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Caraka o autor do clássico denominado de Caraka Samhita pertence a escola de Atreya ou escola de medicina interna. Ao analisarmos o antigo texto temos que estudar as 3 principais períodos históricos do desenvolvimento deste tratado de Ayurveda: o período de Atreya, a época de Caraka e por último a influência de Drdhbala.
Purnavasu Atreya é a figura central do Caraka Samhita, seus conceitos são elaborados na forma de diálogos com seu discípulo Agnivesa ou ao concluir as discussões como coordenador dos vários simpósios sobre Ayurveda. No Caraka Samhita é dito que Atreya recebeu seus conhecimentos de Bharadwaja, este teria recebido a “ciência da vida” diretamente de Indra, o rei dos deuses indianos. O principal discípulo de Atreya foi Agnivesa que escreveu o Agnivesa Tantra ( tratado de Agnivesa). P V Sharma coloca este clássico após o período do Atharva Veda ( 1500 a.C.) ou seja em torno de 1000 a. C.

O segundo período do texto é a época de Caraka que foi o primeiro autor a refinar o tratado de Agnivesa com suas interpretações e anotações. A contribuição de Caraka foi tão espetacular que o texto original passou a ser conhecido como Caraka Samhita. Alguns pesquisadores acreditam que Caraka pertencia ao ramo do Yajurveda negro, porém outros autores afirmam que um extinto ramo de vaidyas ( médicos) do Atharva Veda conhecidos como carana, moviam-se de cidade em cidade, servindo as populações com seus conhecimentos de medicina e esta ( carana) seria a fonte do nome Caraka. Porém Sylvan Levi, fundamentado em um texto budista chinês, coloca Caraka na corte do rei Kaniska, seguidor do budismo do século II. Todas estas especulações demonstram que os autores e historiadores do Ayurveda não chegam a um consenso sobre quem foi o revisor do Agnivesa Tantra. P. V. Sharma, tradutor do clássico para a língua inglesa, coloca Caraka no século II a. C., baseado em evidências internas e externas ao clássico.
Por último temos a influência de Drdhabala, filho de Kapilabala, que é citado por Cakrapani, que escreveu o principal comentário ao clássico de Caraka, e também por Vagbhata ( século VI da nossa era). Devido a isto P.V. Sharma coloca Drdhabala no século IV da era cristã, período anterior ao de Vagdhata. Afirma-se que Drdhabala reconstruiu o Caraka Samhita que estava com um terço do seu texto perdido.

O tratado possui 120 capítulos divididos em 8 partes:
1- Sutrasthana ( princípios básicos) – 30 capítulos
2- Nidanasthana ( diagnóstico ) – 8 capítulos
3- Vimanasthana ( conhecimentos específicos ) – 8 capítulos
4- Sarirasthana ( corpo físico ) – 8 capítulos
5- Indriyasthana ( sinais de vida e morte) – 12 capítulos
6- Cikitsasthana ( terapêutica ) – 30 capítulos
7- Kalpasthana ( formulações ) – 12 capítulos
8- Siddhisthana ( complicações) – 12 capítulos

O Ayurveda tradicionalmente é um conhecimento derivado dos Vedas, reconhecido como um upaveda do Rig Veda ou do Atarva Veda. Esta ciência tradicional foi dividida em 8 especialidades principais:
1- Kayacikitsa ( medicina interna)
2- Salya ( cirurgia)
3- Salakya ( doenças da cabeça e pescoço)
4- Kaumarabhrtya ( ginecologia, obstetrícia e pediatria)
5- Agadatantra ( toxicologia)
6- Bhutavidya ( doenças mentais e invasões de espíritos)
7- Rasayana ( rejuvenescimento )
8- Vajikarana ( afrodisíacos)
Vários tratados foram escritos em cada uma destas especialidades porem duas delas se destacaram, com um grande desenvolvimento, tornando-se duas escolas distintas e principais do Ayurveda clássico: a escola de Atreya, de Kaya cikitsa, ou medicina interna, representada pelo Caraka samhita e a escola de Dhanvantari, de Salya, ou cirurgia, representada pelo Susruta Samhita. Em nosso próximo artigo iremos escrever sobre esta escola do cirurgião Susruta. Até lá.

 

As antigas cidades do Vale do Indu foram descobertas no principio da década de 20 e são uma das descobertas arqueológicas mais fascinantes de todos os tempos. Joseph Campbell afirma:

“ Ninguém até hoje explicou satisfatoriamente o súbito aparecimento no Vale do Indo, por volta de 2500 A C, de duas grandes cidades da Idade do Bronze em pleno florescimento, culturas idênticas, porem a 640 km de distancia uma da outra e com nada alem de pequenas aldeias entre uma e outra: Harapa, no Punjab,as margens do rio Ravi, e Mohenjo-Daro, no sul em Sind, as margens do Indo, do qual o Ravi é afluente. Como as duas estão no mesmo plano horizontal, seus desenvolvimentos não podem ter ocorrido de modo independente. Elas eram postos coloniais. E o que surpreende é a extensão de sua influencia. Sir Mortimer Wheeler, o arqueólogo mais recente destas cidades, observou que: “a civilização do Indo exemplifica o mais vasto experimento político antes do advento do Império Romano”. Seus artefatos característicos foram encontrados desde o Punjab até as proximidades de Bombaim. Entretanto o que é mais surpreendente é sua total monotonia. Pois os vestígios não exibem nenhum desenvolvimento ou mesmo variação, nem do mais antigo até o ultimo, nem do norte até o sul; apenas uma lenta deterioração dos padrões depois da primeira aparição espetacular. As cidades e sua civilização surgem, permanecem inalteradas por um milênio, enfraquecem e desaparecem como as ilusões noturnas(Campbell,1994:129)

