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Toda pessoa normal deseja uma vida longa, produtiva e feliz, mas para isto se realizar é necessário ter svastha ou saúde. Para o Ayurveda um ser humano saudável é aquele que apresenta Doshas ( humores) e Agni ( fogo digestivo) em equilíbrio, Dhatus ( tecidos) e Malas ( excreções) cumprindo suas funções adequadamente e um bem estar com relação a sentidos, mente e alma ( Atma).. A definição da Organização Mundial de Saúde é semelhante a visão da Medicina Ayurvedica: “saúde não é apenas a ausência de doença mas o completo bem estar físico, mental e social”. Para alcançarmos este objeti-vo necessitamos de uma rotina diária de hábitos saudáveis denominada dinacharya.

O médico e mestre de Ayurveda, dr. Robert Svoboda, afirma que Svasthavritta significa “estabelecer-se em bons hábitos”.A Medicina Ayurvedica tem recomendações para uma vida saudável desde o momento que se acorda até a hora de dormir. A regra de ouro na tradição indiana é a moderação, ou seja, todos os excessos e deficiências são prejudiciais a saúde. Este talvez seja uma das maiores dificuldades na vida ocidental: seguir o “caminho do meio”. Durante uma interessante aula, em um curso na Índia, o professor, médico ayurvedico e sacerdote brâmane, afirmou de forma contundente: “uma rotina diária equilibrada deve ser dividida em 3 partes: 8 horas de descanso noturno ( sono), pois o repouso é a base da atividade, 8 horas de trabalho e as outras 8 horas para família, higiene, atividade física, transporte, alimentação saudável e meditação”. Quando ele disse isto uma pergunta surgiu na minha mente “será que eu sigo esta sábia recomendação no Brasil ?”

Quando nós olhamos para a natureza observamos que ela segue um ritmo. Podemos ver isto nos ciclos de dias e noites e nas estações do ano. O ser humano é um “mini universo”, ou seja, um microcosmo dentro do macrocosmo. As mesmas leis que regem o universo também controlam a fisiologia humana. Se nós queremos ter mais saúde é necessário uma sintonia com estas leis. Semelhante a um jogo de futebol: quando nós entramos em campo temos que respeitar as regras se não podemos ganhar um cartão amarelo, um aviso, e se continuamos violando as normas somos punidos com cartão vermelho, ou seja, estamos expulsos de campo. Desta mesma forma é interessante equilibrar nossas ações e hábitos com as leis da natureza, pois estas são invencíveis. Infelizmente não existe outra maneira de alcançar o bem estar físico, mental e emocional que nós buscamos. O Ayurveda enfatiza esta harmonia com a natureza.

O Ayurveda recomenda acordar cedo, e o ideal é após levantar beber água, em jejum, a temperatura ambiente, deve-se tomar um ou dois copos d água bem cheios pois isto ajuda a ir ao banheiro e evacuar. Deve-se habituar o intestino a funcionar todo dia pela manhã. O Ayurveda afirma que o intestino é o jornal do corpo, deve-se ler o jornal todo dia pela manhã para saber como está o corpo. Qualquer distúrbio nas excreções pode ser um sinal de uma digestão inadequada e acumulo de Ama ( toxinas digestivas) princi-palmente se estiver associado a uma cobertura espessa e pegajosa na língua. Neste caso o ideal é não se alimentar e utilizar chá de ervas como o gengibre e erva doce ( Foeniculi vulgaris), que auxiliam a regularizar a função digestiva, até normalizar a evacuação. Claro que se o distúrbio persistir procure um profissional de saúde.

Após o banho matinal tire alguns minutos para a introspecção e autoconhecimento. Com este objetivo é importante ter um “cantinho de meditação”, onde você pode colocar uma almofada no chão ou cadeira para a prática, porem se você for um devoto, como eu, pode fazer um pequeno altar com seus mestres. Claro que ninguém tem a necessidade de ter um altar para meditar regularmente. Isto é algo pessoal pois sigo o caminho devocional chamado de Bhakti Yoga. O mais importante é comprometer-se a sentar diariamente e praticar meditação, 15 a 20 minutos, 2 vezes ao dia, manhã e noite, são suficientes para os iniciantes. Um livro, que comecei a ler recentemente, que estimula e explica esta metodologia é “Meditação para Leigos” de Stephan Bodian. Boas meditações!

Existe um mistério profundo por trás do comportamento e da atitude do filósofo védico. Trata-se de um mistério que se revela naturalmente no coração de quem mergulha em sharanagati (palavra sânscrita que significa ‘rendição plena’ ou ‘entrega plena’). Toda vez que refletirmos sobre esta palavra, poderemos visualizar duas entidades experimentando um relacionamento especial: a pessoa que se entrega ou se rende e a pessoa a quem a primeira se entrega ou se rende. Que motivo teria a primeira pessoa para se render plenamente à segunda? Na resposta a esta pergunta está a raiz do mistério profundo já mencionado.

Voltemos ao nosso filósofo védico.

Na Índia, os filósofos em geral são conhecidos como munis, sendo tradicionalmente aceitos como os membros mais importantes da sociedade por representarem o princípio de orientação e harmonização do sistema social. Ao formularem códigos de pensamento através dos quais o homem logra evoluir material e espiritualmente, os munis imortalizam sua obra e consolidam a tarefa da preservação da verdade superior. No entanto, a ilusão do muni reside em achar que pode acessar esta verdade por seus próprios méritos intelectuais.

O filósofo védico é um muni diferente simplesmente porque não propõe o seu sistema de filosofia. Em virtude de seu sadhana e de outras práticas espirituais, bem como de seu entendimento da importância de guru-tattva (a verdade transcendental relativa ao papel do mestre espiritual), o filósofo védico é sobretudo um mantenedor da riqueza filosófica dos Vedas eternos sob sua forma original. Não lhe interessam modismos, influências circunstanciais, interpretações tendenciosas da sabedoria védica e tantos outros elementos que vão surgindo na história do pensamento humano e se distanciando cada vez mais da Fonte.

No relacionamento especial por conta de sharanagati, o filósofo védico é a primeira pessoa (aquela que se entrega ou se rende plenamente), e a segunda pessoa é a Fonte. Na verdade, a Fonte é a Primeira Pessoa, ou Adi Purusha em sânscrito. Toda a vida e obra do filósofo védico gira, portanto, em torno da intenção de demonstrar ao observador atento e de mente aberta que:

1. Somos todos partes integrantes da Pessoa Suprema, ou Deus;
2. Tanto como Deus, somos pessoas eternas qualitativamente iguais a ele e quantitativamente diferentes d’Ele;
3. A Pessoa Suprema é shaktiman, o Energético ou Fonte Primordial, e tudo mais é Sua shakti, ou energia;
4. Inteligência verdadeira significa entender que, por trás de tudo na existência, há um princípio pessoal, reflexo do Supremo Princípio Pessoal;
5. Embora sejamos emanações da Pessoa Suprema, Ele sempre permanece o Todo Supremo inalterável;
6. A inalterabilidade é uma qualidade do plano espiritual, onde vive a Pessoa Suprema com Seus companheiros eternos;
7. A partir de sharanagati, começamos a mergulhar na ananda (bem-aventurança) ilimitada de nosso relacionamento eterno com a Pessoa Suprema;
8. Yoga verdadeiro é sinônimo de relacionamento pessoal com a Pessoa Suprema;
9. O objetivo da filosofia védica é ajudar-nos a conhecer Deus, de modo que possamos nos relacionar com Ele.
Concluindo, o filósofo védico não é adepto de um sistema filosófico-religioso sectário e regionalista. O filósofo védico sempre existiu em todas as culturas do planeta – mas jamais procurou chamar a atenção de outra pessoa que não o próprio Deus. E é aí que reside o mistério profundo de seu contentamento.

Caraka o autor do clássico denominado de Caraka Samhita pertence a escola de Atreya ou escola de medicina interna. Ao analisarmos o antigo texto temos que estudar as 3 principais períodos históricos do desenvolvimento deste tratado de Ayurveda: o período de Atreya, a época de Caraka e por último a influência de Drdhbala.
Purnavasu Atreya é a figura central do Caraka Samhita, seus conceitos são elaborados na forma de diálogos com seu discípulo Agnivesa ou ao concluir as discussões como coordenador dos vários simpósios sobre Ayurveda. No Caraka Samhita é dito que Atreya recebeu seus conhecimentos de Bharadwaja, este teria recebido a “ciência da vida” diretamente de Indra, o rei dos deuses indianos. O principal discípulo de Atreya foi Agnivesa que escreveu o Agnivesa Tantra ( tratado de Agnivesa). P V Sharma coloca este clássico após o período do Atharva Veda ( 1500 a.C.) ou seja em torno de 1000 a. C.

