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O Characa Samhita é considerado o mais importante texto do Ayurveda que chegou aos nossos dias. Nas palavras de Sharma e Dash tiradas da introdução da sua tradução para o inglês :

“ Alguns dos antigos textos do Ayurveda não estão disponíveis. Entre os textos existentes, O Characa-Sanhita de Agnivesa,o Susruta-Samhita de Susruta e o Ashtanga-Hrdrayam de Vagbhata são reconhecidos como o “Grande Trio”. Destes três Characa é considerado a maior autoridade, desde que representa um tesouro autentico dos vários aspectos desta ciência, com especial referente aos princípios fundamentais da medicina.” (Sharma e Dash, 1995:xxi)

O Charaka_Samhita é considerado o mais importante texto do Ayruveda, e também um dos mais antigos. Está dividido em 120 capítulos assim como os outros clássicos de Vagbhata, Bhela e Susruta. Parace que este número tem alguma importância entre os autores antigos.

Como nós vimos o Ayurveda foi incorporado a tradição védica e quando esta “hindunização” do Ayurveda ocorreu a mitologia hindu foi naturalmente agregada a obra então no Characa afirma-se que este sistema médico veio diretamente de Brahma, o criador, deste o conhecimento passou para os deuses ate chegar a Indra, rei dos deuses, que teve a missão de transmitir esta sabedoria a Bharadvaja que foi o primeiro médico-sábio da tradição do Charaka-Sanhita. Nesta tradição este sábio foi escolhido para receber o
conhecimento do deus Indra e foi o mestre de Atreya,quem dissertou o Charaka-Sanhita para seu discípulo Agnivesa. Sobre esta relação mestre-discipulo, Ramachandra Rao afirma:

“ O Atreya da tradição médica é dito ser um estudante de um outro sábio Bharadvaja, que aprendeu a medicina de Indra…O Bhava-prakasa relata que, ambos, Bharadvaja e Atreya aprenderam medicina de Indra em ocasiões diferentes. Há também uma referencia que Bharadvaja é um discípulo de Atreya, Chakrapani-Datta afirma que algumas pessoas erradamente identificam Atreya com Bharadvaja e refere-se a uma antiga autoridade, Harita, que coloca que Bharadvaj era o professor de Atreya….Na tradição médica de Kayachikitsa, ( medicina interna) a seqüência das autoridades médicas na Índia é a seguinte: Brahma , Asvins, Indra, Bharadvaja, Atreya ( purnavasu) e os seus seis discípulos: Agnive-sa, Jatukarna, Bhela, Harita, Khsarapani e Parasara. Cada um destes discípulos escreveu um tratado médico com os ensinamentos de Atreya. No decorrer do tempo, Apenas o tratado de Agnivesa sobreviveu, sendo o mais compreensível, Charaka segue esta linha e seu Samhita é a redação do trabalho original de Agnivesa, e é por isto que Charaka sempre menciona o nome de Atreya com o res-peitável adjetivo de “bhagavan”.” ( Rao, 1985: 27)

Com esta afirmação de Ramachandra Rao baseado no Charaka Samhita observamos o sincretismo do Ayurveda, inicialmente fora do cânone védico, com os deuses do hinduismo, ou seja, dentro da tradição brâmane. Brahma, o criador, segundo Charaka foi quem criou, ele mesmo o Ayurveda, a ciência da vida, e passou para os médicos dos deuses, os gêmeos Asvins que teriam transmitido o conhecimento ao rei dos deuses Indra, este sim ensinou a medicina ao sábio Bharadvaja. Bharadvaja, escolhido como o sábio melhor preparado foi ate Indra e recebeu a ciência da vida, Ayurveda, que transmitiu a Atreya. Cada capítulo do Charaka Samhita inicia-se com a frase: “ Aquilo que segue é o que o reverenciado Atreya falou”, na verdade todo o texto é uma discussão entre Atreya e seu discípulo Agnivesa. Este texto foi recompilado por Charaka. Sharma e Dash tradutores do Charaka Samhita colocam:

“O sábio Atri é referido no Rig Veda e Atharva Veda, como o vidente dos hinos védicos. Por conseguinte o Agnivesa Samhita foi talvez escrito sob a guia de Atreya em algum momento em torno de 1000 A C” (Sharma e Dash,1995:xxxvi)

Esta colocação é um exemplo típico dos autores indianos, que fazem afirmações que não podem ser referendadas pela literatura. Existem vários personagens na literatura de origem indiana com nome de Atreya. O médico de Buda, Jivaka, estudou em Taxila com um mestre chamado Atreya, provavelmente no século VI ou V A C. Mas provavelmemte não foi ele que ditou o Charaka Samhita pois não existe referencia a Agnivesa, seu discípulo na literatura budista primitiva. Se o Atreya do Rig Veda e do Atherva Veda é o mesmo do Ayurveda, então por que não existem referencias ao Ayurveda naqueles textos?