Até hoje, cerca de 80 anos após a descoberta desta civilização, os arqueólogos não chegaram a um consenso sobre as datas do seu inicio e fim. Feuerstein, Kak e Frawley afirmam:

“ A antiga civilização índica, comumente referida como civilização Indu, é agora largamente aceita de ter alcançado a sua maturidade durante o período de 2700 A C a 1900 A C, geralmente chamada a era Harappan. Em 1931,Sir John Mar-Shal propôs um período de 3100 a 2750 A C como a idade de ouro de Harappa. Trinta anos mais tarde esta data foi modificada por Sir Mortimer Wheeler para 2500 a 1500 A C. Outros pesquisadores fixaram o começo para 2800 A C e o final para 1800 A C. Mais a mais o consenso vai em direção a 1900 A C como a data para a conclusão do florescimento das grandes cidades. Porém o inicio ainda está envolvido em escuridão.” (Feuerstein,Kak e Frawley,1999: 63)

A impressionante civilização do Vale do Indo tinha uma grande preocupação com a higiene e o saneamento devido ao seu sistema de esgotos e quase todas as casas possuíam
um banheiro com local para banhos e lavagens. Infelizmente a escrita desta civilização não foi, ainda, traduzida então pouco se sabe sobre os rituais feitos pelo povo de Harappa e Mohenjo Daro. Kenneth Zysk afirma:

“ A arquitetura dos sítios de Harappan eram únicos para o seu tempo. As ruas eram planejadas de norte a sul e leste a oeste formando uma rede. As casas eram normalmente de dois andares e feitas de tijolo cozido. Muitas casas tinham banheiro perto da parede próxima a rua, então a água poderia ser drenada por canos que corriam sob as ruas…Este desenho arquitetônico aponta para uma preocupação com a saúde pública e o saneamento e sugere uma crença implícita em um ritual de purificação que é prevalente no posterior pensamento indiano. O Balneário de Mohenjo-Daro media cerca de 70 metros por 24 metros e era preenchido de água por um grande poço. O agente central purificador era a água…que foi um importante remédio para o povo védico. É bem possível que a hidroterapia foi uma medida utilizada pelos Harapians para restabelecer e preservar a saúde, o que nos traz a mente o propósito dos banhos romanos em períodos mais tarde.” (Zysk,1998:2)

Podemos lançar a hipótese que devido a esta grande preocupação com o saneamento e a higiene este povo deveria ter um sistema de medicina, provavelmente, bem evoluído para a época. Porém não existem evidencias concretas para esta afirmação, a não ser o achado de certas substancias, como o betumem, que foram utilizados posteriormente na clássica Medicina Indiana: o Ayurveda..

Paramahansa Yogananda na sua “Autobiografía de Um Iogue” define os Vedas de acordo com a visão de um monge hindu:

“ O hino Sama é um dos quatro Vedas, os outros três são: o Rig, o Yajur e o Atarva. Os textos sagrados expõem a natureza de Brahma, Deus o criador, cuja expressão em cada homem denomina-se atma ou alma. A raiz verbal de Brahma é brih “expandir”, que encerra o conceito védico do divino poder de crescimento espontâneo ou da irrupção em atividade criadora.O cosmo, como a teia de aranha, diz-se que evolve para fora do ser divino. Tudo que importa nos Vedas é a fusão consciente de atma com Brahma, da alma com o Espírito. Na imensa literatura da Índia, os Vedas ( raiz vid, conhecer) são os únicos textos aos quais não se atribui autor. O Rig Veda assinala uma origem divina para os hinos e nos informa que eles são a herança de antiqüíssimos tempos revertidos de linguagem nova. Diz-se que os Vedas, revelações divinas feitas aos rishis ou videntes, através das eras possuem nityatva , “finalidade intemporal”.” ( Yogananda, 1981:265)

Os Vedas são a raiz de toda a filosofia indiana, a partir dos quatro Vedas surgiram várias escolas filosóficas, muitas inclusive contraditórias, porém todas elas foram influenciadas em maior ou menor grau pelo pensamento védico. Interessante observar a afirmação de Zimmer sobre a filosofia e a mitologia hindu:

“ A filosofia hindu ortodoxa surgiu da antiga religião ária dos Vedas. Originalmente o panteão védico, com sua hoste de deuses, representava o universo onde se projetavam as experiências e idéias do homem sobre si mesmo. As características humanas do nascimento, crescimento e morte e o processo de geração eram projetadas sobre o acontecer cósmico. As luzes do céu, os variados aspectos das nuvens e das tempestades, das florestas, das cadeias de montanhas e dos cursos dos rios, as propriedades do solo e os mistérios do mundo subterrâneo eram entendidos e tratados com referencia as vidas e relações dos deuses, os quais por sua vez refletiam o mundo humano. Estes deuses eram super-homens dotados de poderes cósmicos, e podiam ser convidados a participar de uma festa através de oblações. Eram invocados, adulados, propiciados e comprazidos.” (Zimmer, 1986: 238)