O segundo período do texto é a época de Caraka que foi o primeiro autor a refinar o tratado de Agnivesa com suas interpretações e anotações. A contribuição de Caraka foi tão espetacular que o texto original passou a ser conhecido como Caraka Samhita. Alguns pesquisadores acreditam que Caraka pertencia ao ramo do Yajurveda negro, porém outros autores afirmam que um extinto ramo de vaidyas ( médicos) do Atharva Veda conhecidos como carana, moviam-se de cidade em cidade, servindo as populações com seus conhecimentos de medicina e esta ( carana) seria a fonte do nome Caraka. Porém Sylvan Levi, fundamentado em um texto budista chinês, coloca Caraka na corte do rei Kaniska, seguidor do budismo do século II. Todas estas especulações demonstram que os autores e historiadores do Ayurveda não chegam a um consenso sobre quem foi o revisor do Agnivesa Tantra. P. V. Sharma, tradutor do clássico para a língua inglesa, coloca Caraka no século II a. C., baseado em evidências internas e externas ao clássico.
Por último temos a influência de Drdhabala, filho de Kapilabala, que é citado por Cakrapani, que escreveu o principal comentário ao clássico de Caraka, e também por Vagbhata ( século VI da nossa era). Devido a isto P.V. Sharma coloca Drdhabala no século IV da era cristã, período anterior ao de Vagdhata. Afirma-se que Drdhabala reconstruiu o Caraka Samhita que estava com um terço do seu texto perdido.

O tratado possui 120 capítulos divididos em 8 partes:
1- Sutrasthana ( princípios básicos) – 30 capítulos
2- Nidanasthana ( diagnóstico ) – 8 capítulos
3- Vimanasthana ( conhecimentos específicos ) – 8 capítulos
4- Sarirasthana ( corpo físico ) – 8 capítulos
5- Indriyasthana ( sinais de vida e morte) – 12 capítulos
6- Cikitsasthana ( terapêutica ) – 30 capítulos
7- Kalpasthana ( formulações ) – 12 capítulos
8- Siddhisthana ( complicações) – 12 capítulos

O Ayurveda tradicionalmente é um conhecimento derivado dos Vedas, reconhecido como um upaveda do Rig Veda ou do Atarva Veda. Esta ciência tradicional foi dividida em 8 especialidades principais:
1- Kayacikitsa ( medicina interna)
2- Salya ( cirurgia)
3- Salakya ( doenças da cabeça e pescoço)
4- Kaumarabhrtya ( ginecologia, obstetrícia e pediatria)
5- Agadatantra ( toxicologia)
6- Bhutavidya ( doenças mentais e invasões de espíritos)
7- Rasayana ( rejuvenescimento )
8- Vajikarana ( afrodisíacos)
Vários tratados foram escritos em cada uma destas especialidades porem duas delas se destacaram, com um grande desenvolvimento, tornando-se duas escolas distintas e principais do Ayurveda clássico: a escola de Atreya, de Kaya cikitsa, ou medicina interna, representada pelo Caraka samhita e a escola de Dhanvantari, de Salya, ou cirurgia, representada pelo Susruta Samhita. Em nosso próximo artigo iremos escrever sobre esta escola do cirurgião Susruta. Até lá.

 

O Rig Veda é literatura mais antiga da cultura indiana e é muito provavelmente a fonte comum da arte, ciência, literatura, filosofia e oficio que se desenvolveu na Índia nos sécu-
los subseqüentes. A literatura do Rig Veda é dedicada aos ritos e sacrifícios que eram feitos aos deuses. No Rig Veda podemos observar que a religião, mitologia, medicina e magia são coisas inseparáveis o que levou Keneth Zysk a afirmar que a medicina do período védico é, necessáriamente, uma medicina mágico-religiosa. Feuerstein afirma:

“ O famoso estudioso indiano Surendranath Dasgupta caracterizou a religião védica, com toda a razão, como um “misticismo sacrificial”. Isto porque o sacrifício (yajna) estava no âmago das crenças e práticas religiosas da Civilização do Indo. Distinguiam-se duas espécies de ritos sacrificiais: os sacrifícios domésticos, ou Griha, e os sacrifícios públicos, ou Srauta. Os primeiros eram cerimônias particulares que só envolviam uma família e uma fogueira. Os segundos exigiam numerosos sacerdotes, três fogueiras e toda uma multidão de participantes silenciosos. Durante vários dias, as vezes semanas e até meses. Em certas ocasiões especiais a tribo ou o povoado inteiro se congregava para participar de grande sacrifícios, como o famoso agni-shtoma (sacrifício do fogo) e o ashva-medha ( sacrifício do cavalo), o qual só era realizado de quando em quando para garantir a continuidade do reinado de um grande rei ou a prosperidade da tribo ou do país.” (Feuerstein, 2001:101)

A religiosidade do povo védico caracterizava-se por um grande vigor e naturalidade, nas preces, eles rogavam por uma vida longa, saudável e prospera em harmonia com a ordem cósmica. Porem os hinos védicos também deixam claro que haviam pessoas de iniciação mais mística que aspiravam a comunhão com o deus ou a deusa da sua eleição ou mesmo a fusão com o Ser supremo. Feuerstein afirma sobre os rishis ou videntes dos Vedas:

“ Os heróis espirituais do povo védico não eram os sacerdotes, embora fossem estes altamente estimados, mas sim os sábios ou videntes ( rishi) que “viam”a verdade, que percebiam com o olho do coração a realidade oculta por trás da cortina de fumaça da existência manifestada. Muitos deles pertenciam a classe sacerdotal mas alguns eram membros das três outras classes sociais. Eram eles os sábios iluminados cuja sabedoria promanou numa poesia rítmica e numa linguagem altamente simbólica: os impressionantes hinos dos Vedas. Esses videntes, que também eram chamados poetas(Kavi), revelavam para o individuo comum e não iluminado a realidade luminosa que brilha por trás de toda a treva espiritual. Mostravam também o caminho que leva a este Ser eterno, que é único ( eka) e não nascido ( aja) mas recebe muitos nomes. Os videntes védicos recebiam suas visões sagradas como recompensa de um trabalho árduo, de muitas asceses e de uma profunda aspiração a iluminação
espiritual.” (Feuerstein, 2001:145)

Na medicina do Rig Veda os médicos, chamados bhishak, pertencem a uma classe profissional. Em um hino fala-se em “cem médicos e mil medicamentos”, a farmacopéia consiste principalmente de plantas medicinais que também são classificadas e suas propriedades mencionadas. Os Asvins, são os famosos médicos dos deuses, os guardiãs das ervas e suas habilidades são extensivamente louvadas. Em um dos hinos do Rig Veda podemos observar o louvor aos médicos dos deuses, os gêmeos Asvins:

“ Ó Asvins que são os curadores dos homens no caminho do bem…vocês curaram, com a infusão fria ( hima ) o calor intenso de Atri, vocês nutriram ele com alimento, e o livraram das cavernas escuras nas quais os demônios o colocaram.” (Rig Veda , em Rao, 1985:111)

Neste verso pode-se ver claramente a relação quente/frio nos tratamentos, no caso possivelmente um quadro febril. Esta abordagem será utilizada posteriormente na medicina indiana clássica ou Ayurveda. Em outro verso do Rig Veda conta-se sobre as diversos ofícios inclusive a profissão médica:

“ Várias são as nossas intenções, e várias também são as vocações que os homens seguem. O carpinteiro procura a madeira; o médico( bishak) procura a doença ( rutam); o sacerdote espreme o suco do Soma…” (Rig Veda, em Rao,1985;118)

Neste verso do Rig Veda observamos que no período védico já existiam diversas profissões inclusive o médico que nesta época era denominado “bishak” posteriormente nos textos clássicos do Ayurveda o médico passa a ser denominado vaidya do mesmo radical sânscrito de Veda ou seja Vid, conhecer. Logo no Ayurveda o médico vaidya torna-se um homem de conhecimento ou sabedoria. Neste outro hino o Rig Veda fala sobre as plantas medicinais:

“ Muito antes do aparecimento dos deuses, mesmo antes das três eras, haviam estas ervas antigas, coloração clara e cento e sete em numero.”… ( Rig Veda, em Rao, 1985:119)

No antigo Rig Veda, além das plantas medicinais, a água é considerada um remédio poderoso. Neste hino podemos observar o louvor ao liquido como remédio:

“ A água (apa) na verdade é um curador ( bheshaji). A água destrói as doenças( amivachatanih), e a água cura todas as (doenças) de todos os seres( sarvasya). Possa esta água atuar como remédio para você e faze-lo feliz.” (Rig Veda,em Rao, 1985:118)

Esta tradição de utilizar a água como medicamento provavelmente tem suas raízes na hidroterapia que era largamente utilizada pela civilização do vale do Indu. Como vimos em Mohenjo-Daro, os banhos eram muito importantes na tradição dos Harappans ( povo que habitava o Vale do Indu no terceiro milênio A C )

Na milenar tradição do Ayurveda é dito que existem duas escolas principais: a escola de Charaka-Atreya, de medicina interna, e a escola de Dhanvantari-Susruta que é a escola de cirurgia. O clássico Susruta Samhita é considerado o primeiro livro de cirurgia da história da medicina. Susruta, se é que existiu um médico com este nome, era um cirurgião da antiga Índia, que foi aluno de uma figura mítica chamado Dhanvantari. Bhishagratna na sua tradução do Susruta Samhita para o Inglês coloca:

“ …Quando o santo Dhanvantari, o maior dos poderosos celestiais, encarnou na forma de Divodasa, o rei de Kasi, estava sentado em seu eremitério, cercado pelos sábios;…Susruta e outros lhe falaram o seguinte: “ó senhor, nos aflige muito encontrar os homens…caindo vitimas das doenças, mentais, físicas, traumáticas ou naturais, e lamentavelmente gemendo em agonia como criaturas sem amigos… e nós suplicamos a vós, ó Senhor, para iluminar nossas mentes com o eterno Ayurveda…para que nós possamos aliviar o sofrimento da humanidade como um todo. Bem-aventurança nesta vida e após, é a dádiva deste eterno Ayurveda, e para isto, ó Senhor, nós nos fizemos destemidos para abordá-lo como vossos humildes discípulos. Para eles, respondeu o santo Dhanvantari:“bem-vindos a todos vocês a este bem-aventurado eremitério. Todos vocês são dignos da honra do discipulado.” ( Bhishagratna, 1991: 1 e 2)

Este é o primeiro parágrafo do primeiro capitulo do Susruta Samhita, notamos a forte presença da religião hindu no texto, pois Dhanvantari, na mitologia é o deus da medicina, que encarna como rei em Kasi , cidade de Benares ou Varanasi, “Cidade da Luz’ segundo a tradição fundada pelo deus Shiva, renovador da criação na mitologia hindu. Varanasi é considerada uma das cidades mais antigas do mundo e afirma-se que ela mantem a sua vida religiosa desde o VI século antes de Cristo ou seja justamente no período da vida de Buda. Varanasi ou Kashi é considerada pelos indianos como a cidade mais sagrada do mundo e local de muitos templos e peregrinações religiosas. (Abram e cols., 1996: 322)

Susruta significa “aquele que escutou bem” , e o autor do clássico refere-se a Susruta na terceira pessoa e o descreve como o digno filho de Visvamitra, que é na verdade um nome de família. No Rig Veda existe um sábio autor do hino Gayatri que possui o nome de Visvamitra. Ramachandra Rao   coloca que existiu um Visvamitra descendente deste autor do Rig Veda que era médico e provavelmente o pai de Susruta. Sobre a data do tratado Filliozat afirma:

“ Provisoriamente nós podemos considerar o Susruta Samhita como um trabalho dos últimos séculos antes da nossa era, o qual atingiu a sua forma definitiva nos primeiros séculos da era cristã.” (Filliozat, 1964: 15)
 
A controvérsia com relação as datas antigas é muito grande, e este caso não é uma exceção a esta regra geral. Nós podemos encontrar na literatura de origem indiana diferenças que vão até várias centenas de anos. Ramachandra Rao afirma com relação ao trabalho original do cirurgião Susruta:

“ Pode-se supor que o original Samhita de acordo com os ensinamentos de Dhanvantari-Divodasa era o traballho do velho Susruta que pode ter vivido antes ou durante o século VI A C (como acredita Hoenle) ou mesmo cerca de 1000A C ( como Afirma Mukhopadhyaya). O trabalho foi reformulado, provavelmente, em uma data posterior, nos primeiros séculos da era cristã.”(Rao, 1985: 94)

Como podemos aceitar o trabalho destes autores como fidedignos quando eles discordam por 400 anos? Este é um bom exemplo de como é difícil chegar a uma provável
data com relação aos tratados antigos do Ayurveda. Relembrando as palavras de Svoboda:

         “ Todas as datas são arbitrarias até a época de Gautama 563 A C a 483 A C)” (Svoboda, 1992; 9)

O principal comentario do Susruta Samhita foi escrito por um famoso monge budista chamado Nagarjuna que também era alquimista e filósofo. Com relação a Nagarjina Feuerestein comenta:

   “ O mestre budista Nagarjuna, do século II D C, não foi somente um célebre taumaturgo ( siddha) e alquimista tantrico mas também um gênio filosófico de primeira categoria.” (Feuerstein, 2001: 271)

   Ramachandra Rao refere sobre Nagarjuna:

“ No campo da medicina, ele é reconhecido como ter reescrito todo o Suruta Samhita, que provavelmente estava em um pobre estado de preservação durante os seus dias.” (Rao, 1985: 71)

Este importante personagem da história do Ayurveda, através de seus múltiplos conhecimentos, faz uma conexão, já citada anteriormente nesta monografia, entre a Medicina Indiana, a alquimia tantrica e o budismo. Como vimos a alquimia indiana provavelmente sofreu influencia da alquimia chinesa que estava associada ao taoísmo e a tradição médica na China.

Prana é a energia da vida ligada a respiração, oxigena¬ção e circulação. Governa também todas as funções motoras e sensoriais. A força vital prânica inflama o fogo central cor¬poral (agni). A inteligência natural do corpo é manifestada espontaneamente através de prana. Por exemplo, se uma criança tem deficiência de ferro ou cálcio, a inteligência na¬tural do corpo governada por prana levará a criança a comer lama, que é uma fonte daqueles minerais.

A sede de prana é a cabeça e prana governa todas as atividades cerebrais superiores. As funções da mente, da memória, do pensamento e das emoções estão todas sob o controle do prana. O funcionamento fisiológico do coração também é governado pelo prana, e do coração prana penetra no sangue e então controla a oxigenação em todos os dhatus e órgãos vitais.

Prana governa as funções biológicas das outras duas essências ojas e tejas. Durante a gravidez, o umbigo do feto éa principal porta por onde prima entra no útero e no corpo do feto. Prana governa também a circulação de ojas no feto. Assim, em todos os humanos, mesmo naqueles que ainda não nasceram, um distúrbio do prana pode criar um desequilíbrio de ojas e tejas, e vice-versa.

Ojas é a essência dos sete dhatus ou tecidos corpóreos. E a energia vital que governa o equilíbrio hormonal. O elemen¬to por excelência de shukralartav, que é a essência de todos os dhatus, está localizado no coração. Ojas é a energia vital que controla as funções da vida com a ajuda do prana. Ojas con¬tém os cinco elementos básicos e todas as substâncias dos tecidos corpóreos. É responsável pelo sistema auto-imune e pela inteligência mental.

Porque ojas está relacionada a kapha, o agravamento de kapha desaloja ojas e vice-versa. Ojas, quando desalojada, cria as desordens kapha como diabetes, lassidão dos ossos e juntas, entorpecimento dos membros. Ojas, quando reduzida, irá criar reações-vata, como medo, fraqueza geral, incapacidade da per¬cepção dos sentidos, perda de consciência e morte. Ojas equi¬librada é necessária para a energia e imunidade biológicas.

Ghee ajuda a intensificar ojas. O leite materno promove ojas no corpo da criança, portanto é essencial que a criança receba o leite materno para desenvolver o vigor biológico. Durante o oitavo mês de gravidez, ojas proveniente do corpo da mãe vai para dentro do feto. Assim, se o nascimen¬to for prematuro, antes dessa transferência de ojas, a criança encontrará dificuldade para sobreviver. Esse fenômeno de¬monstra a importância de ojas na manutenção das funções da vida. Assim como ojas é fundamental no início da vida, énecessária também para a longevidade.

