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As antigas cidades do Vale do Indu foram descobertas no principio da década de 20 e são uma das descobertas arqueológicas mais fascinantes de todos os tempos. Joseph Campbell afirma:

“ Ninguém até hoje explicou satisfatoriamente o súbito aparecimento no Vale do Indo, por volta de 2500 A C, de duas grandes cidades da Idade do Bronze em pleno florescimento, culturas idênticas, porem a 640 km de distancia uma da outra e com nada alem de pequenas aldeias entre uma e outra: Harapa, no Punjab,as margens do rio Ravi, e Mohenjo-Daro, no sul em Sind, as margens do Indo, do qual o Ravi é afluente. Como as duas estão no mesmo plano horizontal, seus desenvolvimentos não podem ter ocorrido de modo independente. Elas eram postos coloniais. E o que surpreende é a extensão de sua influencia. Sir Mortimer Wheeler, o arqueólogo mais recente destas cidades, observou que: “a civilização do Indo exemplifica o mais vasto experimento político antes do advento do Império Romano”. Seus artefatos característicos foram encontrados desde o Punjab até as proximidades de Bombaim. Entretanto o que é mais surpreendente é sua total monotonia. Pois os vestígios não exibem nenhum desenvolvimento ou mesmo variação, nem do mais antigo até o ultimo, nem do norte até o sul; apenas uma lenta deterioração dos padrões depois da primeira aparição espetacular. As cidades e sua civilização surgem, permanecem inalteradas por um milênio, enfraquecem e desaparecem como as ilusões noturnas(Campbell,1994:129)

Até hoje, cerca de 80 anos após a descoberta desta civilização, os arqueólogos não chegaram a um consenso sobre as datas do seu inicio e fim. Feuerstein, Kak e Frawley afirmam:

“ A antiga civilização índica, comumente referida como civilização Indu, é agora largamente aceita de ter alcançado a sua maturidade durante o período de 2700 A C a 1900 A C, geralmente chamada a era Harappan. Em 1931,Sir John Mar-Shal propôs um período de 3100 a 2750 A C como a idade de ouro de Harappa. Trinta anos mais tarde esta data foi modificada por Sir Mortimer Wheeler para 2500 a 1500 A C. Outros pesquisadores fixaram o começo para 2800 A C e o final para 1800 A C. Mais a mais o consenso vai em direção a 1900 A C como a data para a conclusão do florescimento das grandes cidades. Porém o inicio ainda está envolvido em escuridão.” (Feuerstein,Kak e Frawley,1999: 63)

A impressionante civilização do Vale do Indo tinha uma grande preocupação com a higiene e o saneamento devido ao seu sistema de esgotos e quase todas as casas possuíam
um banheiro com local para banhos e lavagens. Infelizmente a escrita desta civilização não foi, ainda, traduzida então pouco se sabe sobre os rituais feitos pelo povo de Harappa e Mohenjo Daro. Kenneth Zysk afirma:

“ A arquitetura dos sítios de Harappan eram únicos para o seu tempo. As ruas eram planejadas de norte a sul e leste a oeste formando uma rede. As casas eram normalmente de dois andares e feitas de tijolo cozido. Muitas casas tinham banheiro perto da parede próxima a rua, então a água poderia ser drenada por canos que corriam sob as ruas…Este desenho arquitetônico aponta para uma preocupação com a saúde pública e o saneamento e sugere uma crença implícita em um ritual de purificação que é prevalente no posterior pensamento indiano. O Balneário de Mohenjo-Daro media cerca de 70 metros por 24 metros e era preenchido de água por um grande poço. O agente central purificador era a água…que foi um importante remédio para o povo védico. É bem possível que a hidroterapia foi uma medida utilizada pelos Harapians para restabelecer e preservar a saúde, o que nos traz a mente o propósito dos banhos romanos em períodos mais tarde.” (Zysk,1998:2)

Podemos lançar a hipótese que devido a esta grande preocupação com o saneamento e a higiene este povo deveria ter um sistema de medicina, provavelmente, bem evoluído para a época. Porém não existem evidencias concretas para esta afirmação, a não ser o achado de certas substancias, como o betumem, que foram utilizados posteriormente na clássica Medicina Indiana: o Ayurveda..