O período de compilação dos Vedas é motivo de eterna controvérsia, com diferenças estarrecedoras de milhares de anos. Sobre as datas exatas da civilização indiana e os possíveis equívocos dos diversos autores Svoboda afirmou:

“ Ninguém sabe exatamente quando a civilização se desenvolveu na Índia; todas as datas são arbitrárias ate a época de Gautama Buddha ( 563 a 483 A C)” (Svoboda, 1992:9)

O Professor Max Muller eminente erudito alemão de Oxford em seu trabalho “Os Seis Sistemas de Filosofia Indiana”, publicado em 1900, afirmou:

“ De qualquer maneira que os Vedas possam ser chamados, eles são para nós únicos e guias sem preço em abrir perante nossos olhos tumbas de pensamentos mais ricos em relíquias que as tumbas reais do Egito e mais antigos e primitivos em pensamento do que os mais antigos hinos da Babilônia ou dos poetas acadianos.Se nós garantirmos que eles pertencem ao segundo milênio anterior a nossa era nós estaremos, provavelmente, em solo seguro, entretanto nós não devemos esquecer que esta é somente uma data construtiva e tal data não se torna verdadeira pela mera repetição.” ( Muller, em Feuerstein, Kak e Frawley, 1999: 106)

Confrontando a afirmação de Max Muller com observações astronômicas que são citadas no Rig Veda, considerado o mais antigo dos quatro Vedas, podemos observar como os autores e pesquisadores discordam com relação as datas da era védica:

“ As referencias astronômicas do Rig Veda foram avaliadas pela primeira vez por Bal Gangadhar Tilak, um elogiado erudito e político da Índia do final do século XIX. Entretanto sua visão foi sumariamente desvalorizada pela maioria dos outros pesquisadores. O fato que o Rig Veda menciona uma configuração estelar que corresponde ao período de 6000 a 7000 A C , a era astronômica Ashvini, não deve ser meramente negada mas adequadamente explicada.”( Feuerstein, Kak & Frawley, 1999;107)

Os Vedas são, considerados dentro da tradição hindu, hinos religiosos que são a fonte das principais filosofias indianas. A Medicina Védica é encontrada em dois dos quatro Ve-
das: o Rig Veda e o Atharva Veda. At The Copa by Betsoft

Alem do Rig Veda a tradição médica na Índia está ligada a um outro texto védico, considerado pelos hindus ortodoxos um texto menor e menos valorizado, que foi compilado em período posterior ao Rig Veda porem muito importante dentro da historia da Medicina Indiana: O Atharva Veda. Nas palavras de Ramachandra Rao:

“ Atharvangiras, o antigo nome para o Atharva-Veda, sugere uma abordagem dupla : práticas curativas e pacificadoras e práticas de bruxaria e encantamento( ghora). Ambas as práticas estavam nas mãos de sacerdotes mágicos e “medicine-men” ( os atharvans) que dominavam a cena antes e durante o período do Rig Veda. A situação tem continuado assim até agora, após quase 7000 anos, nas partes rurais da Índia e entre as populações tribais.”(Rao, 1985:5)

O Atharva Veda sempre foi muito usado no período védico mas por muito tempo não foi tido como parte do cânone sagrado dos Vedas; mesmo depois de ser incorporado a este, nunca recebeu da casta sacerdotal ortodoxa, os Brâmanes, o mesmo status dos outros três Vedas: o Rig Veda, o Yajur Veda e o Sama Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao afirma:

“ É bem conhecido que o Atharva-Veda está do lado de fora do complexo védico clássico que originalmente era apenas triplo (trayi): Rig, Yajus e Saman. Apesar do Atharva Veda ter vindo a adquirir o status védico em alguma data posterior, o seu conteúdo é claramente mais antigo que próprio Rig. Foi demonstrado que o Atharva, realmente, volta até a era do Indu. Na verdade, o panorama de feitiços, amuletos, encantamentos e bruxarias que nós encontramos predominantemente neste Veda, reflete uma realidade primitiva que é também encontrada no Rig Veda. (Rao,1985:5).”

A explicação para a exclusão deste importante texto da tradição védica ortodoxa talvez esteja na utilização da chamada magia negra pelos atharvans. O Iogue Ramacharaca resu- me o Atharva Veda:

“ O Atharva Veda foi chamado “o Veda dos poderes psíquicos”, pela razão que dedica muita atenção aos vários métodos reputados como proveitosos para o desenvolvimento de faculdades supranormais, sentidos e forças. Menciona-se aqui tanto o emprego baixo, como elevado, das forcas; discutem-se todas as formas de poderes psíquicos, das mais elevadas as mais baixas formas de feitiçaria, bruxaria e magia negra; pois a mente hindu costuma tratar da totalidade, e depois procura sem medo ou hesitação, a conclusão lógica. Os livros que compõem o Atharva Veda, cujo numero é vinte, contém muitíssimas receitas e fórmulas de bênçãos, maldi-ções, encantamentos, cerimônias mágicas, invocações, etc. que excedem em variedade e pormenores todos os escritos dos hebreus e gregos, e mostram quão longe pode ir a mente humana nesta direção. É notável que no meio destes numerosíssimos “métodos”, apareçam certas partes da obra que contem idéias elevadas, pensamentos sublimes e interessantes especulações, e que evidentemente foram es critas ao mesmo tempo e foram incluídas com as outras na obra, devido antes ao período de sua composição, do que a alguma semelhança ou conexão de pensamento. Os hindus modernos reconhecem uma divisão decisiva entre as partes do Atharva Veda, separando-as em divisões correspondentes, nos termos ocidentais, à magia branca e à magia negra.” ( Ramacharaca, 1975: 225)