A reposta é muito simples: os textos do Ayurveda são posteriores, inclusive na literatura do período védico tardio, ou seja antes da época de Buda, século VI A C, não há referencias ao Ayurveda. Não há como precisar uma data para Atreya e seu discípulo Agnivesa que tenha respaldo na literatura de origem indiana. Com relação a isto Filliozat coloca:

“ Pode-se admitir que um ou mais Atreyas, tradicionalmente conhecidos como médicos eminentes, existiram, mas não se pode admitir que Atreya Purnavasu que é dito ter recebido a ciência da medicina do mítico Bharadvaja foi o Atreya que nas fontes budistas é o contemporâneo de Buda. As lendas das origens do Ayurveda, como encontrados nos dois Samhitas, Charaka e Susruta, não pare-cem estar embasados em nenhum fato histórico. Elas parecem ter sido criados a partir de conjecturas, baseadas em datas da tradição védica relacionadas aos deuses médicos, e aos mestres bramanicos.” ( Filliozat, 1964: 11)

É provável, como colocou Filliozat, que a tradição ayurvedica durante o processo de “hindunização” tenha se mesclado a mitologia e a religião védica formando um sincretismo entre as tradições não brâmanicas, fora de castas, e a tradição dos Vedas. Porem autores hindus, sem levar em conta esta possibilidade, colocam datas do Rig e Atharva Vedas para os autores clássicos da Medicina Indiana, sem fatos ou referencias históricas ratificando as suas afirmações.

Charaka vem da raiz car que significa mover-se, provavelmente Charaka era um médico errante, que propagava o seu conhecimento e dava alivio aos seus pacientes.Havia também um médico da corte do rei Kaniska, século II da nossa era, que se chamava Charaka. Provavelmente este não era o mesmo médico que escreveu o famoso tratado. Com relação a identidade de Charaka Ramachandra Rao afirma:

“ A identidade de Charaka é inteiramente incerta. Nós não estamos certos se este era o nome pessoal de um autor que foi o principal responsável pela atual versão do Charaka Samhita. Foi sugerido (em Brhajjaka) que o médico especialista, que viajava de aldeia em aldeia, não apenas administrando remédios mas também ensinando a ciência médica era chamado de Charaka ( médico errante) pelas pessoas, assim como o cirurgião era conhecido como “Dhanvantari”. (Rao, 1985: 44)

Esta colocação de Ramachandra Rao nos faz lembrar a tradição dos Sramanas que, como médicos, ascetas errantes e filósofos levavam os seus conhecimentos de aldeia em aldeia aliviando o sofrimento das pessoas. Porem Ramachandra Rao vai mais longe fazendo uma ponte entre o termo Charaka e a antiga tradição budista:

“ Na tradição budista primitiva haviam referencias aos “eruditos errantes” sendo admitidos nas instituições educacionais, como Taxila, como “estudantes casuais” ( charikam charantã ). Taxila na parte noroeste do país tinha também uma faculdade médica que era chefiada por um Atreya, e foi onde o famoso contempora-neo de Buda, Jivaka, o pediatra, foi estudante. Charaka, mesmo, durante os séculos antes de Cristo era um termo significando médico errante e professor médico” ( Rao, 1985: 44)

Com esta colocação de Ramachendra Rao podemos fazer uma possível ligação entre a tradição de Charaka, do clássico Ayurveda, a escola budista antiga e os médicos errantes Sramanas todos fora de castas ou não védicos, a partir do momento que os textos védicos colocavam o médico como impuro e a profissão médica como inadequada ao Brâmane pois exigia o contato com todos os tipos de pessoas inclusive os das castas inferiores e os sem castas. Podemos lançar a hipótese que esta exclusão, da religião hegemônica, tenha aproximado estas tradições heterodoxas e propiciado a troca de conhecimentos e experiências que resultou em uma escola empírico-racional que posteriormente ficou conhecida como Ayurveda. Apesar da base do Ayurveda ser empirico-racional, este nunca abandonou completamente a medicina mágico-religiosa caracterizada pelo Atharva-Veda. Podemos confirmar isto na tradução de Sharma e Dash do Charaka Samhita:

“ O Ayurveda tem oito ramos:
1-Medicina Interna
2-Ciência das doenças especificas da região supra-clavicular: olhos, nariz, ouvido, boca e garganta.
3-Cirurgia
4-Toxicologia
5-Ciência do ataque demoníaco ( psicologia)
6-Pediatria
7-Ciência do rejuvenescimento
8-Ciência dos afrodisíacos”
     (Sharma e Dash, 1995:603)

A “ciência do ataque demoníaco” faz parte da medicina mágico-religiosa dos Vedas, talvez este seja o ramo do Ayurveda que tenha suas raízes naquilo que o Iogue Ramacharaca chamou de “magia branca e magia negra”do Atharva Veda.

O Charaka Samhita introduziu o conceito de Dosha, literalmente defeito, é interpretado como desequilíbrio ou disfunção : Segundo Charaka os doshas do corpo são Vata, Pitta e Kapha e os da mente Rajas e Tamas. Vata é áspero, frio, sutil, móvel, não gorduroso e leve. Pitta é oleoso, quente, agudo, liquido, ácido, e picante e Kapha tem as seguintes qualidades: pesado, frio, macio, oleoso e doce são melhorados por medicamentos que tem qualidades opostas.
O Ayurveda faz uma relação entre os cinco elementos chamados de Panchamahabhutas e os Doshas. Então Vata é formado pelos elementos ar e espaço e Pitta por fogo e água, já Kapha possui água e terra. O corpo humano possui os três Doshas e os cinco elementos e é o aumento ou diminuição destes que levam ao desequilíbrio e as doenças.