Alem do Rig Veda a tradição médica na Índia está ligada a um outro texto védico, considerado pelos hindus ortodoxos um texto menor e menos valorizado, que foi compilado em período posterior ao Rig Veda porem muito importante dentro da historia da Medicina Indiana: O Atharva Veda. Nas palavras de Ramachandra Rao:

“ Atharvangiras, o antigo nome para o Atharva-Veda, sugere uma abordagem dupla : práticas curativas e pacificadoras e práticas de bruxaria e encantamento( ghora). Ambas as práticas estavam nas mãos de sacerdotes mágicos e “medicine-men” ( os atharvans) que dominavam a cena antes e durante o período do Rig Veda. A situação tem continuado assim até agora, após quase 7000 anos, nas partes rurais da Índia e entre as populações tribais.”(Rao, 1985:5)

O Atharva Veda sempre foi muito usado no período védico mas por muito tempo não foi tido como parte do cânone sagrado dos Vedas; mesmo depois de ser incorporado a este, nunca recebeu da casta sacerdotal ortodoxa, os Brâmanes, o mesmo status dos outros três Vedas: o Rig Veda, o Yajur Veda e o Sama Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao afirma:

“ É bem conhecido que o Atharva-Veda está do lado de fora do complexo védico clássico que originalmente era apenas triplo (trayi): Rig, Yajus e Saman. Apesar do Atharva Veda ter vindo a adquirir o status védico em alguma data posterior, o seu conteúdo é claramente mais antigo que próprio Rig. Foi demonstrado que o Atharva, realmente, volta até a era do Indu. Na verdade, o panorama de feitiços, amuletos, encantamentos e bruxarias que nós encontramos predominantemente neste Veda, reflete uma realidade primitiva que é também encontrada no Rig Veda. (Rao,1985:5).”

A explicação para a exclusão deste importante texto da tradição védica ortodoxa talvez esteja na utilização da chamada magia negra pelos atharvans. O Iogue Ramacharaca resu- me o Atharva Veda:

“ O Atharva Veda foi chamado “o Veda dos poderes psíquicos”, pela razão que dedica muita atenção aos vários métodos reputados como proveitosos para o desenvolvimento de faculdades supranormais, sentidos e forças. Menciona-se aqui tanto o emprego baixo, como elevado, das forcas; discutem-se todas as formas de poderes psíquicos, das mais elevadas as mais baixas formas de feitiçaria, bruxaria e magia negra; pois a mente hindu costuma tratar da totalidade, e depois procura sem medo ou hesitação, a conclusão lógica. Os livros que compõem o Atharva Veda, cujo numero é vinte, contém muitíssimas receitas e fórmulas de bênçãos, maldi-ções, encantamentos, cerimônias mágicas, invocações, etc. que excedem em variedade e pormenores todos os escritos dos hebreus e gregos, e mostram quão longe pode ir a mente humana nesta direção. É notável que no meio destes numerosíssimos “métodos”, apareçam certas partes da obra que contem idéias elevadas, pensamentos sublimes e interessantes especulações, e que evidentemente foram es critas ao mesmo tempo e foram incluídas com as outras na obra, devido antes ao período de sua composição, do que a alguma semelhança ou conexão de pensamento. Os hindus modernos reconhecem uma divisão decisiva entre as partes do Atharva Veda, separando-as em divisões correspondentes, nos termos ocidentais, à magia branca e à magia negra.” ( Ramacharaca, 1975: 225)

No Atharva Veda, assim como no Rig Veda, as plantas medicinais sempre foram parte da matéria medica dos “medicine men”.Este perspicaz interesse nas propriedades médici- nais das plantas levou ao desenvolvimento de uma vasta farmacopéia. Além de explicar as virtudes curativas de diferentes plantas e ervas, que eram separadas uma das outras e das árvores os profissionais também faziam distinções taxonômicas e ecológicas. No Atharva Veda encontramos:

“ A raiz destas plantas se tornou doce, doce o seu ápice, doce o seu meio, doce as suas folhas a doce as suas flores. Desde que eles possuem o mel e são a bebida da imortalidade. Deixe eles produzirem o ghee e o alimento que tem o leite de vaca como principal ingrediente”( Zysk,1998:101)

Neste hino do Atharva Veda observamos vários “medicamentos” que serão utilizados posteriormente pela clássica Medicina Indiana ou Ayurveda. Em primeiro momento o uso das plantas medicinais que são os principais remédios do Ayurveda, os sabores que são fundamentais nas propriedades e classificação dos alimentos e plantas. O mel muito utilizado e citado nos textos clássicos, o ghee, a manteiga clarificada que possui propriedades terapêuticas louvadas pela Medicina Ayurvedica. E por último o leite e seus derivados que são considerados alimentos purificadores e possuem propriedades terapeuti-
cas importantes. É provável, que seja neste contexto dos hinos do Atharva Veda, que o Ayurveda seja classicamente colocado como um derivado ou um ramo auxiliar do cânone do corpo de conhecimento dos textos védicos. Porem é classificado por alguns autores como o quinto Veda devido a sua importância. Ramachandra Rao afirma:

“ Atharvan, o videntes de todos os hinos médicos, é conhecido como um mágico assim como um médico. O outro sábio, Angira associado com este Veda, também era um médico e Charaka, autor do principal texto do Ayurveda, refere-se a ele como “entre os criadores da Medicina Indiana”. Neste contexto o Ayurveda é associado ao Atharva Veda, como uma disciplina derivada ou como um ramo auxiliar de conhecimento ( upa- veda).” (Rao,1985:27)