No Atharva Veda, assim como no Rig Veda, as plantas medicinais sempre foram parte da matéria medica dos “medicine men”.Este perspicaz interesse nas propriedades médici- nais das plantas levou ao desenvolvimento de uma vasta farmacopéia. Além de explicar as virtudes curativas de diferentes plantas e ervas, que eram separadas uma das outras e das árvores os profissionais também faziam distinções taxonômicas e ecológicas. No Atharva Veda encontramos:

“ A raiz destas plantas se tornou doce, doce o seu ápice, doce o seu meio, doce as suas folhas a doce as suas flores. Desde que eles possuem o mel e são a bebida da imortalidade. Deixe eles produzirem o ghee e o alimento que tem o leite de vaca como principal ingrediente”( Zysk,1998:101)

Neste hino do Atharva Veda observamos vários “medicamentos” que serão utilizados posteriormente pela clássica Medicina Indiana ou Ayurveda. Em primeiro momento o uso das plantas medicinais que são os principais remédios do Ayurveda, os sabores que são fundamentais nas propriedades e classificação dos alimentos e plantas. O mel muito utilizado e citado nos textos clássicos, o ghee, a manteiga clarificada que possui propriedades terapêuticas louvadas pela Medicina Ayurvedica. E por último o leite e seus derivados que são considerados alimentos purificadores e possuem propriedades terapeuti-
cas importantes. É provável, que seja neste contexto dos hinos do Atharva Veda, que o Ayurveda seja classicamente colocado como um derivado ou um ramo auxiliar do cânone do corpo de conhecimento dos textos védicos. Porem é classificado por alguns autores como o quinto Veda devido a sua importância. Ramachandra Rao afirma:

“ Atharvan, o videntes de todos os hinos médicos, é conhecido como um mágico assim como um médico. O outro sábio, Angira associado com este Veda, também era um médico e Charaka, autor do principal texto do Ayurveda, refere-se a ele como “entre os criadores da Medicina Indiana”. Neste contexto o Ayurveda é associado ao Atharva Veda, como uma disciplina derivada ou como um ramo auxiliar de conhecimento ( upa- veda).” (Rao,1985:27)

A civilização na Índia é muito antiga, estudos recentes colocam as primeiras cidades no sub-continente indiano em 3200 a C., a chamada civilização do vale do Indu que desapareceu em 1900 a C.. Seguiu-se a tradição dos Vedas onde a medicina tinha uma abordagem mágico-religiosa, ou seja, as doenças estavam relacionadas ao sobrenatural e a cura viria de rituais e oferendas aos deuses. O Atarva Veda é o livro dos Vedas relacionado a saúde e medicina, basicamente é um ritual de magia, a tradição coloca o Ayurveda como um derivado do Atharva Veda.
Os primeiros textos de Ayurveda surgiram em torno de 1000 a 1500 a C., muitos se perderam ou foram destruídos nestes mais de 3000 anos de história, mas três importantes livros daquela época chegaram aos nossos dias: Kashyapa Samhita, representa a escola de ginecologia e pediatria, Caraka Samhita, representa a escola de medicina interna e Susruta Samhita que representa a escola de cirurgia.

Alem destes temos 2 importantes livros que foram escritos em torno do século VI e VII por um autor budista chamado Vaghbata: Ashtanga Sangraha e Ashtanga Hrdaya são compilações de todo o conhecimento, até aquela época, do Ayurveda no sub-continente indiano. Estes dois compêndios são muito importantes pois citam outros tratados que não chegaram íntegros aos nossos dias.
Este período é conhecido como idade de ouro da Medina Ayurvedica e terminou quando os invasores muçulmanos tomaram o norte da índia a partir do século X e XI. Os invasores mataram muitos budistas e destruíram grandes centros de conhecimento e queimaram suas bibliotecas. Muitos fugiram para o Nepal e Tibete levando alguns textos que somente sobreviveram nestes países.

Posteriormente ao final da idade média ( século XV), com a invasão de portugueses e ingleses o Ayurveda teve um outro período de declinio. No século XVIII e XIX os invasores britânicos proibiram o ensino do Ayurveda e a tradição recebeu outro choque pois os ocidentais divulgaram as idéias de que a medicina da Europa era mais avançada e científica sendo então mais eficiente que a Medicina Ayurvedica.
No inicio do século XX com o movimento nacionalista indiano que culminou com a expulsão dos britânicos, em 1947, houve em uma volta pela tradição da própria Índia e o retorno do estudo do Ayurveda. Muitas faculdades foram fundadas no século XX para formar médicos Ayurvédicos, o chamado BAMS ou Bacharel em Ayuvedic Medicine and Surgery, curso de graduação que dura cinco anos e meio. Atualmente existem cerca de 200 instituições que formaram 450 mil médicos registrados em Ayurveda na Índia do século XXI

Alem da graduação existem os cursos de pós-graduação, ou medical doctor em Ayurveda, onde o médico faz 3 anos de especialização dentro de uma faculdade registrada pelo governo da Índia. Após a especialização o profissional pode desenvolver uma tese de doutorado ou PHD que dura 2 anos. Uma formação completa em Ayurveda, na Índia moderna, com graduação, pós-graduação e doutorado leva em torno de 11 anos de estudos em uma faculdade.