No nível psicológico, ojas é responsável pela compaixão, pela paz, pela criatividade e pelo amor. Através de pranayama, disciplina espiritual e técnicas tântricas, a pessoa pode transformar ojas em força espiritual. Essa poderosa energia espiritual cria uma aura ou auréola ao redor da coroa chakra. Uma pessoa que tem ojas fortalecida possui atrativos, olhos brilhantes, sorriso espontâneo e calmo. É plena de energia e poder espirituais. Práticas espirituais e celibato realçam essas qualidades. Aqueles que procuram excessiva satisfação em sexo e masturbação dissipam a energia ojas no momento do orgasmo. O resultado é ojas enfraquecida que afeta diretamente o sistema imunológico. Tal pessoa torna-se vulnerável a males psicossomáticos.

Tejas é a essência de um fogo muito sutil que governa o metabolismo através do sistema de enzimas. Agni, o fogo central no corpo, estimula a digestão, absorção e assimilação do alimento. A transformação posterior dos ingredientes da nutrição nos tecidos sutis é administrada por um nível sutil de energia, pertencente a agni é tejas. Tejas é necessária para a nutrição e transformação de cada dhatu. Cada dhatu tem sua própria tejas, ou dhatu-agni. Essa essência é responsável pelo funcionamento fisiológico dos tecidos sutis.

Quando tejas é agravada, ela consome ojas lentamente reduzindo a imunidade e superestimulando a atividade prânica. Prana agravado produz desordens degenerativas no dhatus. A falta de ojas resulta na superprodução de tecido insalubre, que cria o desenvolvimento de tumores e obstrui o fluxo da energia prânica.

Dieta inadequada, maus hábitos de vida e uso excessivo de drogas causarão um desequilíbrio em tejas. Substâncias que são picantes, acres e penetrantes intensificam tejas dire¬tamente.

Da mesma forma que é essencial para a saúde assegurar o equilíbrio entre o tridosha, os dhatus e os três malas, ou re¬síduos corporais, para a longevidade é importante que prana, ojas e tejas permaneçam equilibrados. Para criar tal equilí¬brio, o processo de rejuvenescimento ensinado pela Ayur¬veda é o mais eficaz.

 

Os tridoshas desempenham um papel muito importante na manutenção da saúde celular e longevidade. Cada dosha desempenha uma parte vital para preservar o funcionamento de cada uma dos bilhões de células que constituem o corpo humano. Kapha mantém a longevidade no nível celular. Pitta governa a digestão e a nutrição. Vata, que está estreitamente relacionado à energia prânica da vida, governa todas as fun¬ções da vida.
Em um nível mais profundo, para combater o envelhe¬cimento é necessário equilibrar as três essências sutis exis¬tentes dentro do corpo: prana, ojas e tejas. O funcionamento de prana, ojas e tejas corresponde, em um nível mais sutil, ao funcionamento de vata, kapha e pitta, respectivamente. Dieta apropriada, exercício e estilo de vida podem criar um equi-librio entre essas três essências sutis, assegurando uma vida longa.

Prana é a energia da vida ligada a respiração, oxigena¬ção e circulação. Governa também todas as funções motoras e sensoriais. A força vital prânica inflama o fogo central cor¬poral (agni). A inteligência natural do corpo é manifestada espontaneamente através de prana. Por exemplo, se uma criança tem deficiência de ferro ou cálcio, a inteligência na¬tural do corpo governada por prana levará a criança a comer lama, que é uma fonte daqueles minerais.

A sede de prana é a cabeça e prana governa todas as atividades cerebrais superiores. As funções da mente, da memória, do pensamento e das emoções estão todas sob o controle do prana. O funcionamento fisiológico do coração também é governado pelo prana, e do coração prana penetra no sangue e então controla a oxigenação em todos os dhatus e órgãos vitais.

Prana governa as funções biológicas das outras duas essências ojas e tejas. Durante a gravidez, o umbigo do feto éa principal porta por onde prima entra no útero e no corpo do feto. Prana governa também a circulação de ojas no feto. Assim, em todos os humanos, mesmo naqueles que ainda não nasceram, um distúrbio do prana pode criar um desequilíbrio de ojas e tejas, e vice-versa.

Ojas é a essência dos sete dhatus ou tecidos corpóreos. E a energia vital que governa o equilíbrio hormonal. O elemen¬to por excelência de shukralartav, que é a essência de todos os dhatus, está localizado no coração. Ojas é a energia vital que controla as funções da vida com a ajuda do prana. Ojas con¬tém os cinco elementos básicos e todas as substâncias dos tecidos corpóreos. É responsável pelo sistema auto-imune e pela inteligência mental.

Porque ojas está relacionada a kapha, o agravamento de kapha desaloja ojas e vice-versa. Ojas, quando desalojada, cria as desordens kapha como diabetes, lassidão dos ossos e juntas, entorpecimento dos membros. Ojas, quando reduzida, irá criar reações-vata, como medo, fraqueza geral, incapacidade da per¬cepção dos sentidos, perda de consciência e morte. Ojas equi¬librada é necessária para a energia e imunidade biológicas.

Ghee ajuda a intensificar ojas. O leite materno promove ojas no corpo da criança, portanto é essencial que a criança receba o leite materno para desenvolver o vigor biológico. Durante o oitavo mês de gravidez, ojas proveniente do corpo da mãe vai para dentro do feto. Assim, se o nascimen¬to for prematuro, antes dessa transferência de ojas, a criança encontrará dificuldade para sobreviver. Esse fenômeno de¬monstra a importância de ojas na manutenção das funções da vida. Assim como ojas é fundamental no início da vida, énecessária também para a longevidade.

No nível psicológico, ojas é responsável pela compaixão, pela paz, pela criatividade e pelo amor. Através de pranayama, disciplina espiritual e técnicas tântricas, a pessoa pode transformar ojas em força espiritual. Essa poderosa energia espiritual cria uma aura ou auréola ao redor da coroa chakra. Uma pessoa que tem ojas fortalecida possui atrativos, olhos brilhantes, sorriso espontâneo e calmo. É plena de energia e poder espirituais. Práticas espirituais e celibato realçam essas qualidades. Aqueles que procuram excessiva satisfação em sexo e masturbação dissipam a energia ojas no momento do orgasmo. O resultado é ojas enfraquecida que afeta diretamente o sistema imunológico. Tal pessoa torna-se vulnerável a males psicossomáticos.

Tejas é a essência de um fogo muito sutil que governa o metabolismo através do sistema de enzimas. Agni, o fogo central no corpo, estimula a digestão, absorção e assimilação do alimento. A transformação posterior dos ingredientes da nutrição nos tecidos sutis é administrada por um nível sutil de energia, pertencente a agni é tejas. Tejas é necessária para a nutrição e transformação de cada dhatu. Cada dhatu tem sua própria tejas, ou dhatu-agni. Essa essência é responsável pelo funcionamento fisiológico dos tecidos sutis.

Quando tejas é agravada, ela consome ojas lentamente reduzindo a imunidade e superestimulando a atividade prânica. Prana agravado produz desordens degenerativas no dhatus. A falta de ojas resulta na superprodução de tecido insalubre, que cria o desenvolvimento de tumores e obstrui o fluxo da energia prânica.

Dieta inadequada, maus hábitos de vida e uso excessivo de drogas causarão um desequilíbrio em tejas. Substâncias que são picantes, acres e penetrantes intensificam tejas dire¬tamente.

Da mesma forma que é essencial para a saúde assegurar o equilíbrio entre o tridosha, os dhatus e os três malas, ou re¬síduos corporais, para a longevidade é importante que prana, ojas e tejas permaneçam equilibrados. Para criar tal equilí¬brio, o processo de rejuvenescimento ensinado pela Ayur¬veda é o mais eficaz.

Para compreender o corpo é preciso antes saber que toda a matéria do Universo, viva ou não, é constituída por 5 elementos, conhecidos como “Pancha Mahabhutas” (cinco elementos básicos): Céu ou Éter, Ar, Fogo, Água e Terra.

Estes elementos são como estados da matéria: a Terra representa o estado sólido; a Água, o líquido; o Ar, o gasoso; o Fogo, o poder de mudar o estado de qualquer substância; e o Éter, o elemento que é ao mesmo tempo a fonte de todos os outros e o espaço onde eles existem. Destes elementos, o Éter é o menos denso e a Terra a mais densa, sendo extremos da manisfestação de todas as matérias.

