uma roca. Isso tornou-se um símbolo e hoje a produção e tecidos é um dos setores mais prósperos . A marcha do sal foi com a mesma intenção, provar que a India podia ser autosuficiente.

A auto-suficiência é uma realidade, principalmente com relação a alimentos. O fato de ter uma população em grande parte vegetariana, e mesmo os não vegetarianos não comerem carne de vaca porque ela é sagrada, faz com que os espaços não sejam ocupados com pasto, propiciando assim maior incentivo à agricultura. Mesmo que muitas pessoas na India não tenham teto, talvez sapato, sempre existe comida fácil e barata, além da disposição de ajudar uns aos outros ser uma coisa natural no indiano.

Da mesma forma , a população cuida de sua própria segurança.É muito raro assaltos à mâo armada, situações de risco desta natureza, pois o povo religioso como todos sabem, tem uma atitude diferente da ocidental perante a miséria , talvez por ter uma cultura que não é baseda no “ter”.Mas quando ocorre algo, os próprios cidadãos se encarregam de punir o delinqüente. Todos os templos exigem que se tirem os sapatos e estes são deixados do lado de fora. Mesmo com grande número de pessoas sem poder aquisitivo para comprar um sapato, estes não são roubados.

Outro aspecto da auto suficiência é o sistema de conselho municipal, chamado panchayati; cinco membros, geralmente mais idosos, portanto mais sábios, que cuidam dos assuntos da comunidade. Isso vem dos tempos ancestrais, decorrente dos clãs, que são chamados gotra, e foi caindo em desuso, mas a autoridade legal desses conselhos foi restaurada oficialmente em 1989 por Rajiv Gandhi. Não há melhor meio de se exercer uma educação em direitos democráticos do que a chance de exercitar eles mesmos. Dois milhões e meio de habitantes das vilas são eleitos para posições no panchayat e o governo exercido por pessoas comuns fazem da democracia um fenômeno genuínamente de massas

A democracia da India é a maior do mundo pela sua população e o sistema político é parlamentar. Há duas câmaras, a câmara baixa ou “Câmara do Povo” (Lok Sabha) com 544 membros e a câmara alta ou “Conselho de Estados” (Rajya Sabha) co 245 membros . esta última não pode ser dissolvida. Há um Chefe de Estado e um Chefe de Governo, diversos partidos políticos e sindicatos.

CINEMA E ARTE

A Índia moderna, como todos os outros países, absorveu a cultura ocidental, mas talvez devido ao orgulho de sua identidade própria, sem perder as características culturais. Um grande exemplo é a indústria cinematográfica, que é a maior do mundo. O número de filmes feitos na India é maior que em qualquer outro país. A indústria cinematográfica surgiu em Bombay em 1913. Sete anos mais tarde produziu-se em Calcutá o primeiro filme em língua bengali e em 1934 foram inaugurados em Madras os estúdios destinadoss à produção de filmes em tâmil e telugo. Essa é a maior paixão do indiano. Os cinemas vivem lotados, eles adoram seus astros, e o estilo “bollywood” (Bombay é o pricipal centro cinematográfico) se faz presente nas ruas, com músicas que são presentes em alto e bom som em todos os lugares, o colorido que os indianos tanto gostam saindo dos saris, que ainda são uma constante, para as roupas ocidentalizadas, pelo menos nos grandes centros. Mas tudo tem a cara da India, não se vê uma invasão cultural como ocorre em outros países, que perdem a sua identidade em nome de serem modernos.

Esta diversidade colorida, esta mistura de línguas, religiões, saris e turbantes, além de arquiteturas diferentes, é o que o fazem da India este “Caldeirão Cultural”. A princípio o ocidental acha que um sari é sempre igual ao outro, mas um olhar mais atento vai mostrar que conforme a região o modo de amarrar difere do outro, assim como dependendo da religião vemos os diferentes modos de se amarrar um turbante.

As religiões são o fator mais determinante nas expressões do povo, como podemos ver em todas as manifestações da arte. A literatura e a poesia nasceram como mais uma maneira de se conectar com o divino, assim como toda pintura ou escultura. Os poemas de Tagore e Kabir são lidos até hoje, e muitos quadros contemporâneos que podemos ver no Museu de Arte de Delhi fazem referência às tradições e mitos.

Apesar de tudo, quem imagina a India um país místico, com cheiro de incenso e cheio de guirlandas e santos vagando pelas ruas, deve saber que é tudo verdade, mas convivendo lado a lado com um povo extremamente progressista, que gosta da modernidade e com uma identidade cultural única no mundo.

 

Consulado Geral da India | São Paulo