O Ayurveda é uma racionalidade médica reconhecida pelo governo da Índia, porem existem ainda outros sistemas: Alopatia ou medicina ocidental, Unani ( medicina dos muçulmanos que vem de Hipócrates), medicina dos Siddhas ( medicina que é prevalente no sul da Índia da tradição dos Siddhas), Homeopatia ( introduzida na Índia pelos ingleses), Naturopatia ( medicina natural), e yogaterapia ( utiliza as técnicas de yoga para tratar as patologias).
Todas estes sistemas de medicina são oferecidos a população através de clínicas e hospitais financiados pelo governo da Índia. Quando estive frequentando o hospital-escola da Gujarat Ayurved University pude acompanhar o atendimento gratuito de muitos pacientes, crianças, adultos e idosos e observar como eles recebem gratuitamente os medicamentos ayurvedicos, feitos na própria universidade, localizada na cidade de Jamnagar, estado de Gujarat, noroeste da Índia. Nesta grande universidade de Medicina Ayurvedica muitas pesquisas estão sendo realizadas para o desenvolvimento e promoção deste sistema médico com o objetivo de demonstrar, que apesar do grande desenvolvimento da ciência moderna, existe espaço para uma tradição que possui milhares de anos de experiência clínica.

O Rig Veda é literatura mais antiga da cultura indiana e é muito provavelmente a fonte comum da arte, ciência, literatura, filosofia e oficio que se desenvolveu na Índia nos sécu-
los subseqüentes. A literatura do Rig Veda é dedicada aos ritos e sacrifícios que eram feitos aos deuses. No Rig Veda podemos observar que a religião, mitologia, medicina e magia são coisas inseparáveis o que levou Keneth Zysk a afirmar que a medicina do período védico é, necessáriamente, uma medicina mágico-religiosa. Feuerstein afirma:

“ O famoso estudioso indiano Surendranath Dasgupta caracterizou a religião védica, com toda a razão, como um “misticismo sacrificial”. Isto porque o sacrifício (yajna) estava no âmago das crenças e práticas religiosas da Civilização do Indo. Distinguiam-se duas espécies de ritos sacrificiais: os sacrifícios domésticos, ou Griha, e os sacrifícios públicos, ou Srauta. Os primeiros eram cerimônias particulares que só envolviam uma família e uma fogueira. Os segundos exigiam numerosos sacerdotes, três fogueiras e toda uma multidão de participantes silenciosos. Durante vários dias, as vezes semanas e até meses. Em certas ocasiões especiais a tribo ou o povoado inteiro se congregava para participar de grande sacrifícios, como o famoso agni-shtoma (sacrifício do fogo) e o ashva-medha ( sacrifício do cavalo), o qual só era realizado de quando em quando para garantir a continuidade do reinado de um grande rei ou a prosperidade da tribo ou do país.” (Feuerstein, 2001:101)

A religiosidade do povo védico caracterizava-se por um grande vigor e naturalidade, nas preces, eles rogavam por uma vida longa, saudável e prospera em harmonia com a ordem cósmica. Porem os hinos védicos também deixam claro que haviam pessoas de iniciação mais mística que aspiravam a comunhão com o deus ou a deusa da sua eleição ou mesmo a fusão com o Ser supremo. Feuerstein afirma sobre os rishis ou videntes dos Vedas:

“ Os heróis espirituais do povo védico não eram os sacerdotes, embora fossem estes altamente estimados, mas sim os sábios ou videntes ( rishi) que “viam”a verdade, que percebiam com o olho do coração a realidade oculta por trás da cortina de fumaça da existência manifestada. Muitos deles pertenciam a classe sacerdotal mas alguns eram membros das três outras classes sociais. Eram eles os sábios iluminados cuja sabedoria promanou numa poesia rítmica e numa linguagem altamente simbólica: os impressionantes hinos dos Vedas. Esses videntes, que também eram chamados poetas(Kavi), revelavam para o individuo comum e não iluminado a realidade luminosa que brilha por trás de toda a treva espiritual. Mostravam também o caminho que leva a este Ser eterno, que é único ( eka) e não nascido ( aja) mas recebe muitos nomes. Os videntes védicos recebiam suas visões sagradas como recompensa de um trabalho árduo, de muitas asceses e de uma profunda aspiração a iluminação
espiritual.” (Feuerstein, 2001:145)

Na medicina do Rig Veda os médicos, chamados bhishak, pertencem a uma classe profissional. Em um hino fala-se em “cem médicos e mil medicamentos”, a farmacopéia consiste principalmente de plantas medicinais que também são classificadas e suas propriedades mencionadas. Os Asvins, são os famosos médicos dos deuses, os guardiãs das ervas e suas habilidades são extensivamente louvadas. Em um dos hinos do Rig Veda podemos observar o louvor aos médicos dos deuses, os gêmeos Asvins:

“ Ó Asvins que são os curadores dos homens no caminho do bem…vocês curaram, com a infusão fria ( hima ) o calor intenso de Atri, vocês nutriram ele com alimento, e o livraram das cavernas escuras nas quais os demônios o colocaram.” (Rig Veda , em Rao, 1985:111)