Os 5 elementos básicos aparecem sempre combinados de maneira inseparável na natureza; variam apenas em sua proporção relativa para conferir as qualidades diferentes de cada substância e isso permite classificá-la de acordo com o elemento mais predominante em sua estrutura. Exemplo: uma substância que, em condições normais, seja um sólido diz-se que está composta principalmente de Terra, mas os outros 4 elementos também entram na sua composição, porém em quantidades muito reduzidas. Prova disso é que se aquecermos o sólido, ele se liquefaz, manifestando o elemento Água; ao evaporar-se a Água, teríamos o elemento Ar. Toda essa metamorfose se dá no espaço, o elemento Éter, sob ação do calor e da luz do Fogo, o agente transformador.

Refletindo o Universo, nosso corpo também é composto por 5 elementos básicos. Os espaços dentro dele são manifestações do elemento Éter: espaços no nariz, na boca, no trato digestivo e no trato respiratório, no abdome, no tórax, nos vasos sanguíneos, nos tecidos e nas células. O elemento Ar é o elemento do movimento. Tudo que se movimenta no corpo, músculos, pulmões, células, impulsos nervosos, é governado pelo Ar corporal. Na natureza, o Sol é a fonte do Fogo e da luz. No ser humano, o elemento Fogo é produzido pelo metabolismo. Manisfesta-se na temperatura do corpo, na digestão, na inteligência e na visão. O elemento Água é considerado tão importante que no corpo é chamado de Água da Vida; é fundamental para o pleno funcionamento de órgãos e tecidos. Manifesta-se nos sucos digestivos, nas secreções das glândulas, no sangue. Do elemento Terra derivam todas as substâncias sólidas como a pele, cabelos, unhas, dentes, ossos, músculos e tendões.

O ser humano, porém, não é apenas produto da combinação destes 5 elementos. Ele possui o Eu imaterial. Nas palavras de Caraka, “a Terra está representada no homem pela dureza, a Água pela umidade, o Fogo pelo calor, o Ar pelo alento vital, o Éter pelos espaços e o Eu pelo espírito que mora em seu interior”.
Os Sentidos
Toda esta teoria cósmica dos 5 elementos só se torna importante se compreendermos sua função de ligação entre nós e o meio que nos cerca. Esta ponte se estabelece na manifestação destes elementos nos cinco sentidos do homem, ou seja, na capacidade que temos de perceber o mundo e de interagir com ele, através de cinco ações principais que são reflexos desta percepção sensorial.

Cada elemento básico apresenta uma relação direta com os órgãos dos sentidos e os mediadores de percepção correspondentes. Assim, os elementos Éter, Ar, Fogo, Água e Terra correspondem, respectivamente, à audição/ouvido, ao tato/pele, à visão/olhos, ao paladar/língua e ao olfato/nariz. Da mesma maneira, estes elementos têm correspondência com a ação e com os órgãos da ação.

Neste importante momento da nossa pesquisa vamos analisar o Ayurveda dentro do contexto histórico da sua gênese. Pois apesar dos autores indianos colocarem a Medicina Ayurvedica ou Ayurveda como um derivado dos vedas ou upa-veda. Nos textos védicos,
que chegaram até a nossa era não existe nenhuma referencia ao termo Ayurveda, e nem a tradicional classificação do tipo psico-fisico dos doshas que é fundamental, dentro do diagnóstico e tratamento, segundo os textos clássicos da Medicina Indiana. Ranade, Qutab e Deshpande, médicos e autores indianos afirmam:

“ Dentro dos quatro Vedas, Atharva Veda é o mais antigo registro do conhecimento médico durante o período védico. Então a ciência do Ayurveda é um sub-ramo do Atharva Veda. Este contém muitos hinos, preces e encantamentos para o tratamento de doenças para serem utilizados com as plantas medicinais. A maioria dos versos védicos de cura estão no Atharva Veda. Mais de cem dos seus hinos são dedicados a condições como: febre, lepra, doença do coração, dor de cabeça, reumatismo, epilepsia etc…” (Ranade, Qutab, Deshpande,1998: 11 )

Esta afirmação é uma crença geral da tradição indiana, porém o nosso questionamento é que como um conhecimento pode ser um sub-ramo de outro mais antigo se este não cita nenhuma das suas teorias básicas e muito menos o seu nome? Os mesmos autores parecem se contradizer quando mais adiante no livro “ History and Philosophy of Ayurveda” afirmam:

“ É importante notar que o conhecimento sobre os princípios fundamentais do Ayurveda não foram documentados durante o período védico. O crescimento e desenvolvimento do Ayurveda ocorreu principalmente durante o período Asha.” (Ranade, Qutab, Deshpande, 1998:12)

E mais adiante os autores não descrevem uma data precisa para o período Asha mas dão uma idéia subjetiva que este período seria posterior ao período védico quando os principais textos clássicos do Ayurveda foram compilados:

“ Este período se estende através de alguns séculos e é caracterizado pelo aparecimento de muitos tratados, sistematizados, sobre o tema do Ayurveda por diferentes sábios. Ayurveda, a ciência da vida, é reconstituído de uma origem mítica através do semimítico até o seu inicio histórico.” (Ranade, Qutab e Deshpande, 1998: 12)

É exatamente esta origem histórica que não está bem clara, pois do período védico, que Max Muller colocou como entorno do segundo milênio antes da nossa era, até a compilação dos compêndios clássicos do Ayurveda, chamados de Samhitas, principalmente Bhela, Susrura e Charaka Samhitas pode haver uma distancia de algumas centenas de anos que estão cobertos por escuridão. A colocação de Ramachandra Rao sobre os ramos da Medicina Indiana e a possível raiz do Ayurveda é deveras interessante:

“ A Medicina Indiana chegou até nós em alguns ramos, quatro deles sobressaem-se claramente. O primeiro ramo é composto por médicos profissionais chamados vaidyas ou bhishaks originalmente pertencentes a uma classe de pessoas chamados ambashtas. O segundo consiste de vendedores errantes, a maioria deles de origem tribal, que coletam drogas e ervas nas florestas e montanhas e as vedem nas aldeias. O terceiro grupo são sacerdotes dos templos, especialmente os de crença Vaikhanasa que também são chamados a atuar como médicos.O quarto ramo é ilustrado por aquilo que podemos chamar de “remédios caseiros”, a sabedoria e prática médica que foram, até recentemente, comuns dentro do meio doméstico denominadas como “prescrição da vovó”em todo o país.” (Rao,1985: 2)

Com esta afirmação podemos ver a grande heterogeneidade das práticas médicas na Índia, aqui Ramachandra Rao sugere um sincretismo da sabedoria popular com influencia na origem do Ayurveda:

“ Pode ser visto prontamente que o primeiro destes ramos apóia-se em uma literatura tradicional elaborada e uma disciplina empírica. Os outros três estão obviamente enraizados em práticas populares, para eles naturalmente faltam uma tradição documentada e padronizada para sustentar suas práticas e prescrições . Mas considerando a difusão e a singular surpreendente correspondência entre estas práticas em diferentes partes da Índia, é razoável assumir que a tradição popular, apesar de não estar documentada, foi profundamente enraizada e largamente embasada. É possível que mesmo a habilidade e a sabedoria médica do profissional médico na Índia antiga foram definitivamente fundadas na tradição popular. O arcabouço essencial foi fornecido pela habilidade popular e os detalhes foram trabalhados nos anos subseqüentes pela observação, racionalização, experiência e experimentação.”(Rao, 1985:2)

Com esta afirmação o autor coloca a sabedoria da medicina popular como uma grande influencia dentro do Ayurveda, mas as suas especulações não se limitam a medicina
popular. Ramachandra Rao acredita na influencia de outras fontes e escolas na formação do Ayurveda:

“ A medicina profissional na Índia tem quatro linhas maiores de desenvolvimento, todas elas têm origem em um passado remoto. Duas delas, uma representada pelo médico Charaka e outra pelo cirurgião Susruta ( ambos viveram em séculos anteriores a era cristã) são coletivamente chamadas de Ayurveda ( ou a Ciência da Vida), e foram integradas dentro do corpo védico.Eles constituem uma tradição, separada em oito ramos. A terceira linha de desenvolvimento é o sistema de alquimia terapêutica conhecido como Rasavaidya ( ou a escola Rasayana), no qual há um grande uso de metais e mercúrio. Este é um ponto de encontro entre a química indiana e a Medicina Indiana. Este sistema está normalmente incluído na tradição ayurvedica, desenvolveu-se quase que indepen-dente do corpo védico, e tirou proveito do contato com outras culturas como a Árabe, Persa e Chinesa. A quarta linha de desenvolvimento é o sistema Siddha , ( ou o “perito”) o qual a origem é extremamente obscura, porem foi, claramente, fora da tradição védica. Atualmente é prevalente apenas no sul da Índia, especialmente em Tamil Nadu. Existe pouca dúvida que todas estes sistemas foram enraizados na cultura tantrica e foram grandemente influenciados pelo complexo Samkhya-Yoga.”( Rao, 1985: 3)

Com estas afirmações, que não são aceitas pelos hindus ortodoxos, Ramachandra Rao coloca outras influencias na formação do Ayurveda. A possível interferência de fontes estrangeiras na formação do Ayurveda é uma hipótese bem interessante pois como vimos as trocas comerciais entre a Índia e a China eram uma realidade a partir do século II A C. Mas a influencia da tradição tantrica, certamente não védica, é uma colocação de extrema ousadia dentro do sistema ortodoxo hindu, que não aceita esta tradição como legitima pois é colocada como marginal ao corpo de conhecimento dos Vedas.

Tantra é um termo sânscrito que significa teia ou urdidura, deriva do radical “tan”que tem o sentido de expandir. Tantra também pode significar sistema, ritual doutrina ou compendio. Segundo explicações esotéricas Tantra é aquilo que expande o conhecimento ou sabedoria, neste sentido a filosofia do Tantra levaria ao auto-conhecimento. O Swami Rama em seu interessante trabalho “Vivendo com os Mestres do Himalaia” afirma:

“ Há uma vasta literatura sobre a filosofia e a ciência do Tantra, que não se compreende com facilidade e que é amiúde mal empregada. Ciência esotérica altamente avançada, tem sido praticada por hindus, jainistas e budistas. De acordo com a ciencia do Tantra, macho e fêmea são dois princípios do universo chamados de Shiva e Shakti. Os dois princípios existem no interior de cada individuo.Há três escolas principais de Tantra: Kaula, Misra e Samaya. Os Kaulas, ou tantristas da mão esquerda, adoram Shakti e seu modo de adoração envolvem rituais externos, incluindo práticas sexuais. Meditam sobre a força latente interior (Kundalini) e a despertam no chacra Muladhara, localizado na base da espinha. Os leigos, muitas vezes, empregam mal este caminho. Na escola Mishra ( mista ou combinada), o culto interior combina-se com práticas externas. A força latente, despertada e conduzida ao chacra Anahata ( centro do coração),ali é adorada. O caminho mais puro e mais alto do Tantra chama-se Samaya, ou caminho da mão direita. Puramente iogue, nada tem que ver com qualquer ritual ou forma de culto que envolva sexo. A chave é a meditação no lótus de mil pétalas, o mais elevado de todos os chacras…. O estudo dos chacras, nadis ( correntes nervosas sutis) e pranas ( forças vitais) e um estudo filosófico da vida são necessários a quem quiser ser aceito como discípulo desta escola.” ( Rama, 1978: 241)

Segundo Feuerstein o Tantra desenvolveu a sua própria forma de terapia, pouco conhecida no ocidente, é baseada na idéia da auto-purificação não só no nível físico e mental mas também a nível energético. A purificação física é feita através dos exercícios de Hatha Yoga, o Yoga da força, a purificação mental consiste em práticas de meditação e a purificação energética através de exercícios respiratórios para harmonizar o prana. Os praticantes do Tantra são zelosos em manter o seu bem estar físico. Feuerstein coloca:

“ Com este fim, eles se beneficiam das técnicas do Hatha Yoga e dos muitos remédios naturopaticos do Ayurveda(Ciência da Vida), que vão de ervas à dieta e ao jejum. Fazem inclusive uso de preparados químicos que acreditam promover a saúde e longevidade. Desde os primórdios que tem existido um vinculo entre Tantra, medicina e alquimia. Todos os três se desenvolveram através de experimentação e experiência pessoal ao longo de muitos séculos. Numerosos iniciados escreveram textos sobre Yoga e medicina. Assim Patanjali que compôs o Yoga-Sutras, é considerado também autor de obras sobre medicina e gramática.”( Feuerstein, 2001: 169 )

A origem do Ayurveda pode ter sido múltipla através de diversas fontes de varias regiões dentro e fora da Índia. Algumas possíveis fontes de desenvolvimento da “Clássica Medicina Indiana” já foram colocadas como: os Vedas, mais especificamente o Atharva Veda, o Tantra, a alquimia indiana e influencias provenientes de países vizinhos como os Árabes e os Chineses. Sobre estas influencias no Ayurveda Ramachandra Rao coloca:

“ Se o Ayurveda surgiu da tradição tantrica para uma carreira independente, os sistemas de alquimia da Medicina Indiana, Rasachikitsa e Siddha, continuaram os seus envolvimentos com as idéias tantricas. Não é fácil identificar as origens das idéias alquímicas na Índia. Presume-se que o contato com a China, o primeiro lar da alquimia ( em torno do terceiro século A C), foi o responsável pelo desenvolvimento deste complexo teórico-pratico aqui. Mas os objetivos gêmeos da alquimia, nominalmente, a transmutação de metais comuns em metais nobres (como ouro e prata ) e o prolongamento da vida por um elixir são sugeridos nos registros védicos. As idéias alquímicas eram prevalentes aqui desde, possivelmente, tempos pré-vedicos, apesar deles não produzirem um sistema,como eles produziram na China, Egito, países Árabes e Europa Ocidental, até três ou quatro séculos após Cristo. A utilização dos metais, minerais pedras preciosas e ervas para fins medicinais e mágicos era conhecida pelos poetas do Rig Veda e do Atharva Veda…. A influencia chinesa estava certamente lá, especialmente nos primeiros séculos da era cristã, e a Mahachina ( a grande China ou Tibet) era uma terra familiar aos tantricos e alquimistas da Índia. Siddha Nagarjuna supostamente foi lá; e o Siddha de Tamil, Bogar, é dito ter vindo daquele país. Ambos foram eminentes mestres da alquimia indiana durante o quarto e quinto século…” (Rao, 1985: 10)

Alem da possível influencia da alquimia tantrica e da escola chinesa existe uma outra possibilidade que foi pesquisada e referendada por Zysk que é a dos ascetas errantes que eram prevalentes na Índia durante o período de Buda, século V e VI A C, e que faziam parte de uma tradição “não bramanica”ou seja fora do corpo védico de conhecimento. Estes ascetas errantes foram denominados Sramanas. É possível que o nome Charaka (autor do clássico do Ayurveda Charaka Samhita) tenha alguma relação com esta tradição, pois a palavra caraca um nome masculino da raiz sânscrita “car” significa um errante ou um asceta, possívelmente um asceta errante dedicado a medicina ou seja o grupo dos Sramanas. Mircea Eliade em seu surpreendente trabalho “Yoga, Immortality and Freedom” faz referencia aos Sramanas como mágicos:

“Mágicos, ascéticos e comtemplativos continuam a aparecer no crescente corpo de textos rituais e comentários. Algumas vezes há, nada mais que uma alusão, como, por exemplo no caso de certa classe de “black sramanas- magicians” mencionados no Apastamba-sutra ( 2, IX, 23, 6-8): “Agora eles realizam seus desejos meramente, por imaginá-los. Por exemplo, (o desejo de) obter chuva, conceber uma criança, mover-se tão rápido quanto o pensamento e outros desejos desta espécie.”( Eliade, 1967: 135 )

Provavelmente a medicina foi “empurrada” para as tradições marginais ao corpo védico e perdeu seu status devido ao conceito védico, descrito nos textos daquele período, de que o médico era considerado impuro e por isto o Brâmane não deveria seguir a carreira médica pois teria que entrar em contato com pessoas de classes inferiores ou seja impuras.
Podemos entender melhor esta questão ao lermos as palavras de Zysk:

“Trabalhos literários sub-sequentes , particularmente…do período védico tardio( 900a 500 A C) indicam que os médicos e a medicina foram denegridas pela hierarquia sacerdotal, que censurava os médicos pela sua impureza e pela sua associação com todo tipo de pessoas. Uma passagem do Taittiria Samhita fornece evidencias do conceito dos sacerdotes pelos médicos…: “Os deuses falaram para aqueles dois: “estes dois médicos, que vagam com humanos, são impuros. Portanto a medicina não é para ser praticada pelo Brahman, pois aquele que é um medico ( bhisaj ) é impuro, inadequado para o sacrifício”… (Zysk, 1998; 22)

Os médicos, segundo a tradição vedica-bramanica, eram considerados impuros logo inadequados para participar dos rituais e sacrifícios que estavam restritos aos Brâmanes, que eram os sacerdotes e a elite religiosa no período dos Vedas. É provável que esta estrutura social tenha levado a formação de uma tradição não védica associada as artes da cura e que a partir desta tradição, que não estava restrita as regras Bramanicas, tenha surgido uma abordagem, com relação a saúde, distinta daquela dos Vedas. Na literatura encontramos referencias aos ascetas errantes que poderiam ter representado este papel pois não estavam restritos as crença védicas das “impurezas criadas por vagar entre os homens”.

