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Na maestria cada vez maior que temos do planeta, através das tecnologias e invenções modernas, podemos esquecer que há uma singular inteligência subjacente que se expressa na natureza. Nos que vivemos em grandes centros urbanos muitas vezes passamos semanas e meses sem a oportunidade de vivenciar um ambiente natural. Dirigir em horários de trafego intenso, trabalhar em salas fechadas, iluminadas e refrigeradas artificialmente, fazer refeições rápidas em lanchonetes e estar sempre atrasado e com pressa aumenta nosso estresse e nos aliena da natureza e finalmente de nós mesmos…Acreditamos que no fundo do nosso coração ansiamos por uma ligação mais intima com a “ Mãe Natureza”. As plantas medicinais podem fazer este papel ao nutrir esta parte do nosso espírito que clama por uma vida mais simples e uma época mais inocente quando nos sentíamos mais próximos do mundo natural

Uma planta medicinal para ser usada no Ayurveda deve ser interpretada dentro dos conceitos da farmacologia ayurvedica, denominada Dravya Guna, de sabor ou rasa, potencia ou virya, sabor após a digestão ou vipaka, efeitos especiais conhecidos como prabhava e ação terapêutica ou karma. Estes parâmetros foram desenvolvidos pelos mestres antigos do Ayurveda nos tradicionais livros em sânscrito, chamados de textos clássicos, em um numero limitado de ervas medicinais. Provavelmente aquelas mais estudadas e utilizadas na Índia antiga. Nos anos 1980 vários médicos indianos estiveram no Brasil, em Goiânia,e cerca de 100 plantas brasileiras foram classificadas como ayurvedicas ou com propriedades similares. Este trabalho foi desenvolvido no Hospital de Medicina Alternativa que tornou-se referência em Ayurveda e fitoterapia, no nosso país, hã mais de 2 décadas.

Nos últimos anos  muitas pesquisas tem sido realizadas no ocidente e oriente com as plantas medicinas e resultados terapêuticos promissores tem sido encontrados pelos pesquisadores. Apesar do uso da fitoterapia ser tão antigo quanto a história da humanidade ainda é muito pouco utilizada pelos profissionais da área da saúde. Isto acontece devido ao pequeno interesse e também a um certo preconceito e desconhecimento do assunto. Eu já ouvi  de uma colega endocrinologista de bom padrão cientifico, que fazia tratamento com acupuntura, a seguinte afirmação: “ o uso das plantas medicinais vai contra a minha medicina alopática”. Nada pode estar mais distante da realidade pois a fitoterapia está mais próxima da alopatia que a homeopatia ou a acupuntura. As ervas tem princípios ativos, que podem ser isolados em laboratório, com uma metodologia de ação contraria a patologia de forma semelhante aos medicamentos alopáticos mas com muito menos efeitos adversos e sem causar dependência aos pacientes.

O gengibre é uma das plantas medicinais mais utilizadas na fitoterapia, no Ayurveda é conhecido como remédio universal e é reverenciado em todo planeta por suas importantes propriedades culinárias e terapêuticas. Trata-se de uma planta herbácea cujos rizomas, erradamente chamados de raízes, são subterrâneos, carnosos e espessos, originaria da Ásia tem um sabor adocicado e picante e é utilizado para fazer o famoso “curry” e para temperar pratos com carnes, legumes, sopas, pães, tortas e sorvetes. Até hoje o gengibre é cultivado e valorizado pelos povos do oriente como parte importante da sua dieta e medicina. Suas virtudes curativas foram citadas pelo filósofo chinês Confúcio ( 551 a 479 a.C.), pelo médico grego Dioscórides e também pelo Corão, o livro sagrado do islamismo.

A planta medicinal é famosa por sua concentrada potencia aquecedora, tem sido usado na Ásia e África para acender o fogo interno do corpo. Na medicina ayurvedica é separado em gengiber fresco ( ardraka) e gengibre seco ( shunti) com propriedades distintas. Khalsa recomenda tomar 2 colheres de sobremesa de gengibre seco em um copo de água no inicio das alterações visuais que antecedem a enxaqueca ( aura) se o quadro recomeçar algum tempo depois repetir o tratamento, segundo o autor isto interrompe o inicio da dor de cabeça ( ver Khalsa e Tierra, The Way of Ayurvedic Herbs 2010, p 137).   O shunti entra no famoso composto Trikatu: gengibre seco, pimenta do reino e pimenta longa ( pode-se substituir pela pimenta dedo de moça em pó seca) considerado um poderoso digestivo que estimula o Agni ou fogo digestório.