Neste verso pode-se ver claramente a relação quente/frio nos tratamentos, no caso possivelmente um quadro febril. Esta abordagem será utilizada posteriormente na medicina indiana clássica ou Ayurveda. Em outro verso do Rig Veda conta-se sobre as diversos ofícios inclusive a profissão médica:

“ Várias são as nossas intenções, e várias também são as vocações que os homens seguem. O carpinteiro procura a madeira; o médico( bishak) procura a doença ( rutam); o sacerdote espreme o suco do Soma…” (Rig Veda, em Rao,1985;118)

Neste verso do Rig Veda observamos que no período védico já existiam diversas profissões inclusive o médico que nesta época era denominado “bishak” posteriormente nos textos clássicos do Ayurveda o médico passa a ser denominado vaidya do mesmo radical sânscrito de Veda ou seja Vid, conhecer. Logo no Ayurveda o médico vaidya torna-se um homem de conhecimento ou sabedoria. Neste outro hino o Rig Veda fala sobre as plantas medicinais:

“ Muito antes do aparecimento dos deuses, mesmo antes das três eras, haviam estas ervas antigas, coloração clara e cento e sete em numero.”… ( Rig Veda, em Rao, 1985:119)

No antigo Rig Veda, além das plantas medicinais, a água é considerada um remédio poderoso. Neste hino podemos observar o louvor ao liquido como remédio:

“ A água (apa) na verdade é um curador ( bheshaji). A água destrói as doenças( amivachatanih), e a água cura todas as (doenças) de todos os seres( sarvasya). Possa esta água atuar como remédio para você e faze-lo feliz.” (Rig Veda,em Rao, 1985:118)

Esta tradição de utilizar a água como medicamento provavelmente tem suas raízes na hidroterapia que era largamente utilizada pela civilização do vale do Indu. Como vimos em Mohenjo-Daro, os banhos eram muito importantes na tradição dos Harappans ( povo que habitava o Vale do Indu no terceiro milênio A C )

 

NO ultimo mês de setembro passei 4 semanas na Gujarat Ayurved University, em Jamnagar, noroeste do subcontinente indiano estudando Ayurveda e praticando Yoga e meditação. Nós éramos 5 profissionais brasileiros buscando aprimorar nosso conhecimento em um grande centro de ensino e pesquisa da Medicina Ayurvedica.  Ficamos amigos do hoteleiro Mustak, muçulmano, que é o proprietário do Hotel Presidente e também organiza viagens pelo estado de Gujarat.  A noite visitávamos seu hotel pois a comida era excelente e em um destes encontros ele perguntou : “ Vocês já ouviram falar em Dholaviira ? Nos olhamos em um sinal de interrogação e ele explicou: “ A civilização do Vale do Indu com mais de 5000 anos tem um famoso sitio arqueológico aqui em Gujarat, seria interessante vocês conhecerem”. Claro que topamos na hora…

No ultimo sábado do curso acordamos cedo para a nossa aventura pelo interior do estado de Gujarat em direção ao sítio arqueológico de Dholavira, há cerca de 6 horas de distancia, de carro, ao norte da  cidade de Jamnagar, próximo a fronteira do Paquistão. O carro era um potente Land Rover com ar condicionado. Tínhamos nos abastecido com frutas e muita água pois o calor beirava os 40 graus. O pequeno grupo era formado por 7 pessoas; 5 estudantes brasileiros de Ayurveda, Mustak ( proprietário do Hotel Presidente de Jamnagar) e um experiente e habilidoso motorista. Após mais de 6 horas de uma cansativa viagem em uma região inóspita e desértica chegamos a isolada ilha de Kadir, onde encontra-se um pequeno vilarejo com apenas uma simples pousada controlada pelo governo indiano.

A pousada tinha pequenos chalés redondos, muito simples e rústicos. Ao entrar no meu chalé, surpreso, descobri que ele já tinha um habitante mais antigo: um bonito pássaro indiano que entrava e saia através dos buracos no teto que era feito de madeira com sape. Olhei detalhadamente o quarto e observei um bom ar condicionado, uma cama com lençóis brancos e limpos porem com pequenos insetos, que retirei pacientemente, um banheiro singelo e ainda um ventilador de teto. Foi ai que “ caiu a ficha”, perguntei aos meus botões:  “o que poderá acontecer se chover a noite ?” As minhas preocupações aumentaram quando fui informado que a região era infestada por Najas venenosíssimas que costumavam rondar os chalés. A única solução que encontrei foi rezar para os Deuses indianos nos protegerem das chuvas e das cobras venenosas…

Passado o susto inicial me juntei a Mustak e os outros brasileiros e fomos encontrar o motorista e nosso guia local para a nossa travessia ao sítio arqueológico. O nosso guia chamava-se Jamal, tinha cerca de 50 anos, um típico indiano de Gujarat, moreno, simpático, robusto e receptivo as nossas perguntas. Ele era a pessoa certa para nos orientar pois tinha participado das escavações na cidade arqueológica de Dholavira nos anos 1990 e guardava muitas informações interessantes sobre esta cultura de mais de 5000 anos que é considerada o berço da civilização indiana. Após um pequeno percurso de 20 minutos chegamos ao nosso destino final: O sitio arqueológico de Dholavira da antiga civilização do vale do Indu.