“ Evidencias significativas da conexão entre as artes médicas e os ascetas errantes( Sramanas) é proveniente do relatório do historiador grego Meghasthenes ( 300 A C ), um embaixador especial enviado por Seleucus para a corte de Chandragu Pta Maurya no Pataliputra (moderno Patna). Suas observações são comunicadas pelo historiador e geógrafo Strabo ( 64 A C a 21 D C ): “… e em relação aos Garmanes ( Sramanas), Megasthenes diz que alguns, os mais estimados, são chamados Hylobii, (habitantes das florestas), que vivem nas florestas, sobrevivendo de folhas e frutas selvagens, vestem-se de cascas de arvores, e não se entregam ao intercurso sexual e ao vinho…. E após os Hylobii, Megasthenes diz que, os médicos, vem em segundo em honra, e que eles são filósofos, interessados na humanidade, frugais, porem não vivem da terra, sustentam-se com arroz e cevada…ele diz que eles são capazes de fazer gerar múltiplos filhos… através da arte de preparar e utilizar as drogas, porem eles levam a cura através dos grãos, na maioria das vezes, não através das drogas, e sobre as drogas, ele diz que, as mais estimadas são os ungüentos e os emplastros, mas têm muitos perigos no resto. E, ele diz, que, ambos, os primeiros e os segundos, ( Sramanas) praticam resistência, ativa e inativa, então eles podem ficar fixos em uma postura todo o dia; e há outros que são proféticos, habilidosos no uso dos encantamentos, e habilidosos nas palavra e costumes associado aos que “falecem”, e aqueles que pedem esmolas através das aldeias e cidades, por outro lado há outros que são mais atraentes que estes mais urbanos…e, ele diz que, as mulheres assim como os homens estudam filosofia com alguns deles, e as mulheres também abstêm-se do sexo.” (Zysk, 1998: 37)

Nesta referencia de Megasthenes fica bem claro a associação dos Sramanas com a medicina e a filosofia. Podemos relacionar os Sramanas com monges budistas ou yogues que praticavam austeridades, posturas de Yoga e meditação, assim como o celibato. Provavelmente eram considerados sábios pois “ as mulheres assim como os homens estudam filosofia com alguns deles”. Os Sramanas podem ser aquilo que Filliozat chamou de “ intermediary tradition” no seu trabalho “The Classical Doctrine of Indian Medicine”:

“ A Medicina Indiana teve, portanto, retirado dos Vedas os principais elementos da sua doutrina geral. Desse modo, o Ayurveda é o legitimo herdeiro dos Vedas, porém desenvolveu a uma vasta extensão o patrimônio recebido. Sistematizou idéias antigas que constituiu um imenso tesouro de observações e experiências ambas com relação as doenças e o meio de curá-las. Quando nós encontramos isto pela primeira vez nos textos clássicos, parece como se existisse um abismo entre o conhecimento acumulado por eles e as escassas noções médicas que podem ser encontradas nos antigos textos védicos. Os trabalhos intermediários, aqueles que nós poderíamos observar a constituição gradual do vasto edifício, que repentinamente, aparece a nossa frente na sua forma já pronta, não chegaram até nós …É devido a necessidade de uma continuação entre as especulações védicas e a clássica doutrina do Ayurveda que nós podemos afirmar com certeza a existência de uma tradição intermediária.” (Filliozat, 1968: 188)

Esta tradição intermediária, possivelmente, seria uma tradição de ascetas errantes, que viviam a margem da tradição hegemônica dos Brâmanes védicos. A tradição budista e os ascetas Sramanas, ambos não védicos, seriam possivelmente a mola propulsora no desenvolvimento de um sistema empírico-racional que veio “concorrer” com a medicina
mágico-religiosa dos textos védicos, principalmente o Atharva Veda. É muito interessante a colocação de Ramachandra Rao sobre os ascetas Sramanas:

“ A medicina Indiana foi ativamente cultivada durante alguns séculos ( sete a oito de acordo com Filliozat) antes do nascimento de Cristo. Nós temos a evidencia de Megasthenes, o embaixador grego que visitou a Índia no quarto século A C, que os Sramanas ( um grupo de filósofos e ascetas fora da cultura védica) eram praticantes de medicina e eram grandemente respeitados pela população por estes serviços. Há uma sugestão em Strabo ( 15, 170) que estes Sramanas eram também mágicos, dando crédito a visão que a Medicina Indiana pertenceu a tradição Tantrica.” ( Rao, 1985: 8)

Com estas referencias fica bem claro a conexão entre os ascetas Sramanas e a Medicina Indiana, mas com relação a tradição budista que se iniciou a partir do século VI A C com Sidharta Gautama, o Buda, podemos afirmar que a medicina budista, que era um dos conhecimentos que os monges deveriam estudar, teve como seu pioneiro o próprio medico de Buda, Jivaka Komarabhacca. Contam os textos budistas que Jivaka fez sua formação em Taxila, no noroeste da Índia, onde estudou por sete anos com um renomado médico chamado Atreya. Segundo a tradição Jivaka, após sua formação com Atreya, se tornou médico do rei e foi designado para tratar o próprio Buda sendo considerado o maior médico da sua época.. Zysk cita uma importante passagem de um texto budista em pali que faz uma conexão direta entre o Ayurveda, a medicina budista e os Sramanas, ou Samanas em pali, através das palavras do próprio Buda:

“ Quando questionando o Buddha sobre a causa do sofrimento da humanidade, o asceta errante Sivaka, que pode ter sido um medico, disse que alguns Samanas e Bramanas afirmam que o sofrimento é causado apenas pelas ações passadas, Karma. O Buddha disse que esta visão era incorreta e que a causa do sofrimento da humanidade tinha oito razoes: “bile (Pitta), fleuma ( Kapha), vento( Vata) e suas combinações ( sannipata), mudança das estações ( utu), estresse de atividades não usuais (visamaparihara) (e.g.sentar ou ficar muito tempo em pé), os excessos, sair repentinamente a noite,( ser mordido por uma cobra) agentes exter-nos (ser preso como ladrão ou adultero) e o resultado de ações passadas é o oitavo” ( Zysk, 1998; 30)

Este texto acima poderia, sem nenhum erro de doutrina, estar dento de um tratado   clássico sobre Ayurveda, pois as mudanças de estações, as alterações de Vata, Pitta e Kapha, os excessos e os agentes externos são todos citados na clássica Medicina Indiana como causadores de doenças. Podemos, então, aferir a ligação que existia do budismo primitivo com o Ayurveda e a tradição dos ascetas errantes, cada um deles estava fora da tradição dos Vedas ou seja não eram aceitos pela tradição religiosa hegemônica naquela época. Isto coloca a comunidade budista (sangha) em destaque, pois, afirma a tradição, que Buda negou a autoridade dos Vedas e como vimos os textos védicos daquele período colocavam a profissão médica como impura logo inadequada para o Brâmane. A nossa hipótese aqui é bem clara: a tradição que deu origem ao Ayurveda não pode ser védica pois a medicina foi menosprezada pelos textos védicos.Com relação a isto Zysk afirma:

“ O movimento ascético heterodoxo na Índia antiga abasteceu com uma orientação social e filosófica os primeiros budistas e teóricos médicos. Os médicos, como os ascetas, eram buscadores de conhecimento e fora de castas, evitados pelos hindus ortodoxos. Eles erravam, realizando curas e adquirindo novos medicamentos, tratamentos e conhecimento médico, e eventualmente se tornaram indistinguíveis dos outros Sramanas com os quais estavam em contato freqüente. Os médicos não eram necessariamente ascetas, mas muitos ascetas, como os monges budistas curadores, poderiam muito bem ter sido médicos.Um enorme deposito de conhecimento médico desenvolveu-se entre estes médicos Sramanas fornecendo a tradição médica indiana os preceitos e a prática daquilo que seria conhecido como Ayurveda. Os primeiros documentos desta tradição médica ocorreram quando os ascetas errantes assumiram uma existência mais estacionária, enclausurados nos monastérios budis-tas primitivos.” ( Zysk, 1998: 37)

A nossa hipótese aqui é que varias tradições, que estavam em contato no primeiro milênio antes da nossa era, principalmente a partir da época de Buda, século VI A C, foram as responsáveis pela interação que deu origem a uma nova abordagem médica: A tradição dos ascetas errantes, Sramanas, o Tantra e sua alquimia, associado as influencias externas chinesas, e o pensamento budista, todos eles não védicos ou seja fora de castas, levaram a uma abordagem empírico-racional da saúde em substituição ao antigo paradigma mágico-religioso brâmane. A filosofia budista com o seu clássico “caminho do meio” foi um combustível importante nesta nova abordagem.