Segundo o Ayurveda o gengibre tem as seguintes Ações ( karma): melhora a digestão ( dipana), elimina toxinas ( Ama pachana), rejuvenescedor ( rasayana) afrodisiaco ( vajikarana), alivia a tosse e secreção, anti-inflamatório e analgésico, anti-espasmódico, anti-emético,  beneficia a menstruação e tonifica a função cardiovascular. Alem disto

apresenta as seguintes Indicações terapêuticas: gripes, secreção, tosse, bronquite, reumatismo, artrose, má digestão, náuseas e vômitos, flatulência, cólicas menstruais, disfunção erétil e cefaléias. A dose diária recomendada é de 500 mg a 3 gramas do pó seco, outra opção é ferver 300 ml de leite orgânico com 2 gramas do pó seco, ou então  o sumo fresco da planta de 30 a 90 ml com mel, dividido em 2 tomadas ao dia. Podemos fazer as seguintes combinações para aumentar o poder terapêutico da planta

  • Decocção de gengibre fresco, um pitada de sal marinho e 5 gotas de limão, tomar 30 minutos antes das refeições para melhorar a digestão e evitar formação de Ama ( toxinas no tubo digestivo)
  • Associado ao capim limão e canela para gripes e febres
  • Associado ao açafrão e capim limão para cólicas menstruais

Como foi dito o gengibre é o remédio universal e deve ser utilizado na dieta, como importante condimento, mas também como uma auspiciosa erva medicinal. Na filosofia médica ayurvedica a nossa cozinha é a nossa farmácia, isto significa que devemos usar os alimentos como medicamentos sempre procurando optar por qualidade e saúde na escolha dos ingredientes da nossa dieta. O Ayurveda tem uma abordagem universal e ensina que é na região que nós vivemos que encontramos os alimentos, plantas medicinais e medicamentos naturais para tratar os nossos

desequilíbrios. Finalizamos com as palavras do professor e erudito ayurvedico J.K. Ojha, da Benares Hindu University: “A sabedoria é superior ao intelecto, a ciência é estruturada no intelecto, enquanto o processo do pensamento antigo do Ayurveda é estruturado na sabedoria”.


O Zingiber officinalle, comumente conhecido como gengibre, em sânscrito é chamado de Ardrak ( fresco) ou Sonth ( seco). No Ayurveda é denominado de remédio universal devido as suas muitas propriedades terapêuticas.É uma planta medicinal originária da Ásia e aclimatada no Brasil, cresce até um metro porem é sua raiz debaixo da terra que apresenta valor terapêutico e culinário. Esta erva medicinal vem sendo utilizada na medicina Chinesa e no Ayurveda há milhares de anos pelos médicos orientais.

O gengibre apresenta propriedades terapêuticas sobre o sistema digestivo, pois estimula a liberação de enzimas que promovem o esvaziamento do estômago. Tem sido utilizado com êxito no tratamento de náuseas e vômitos em diversas doenças, é efetivo nos enjôos da quimioterapia, alem disto estudos demonstraram benefícios em baixar o nível do colesterol e reduzir a aderência as plaquetras.

A raiz do gengibre melhora a circulação e é indicada por médicos chineses e indianos para pés e mãos frias. A Medicina Ayurvedica afirma que o gengibre atua nas três fases da função gastro-intestinal: digestão, absorção e evacuação. Na Índia recomenda-se o chá de gengibre em decocção(fervura da raiz), com 3 gotas de limão e uma pitadinha de sal marinho, 30 minutos antes das refeições para estimular o fogo digestivo, promover uma boa digestão e aliviar flatulência.

Esta planta medicinal possui uma importante ação antiinflamatória e anti-reumática, tanto para uso interno quanto para uso externo. O suco, pasta ou óleo essencial do gengibre pode ser aplicado externamente para dores, inflamações e cefaléias. No caso de reumatismo, artrose, contraturas musculares, lombalgia e cervicalgia podemos fazer uma massagem local associada a fricção com pasta ou óleo essencial de gengibre. Isto promove um efeito de aquecimento local associado a uma analgesia ( alívio da dor).

O gengibre possui uma atividade anti-viral e antiinflamatória sendo largamente utilizado em quadros respiratórios de vias aéreas superiores. Devido as suas propriedades picantes e amornantes é utilizado para gripes e resfriados no inverno, rouquidão, inflamação da garganta, tosse e secreção. Um chá de gengibre em decocção ( fervura das raízes), com alho, casca de canela e depois de pronto adicionamos uma colher de sopa de mel de eucalipto é eficaz nestes quadros respiratórios. Deve ser tomado morno 3 vezes ao dia entre as refeições até sumirem os sintomas.

O Ayurveda classifica o gengibre como uma raiz de sabor picante, energia quente, pacifica Vata e Kapha mas pode agravar Pitta se utilizado em excesso. Podemos também utilizar o gengibre na culinária como um excelente condimento aumentando o sabor picante e a energia quente das receitas vegetarianas. Com este objetivo, na Índia, o gengibre é associado a outros temperos: pimenta do reino, canela, noz moscada, cravo, cardamomo e alho.

Em uma publicação recente sobre plantas medicinais, “Major Herbs of Ayurveda” são descritas as seguintes propriedades do gengibre: atividade antiemetica ( alivia náuseas), atividade antiulcerosa, atividade hepatoprotetora ( protege o fígado), atividade antiinflamatória, atividade antipirética ( reduz a febre), atividade cardiovascular ( diminui o colesterol e os triglicerideos), atividade antioxidante ( elimina radicais livres), atividade imunomoduladora ( promove o sistema imunológico) , atividade antiviral. Porem é contra-indicado na gravidez pelo potencial de induzir a contração uterina. Com tantas propriedades benéficas não podemos deixar de utilizar esta raiz tanto como erva medicinal quanto como condimento na alimentação.