Eu me senti voltando no passado de 5000 anos atrás, já tinha estudado e escrito sobre esta antiga cultura mas nunca me imaginei pisando em uma de seus principais sítios arqueológicos., além de Dholavira as outras 2 importantes cidades são Mohenjo Dharo e Harappa que ficam no inacessível Paquistão.  A emoção de estar visitando o berço da civilização do subcontinente indiano é indescritível.  Os arqueólogos descobriram que estes sítios eram únicos para o seu tempo, as suas ruas bem planejadas formavam uma rede , já as casas eram de tijolos cozidos e muitas com 2 andares tinham banheiros próximos as ruas para facilitar a drenagem. Este desenho arquitetônico das construções aponta para uma preocupação com a saúde pública e o saneamento e sugere uma crença explicita em um ritual de purificação que é prevalente no posterior pensamento indiano dos Vedas. Com tamanha preocupação com higiene e saneamento, com certeza, eles tinham um sistema organizado de medicina. Mas como afirma Wendy Doniger no seu espetacular livro “ The Hindus”: “ A Civilização do Vale do Indu não é silenciosa, nós é que somos surdos. Nós não podemos ouvir suas palavras mas podemos ver suas imagens”. A escrita deste antigo povo asiático não foi, apesar de inúmeros esforços, decifrada. Muitos selos e artefatos foram descobertos mas a mensagem escrita continua inacessível aos pesquisadores. Acredita-se que  este povo sucumbiu devido a mudanças climáticas e catástrofes geológicas por volta de 1500 a. C

No final do sábado voltamos para a pousada com seus esburacados tetos de sape e suas prevalentes cobras asiáticas mas, graças aos Deuses, não sofremos nenhum ataque porem ficou a mensagem que esta misteriosa e enigmática civilização ainda apresenta muitos segredos que não foram, ainda, decifrados pelos pesquisadores. Um tema interessante revelado pelos arqueólogos foram os sinetes exibindo “ figuras em postura de Yoga”. Destaca-se um personagem com 3 rostos, sentado em um trono baixo, diante do qual estão 2 gazelas uma de frente para a outra. Além disto apresenta 4 animais: um tigre, um elefante, um rinoceronte e um búfalo. Na sua cabeça observa-se um enfeite com 2 imensos chifres e um  objeto semelhante ao tridente. Os pesquisadores que analisaram esta figura perceberam nela um protótipo do deus Shiva, o senhor do Yoga. Será que eles tinham alguma prática semelhante ao Yoga desenvolvido no subcontinente indiano posteriormente ? Somente o tempo poderá responder esta e muitas outras perguntas ainda sem respostas.  Os leitores interessados, nesta arcaica cultura indiana, podem acessar o site:   www.harappa.com

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, clínico geral, reumatologista, especialista em Ayurveda e Acupuntura. Presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda”. Tel: (21) 25373251,   visite: www.ayurveda.com.br

 

 

 

 

Quando a Terra estava se formando, a Índia era uma ilha e ao chocar com o continente deu-se a formação do Himalaia. É incrível pensar que esta cadeia de montanhas tenha sido praia um dia, mas foram encontrados fósseis de animais marinhos e conchas em suas terras. Isto ocorreu há vinte ou trinta milhões de anos atrás, antes do aparecimento de humanos na Terra.

Os três rios principais da Índia: Indus, Ganga (Ganges) e Brahmaputra nascem no Himalaia. O Indus começa no Tibet, perto do lago Mansarovar, e corre por 2880 km até encontrar o Mar da Arábia no leste de Karachi. É o mais longo dos três rios. O Ganga nasce no Himalaia em Uttar Pradesh. O Brahmaputra também nasce no Tibet, na região conhecida como Tsang Po. O Ganga e o Brahmaputra se encontram antes de desaguar na Baía de Bengala. Na planície entre o Ganga e o Indus há o Deserto Thar e as colinas Aravalli.

Os mais antigos sinais de vida humana na região foram encontrados em Rawalpindi (no atual Paquistão). Ferramentas de 2 milhões de anos foram achadas neste sítio e no estado de Maharashtra, em Bori. Nas colinas Shivalik, no Himalaya, foi encontrado o esqueleto de um “homem macaco” do tipo Ramapitecus de 10 a 14 milhões de anos. Um sítio arqueológico interessante do período mesolítico é Bagor, no Rajastão. Nas cavernas de Bhimbekta, em Madhya Pradesh, podemos ver pinturas rupestres.

Até este estágio da vida humana, os povos de todo o mundo viveram uma vida simples, caçando animais e colhendo frutos e sementes para comer. Todos viviam da mesma maneira, até o período neolítico, quando mudaram o modo de vida para um modo mais seguro, passando a cultivar a terra e domesticar os animais. Isso ocorreu por volta de 10 000 anos AC.

Apesar da multiplicidade étnica e cultural que caracteriza a Índia, ela sempre possuiu uma tendência essencial à unidade, tendência essa que a manteve uma cultura viva até nossos dias. O grande acontecimento histórico que fundamentou a cultura indiana foi a invasão dos ários que penetraram pelo noroeste da Índia, região do Punjab, entre 1500 e 800 A.C., ou mesmo antes disto. Eles encontraram no Paquistão, no vale do Indus, uma das primeiras civilizações do mundo, maior que a do Egito e Mesopotâmia juntas, com uma organização social grandemente desenvolvida.

Provavelmente num período aproximado de 3000 a 2000 anos aC, floresceu no vale do Indus a civilização do mesmo nome. De 1921 a 1931, escavações realizadas por John Marshal e sua equipe desenterraram as ruínas das cidades de Moenjodaro e harappa. A civilização do Indus foi notadamente urbana e um ápice de cultura no mundo da época.

Toda dividida em bairros cortados por ruas formando quadras, geometricamente exatas, Moenjodaro é chamada de “cidade moderna da antiguidade”. As casas eram simples, mas com infraestrutura como cisternas, banheiros e andares superiores e inferiores. Havia também edifícios públicos e supõe-se, pelo que foi encontrado, que havia um sistema de troca de gêneros e uma administração central, composta principalmente por autoridades religiosas.

Harappa é também considerada outra “capital” do Império do Indus, mas tinha algumas diferenças, como o fato de o celeiro estar localizado fora da cidade, pois a proximidade com o rio Ravi permitia que toda a vizinhança transportasse por via fluvial os gêneros para serem estocados. O tradicional banho ritual dos hindus é refletido pelos intrincados sistemas de fornecimento de água de Harappa, assim como um organizado sistema de coleta de lixo.

Vemos nesta civilização pré-védica, anterior à invasão dos ários, obras importantes de arquitetura. Situada na margem esquerda do agora seco rio Ghaggar, no Rajastão, Kalibangan revela o mesmo padrão das cidades citadas acima, mostrando grande desenvolvimento, assim como Lothal, situada não muito longe do Golfo de Cambay, e Surkotada, a 270 km de Ahmedabad, no Gujarat.

A cerâmica é muito presente nestes sítios todos, e além da utilitária, temos também objetos artísticos, como figuras de terracota delicadas mostrando o grau avançado da civilização. O povo do Indus desenvolveu também a tradição de esculturas em pedra, como a bela representação de um homem em estado de meditação em Mohenjo-daro e as esculturas representando jovens dançarinas em Harappa. O trabalho em metal é significativo, como a figura feminina de Mohenjo-daro com seus adornos finamente representados.

A fertilidade do vale proporcionava uma vida de abundância, provavelmente trabalhndo na agricultura, usando a bacia do Indus como meio de transporte, negociando por terrra e, segundo indícios, também por via marítima com a Asia Central, o Sul da Índia, com a Pérsia e o Afeganistão.

As causas do declínio e desaparecimento desta civilização podem ter sido enchentes, epidemias e secas. Mas a hipótese mais possível é de que sucessivas incursões de arianos vindos do Noroeste tenham, aos poucos, dizimado a população.

Os arianos viviam provavelmente na Ásia Central, no planalto que é hoje o deserto de Gobi. Segundo vários achados arqueológicos e também segundo as narrações Históricas budistas pensa-se que neste deserto havia um mar interior e que numa ilha deste mar existia uma cidade. Era desta ilha que partiam os arianos, migrando em várias direções e subjugando outros povos. Eles foram empurrados provavelmente por cataclismos naturais tornando-se assim invasores que impunham facilmente sua inteligência e força. Eles possuíam elevada estatura e pele clara e muitos excursionaram para o oeste, tornando-se antepassados dos gregos, celtas e latinos.

As origens do Hinduísmo podem ser traçadas desde esta precoce civilização. A sociedade era dirigida mais pelos sacerdotes do que pelos reis, pois aqueles intercediam com os deuses, ditavam as regras sociais e também assuntos legais, como posse de terras.

Figuras de barro foram encontradas representando a Deusa Mãe, mais tarde personificada como Kali, e também uma representação masculina, com três faces sentada em atitude de yoga, rodeada por quatro animais, uma das mais antigas representações do deus Shiva. Pilares de pedra preta (adoração ao falo de Shiva como princípio criativo) também foram encontrados. Estas são as mais antigas formas de adoração, mostrando rituais ainda simples, que depois foram substituídos pelos rituais dos brâamanes que passaram a ter exclusividade neste papel.

Talvez a civilização do Indus já estivesse em declínio quando da invasão ária, e isso somente acelerou a derrocada. Isso pode explicar o porquê de os Vedas considerarem os dravidas como bárbaros e primitivos. Sabemos, entretanto que a língua dos dravidas do sul era falada antes da invasão, indicando a coexistência pré-ariana da escrita dravidiana e do Indus. Talvez com a invasão ária, muitos drávidas tenham migrado para o sul, explicando a presença de tal língua fora do vale do Indus. Hoje a língua dravidiana é falada no sul da Índia e no Beluquistão Central, e tem o brahmi como um de seus ramos.

A civilização Védica foi criação dos ários, que elaboraram uma série de hinos religiosos que foram organizados e são conhecidos como os “Vedas”. Essas escrituras são o fundamento do Hinduísmo, absolutamente intrínseco à própria história da Índia.

A ordem social que reflete a assimilação dos Ários e a supremacia dos sacerdotes se consolidou no sistema de castas, que sobrevive até hoje de certa forma. O controle sobre a ordem social foi mantido por regras estritas destinadas a assegurar a posição dos Brãmanes, os sacerdotes. Foram elaborados tabus concernentes a casamentos, dietas, e convívio social.

Durante um curto período de tempo (séculos V a.C. a III a.C.) os persas tomaram o noroeste da Índia. Um jovem príncipe iniciou uma dinastia (o Império Mauna).e seu neto, Ashoka, acabou sendo o governante que mais marcou a India antiga, pois viajou por toda ela, tornando-se muito popular.

Nos séculos seguintes, vários reinos se formaram, todos independentes, e com características culturais e línguas diferentes.

Consulado Geral da India | São Paulo