A mudança de paradigma de uma medicina mágico-religiosa, prevalente nos Vedas, para uma medicina empírico-racional dos textos clássicos do Ayurveda pôde acontecer devido aos personagens principais desta transformação não estarem limitados pelos
conceitos védicos, pois eram sem castas, ou seja fora da hierarquia bramanica. Posteriormente quando o Ayurveda tornou-se popular, houve a necessidade dele ser referendado como um conhecimento da tradição hindu, ou seja uma “hindunização” de uma tradição que foi em seu inicio anti-vedica, neste momento “as cartas já estavam marcadas” pois colocou-se o Ayurveda relacionado ao “menor” dos Vedas, o desvalorizado Atharva-Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao sabiamente coloca:

“ A antipatia nutrida pelos ortodoxos ao Ayurveda deve ser considerado neste terreno. E quando o Ayurveda teve que ser acomodado dentro do complexo védico, o Atharva-Veda era naturalmente aonde ele pertencia. Characa afirma que o Atharva-Veda é superior aos outros Vedas por que se relaciona com a vida que é a fundação de toda a felicidade e riqueza, e isto é sintomático da sensibilidade do profissional médico daquele período. Sua afiliação ao Atharva-Veda foi a natureza de um desafio, pois este Veda tinha uma reputação duvidosa nos círculos ortodoxos.” ( Rao, 1985:7)

Vamos agora analisar os principais textos clássicos do Ayurveda: Charaka, Susruta, e Vagbhata Samhita em uma visão critica.

O Characa Samhita é considerado o mais importante texto do Ayurveda que chegou aos nossos dias. Nas palavras de Sharma e Dash tiradas da introdução da sua tradução para o inglês :

“ Alguns dos antigos textos do Ayurveda não estão disponíveis. Entre os textos existentes, O Characa-Sanhita de Agnivesa,o Susruta-Samhita de Susruta e o Ashtanga-Hrdrayam de Vagbhata são reconhecidos como o “Grande Trio”. Destes três Characa é considerado a maior autoridade, desde que representa um tesouro autentico dos vários aspectos desta ciência, com especial referente aos princípios fundamentais da medicina.” (Sharma e Dash, 1995:xxi)

O Charaka_Samhita é considerado o mais importante texto do Ayruveda, e também um dos mais antigos. Está dividido em 120 capítulos assim como os outros clássicos de Vagbhata, Bhela e Susruta. Parace que este número tem alguma importância entre os autores antigos.

Como nós vimos o Ayurveda foi incorporado a tradição védica e quando esta “hindunização” do Ayurveda ocorreu a mitologia hindu foi naturalmente agregada a obra então no Characa afirma-se que este sistema médico veio diretamente de Brahma, o criador, deste o conhecimento passou para os deuses ate chegar a Indra, rei dos deuses, que teve a missão de transmitir esta sabedoria a Bharadvaja que foi o primeiro médico-sábio da tradição do Charaka-Sanhita. Nesta tradição este sábio foi escolhido para receber o
conhecimento do deus Indra e foi o mestre de Atreya,quem dissertou o Charaka-Sanhita para seu discípulo Agnivesa. Sobre esta relação mestre-discipulo, Ramachandra Rao afirma:

“ O Atreya da tradição médica é dito ser um estudante de um outro sábio Bharadvaja, que aprendeu a medicina de Indra…O Bhava-prakasa relata que, ambos, Bharadvaja e Atreya aprenderam medicina de Indra em ocasiões diferentes. Há também uma referencia que Bharadvaja é um discípulo de Atreya, Chakrapani-Datta afirma que algumas pessoas erradamente identificam Atreya com Bharadvaja e refere-se a uma antiga autoridade, Harita, que coloca que Bharadvaj era o professor de Atreya….Na tradição médica de Kayachikitsa, ( medicina interna) a seqüência das autoridades médicas na Índia é a seguinte: Brahma , Asvins, Indra, Bharadvaja, Atreya ( purnavasu) e os seus seis discípulos: Agnive-sa, Jatukarna, Bhela, Harita, Khsarapani e Parasara. Cada um destes discípulos escreveu um tratado médico com os ensinamentos de Atreya. No decorrer do tempo, Apenas o tratado de Agnivesa sobreviveu, sendo o mais compreensível, Charaka segue esta linha e seu Samhita é a redação do trabalho original de Agnivesa, e é por isto que Charaka sempre menciona o nome de Atreya com o res-peitável adjetivo de “bhagavan”.” ( Rao, 1985: 27)

Com esta afirmação de Ramachandra Rao baseado no Charaka Samhita observamos o sincretismo do Ayurveda, inicialmente fora do cânone védico, com os deuses do hinduismo, ou seja, dentro da tradição brâmane. Brahma, o criador, segundo Charaka foi quem criou, ele mesmo o Ayurveda, a ciência da vida, e passou para os médicos dos deuses, os gêmeos Asvins que teriam transmitido o conhecimento ao rei dos deuses Indra, este sim ensinou a medicina ao sábio Bharadvaja. Bharadvaja, escolhido como o sábio melhor preparado foi ate Indra e recebeu a ciência da vida, Ayurveda, que transmitiu a Atreya. Cada capítulo do Charaka Samhita inicia-se com a frase: “ Aquilo que segue é o que o reverenciado Atreya falou”, na verdade todo o texto é uma discussão entre Atreya e seu discípulo Agnivesa. Este texto foi recompilado por Charaka. Sharma e Dash tradutores do Charaka Samhita colocam:

“O sábio Atri é referido no Rig Veda e Atharva Veda, como o vidente dos hinos védicos. Por conseguinte o Agnivesa Samhita foi talvez escrito sob a guia de Atreya em algum momento em torno de 1000 A C” (Sharma e Dash,1995:xxxvi)

Esta colocação é um exemplo típico dos autores indianos, que fazem afirmações que não podem ser referendadas pela literatura. Existem vários personagens na literatura de origem indiana com nome de Atreya. O médico de Buda, Jivaka, estudou em Taxila com um mestre chamado Atreya, provavelmente no século VI ou V A C. Mas provavelmemte não foi ele que ditou o Charaka Samhita pois não existe referencia a Agnivesa, seu discípulo na literatura budista primitiva. Se o Atreya do Rig Veda e do Atherva Veda é o mesmo do Ayurveda, então por que não existem referencias ao Ayurveda naqueles textos?

A reposta é muito simples: os textos do Ayurveda são posteriores, inclusive na literatura do período védico tardio, ou seja antes da época de Buda, século VI A C, não há referencias ao Ayurveda. Não há como precisar uma data para Atreya e seu discípulo Agnivesa que tenha respaldo na literatura de origem indiana. Com relação a isto Filliozat coloca:

“ Pode-se admitir que um ou mais Atreyas, tradicionalmente conhecidos como médicos eminentes, existiram, mas não se pode admitir que Atreya Purnavasu que é dito ter recebido a ciência da medicina do mítico Bharadvaja foi o Atreya que nas fontes budistas é o contemporâneo de Buda. As lendas das origens do Ayurveda, como encontrados nos dois Samhitas, Charaka e Susruta, não pare-cem estar embasados em nenhum fato histórico. Elas parecem ter sido criados a partir de conjecturas, baseadas em datas da tradição védica relacionadas aos deuses médicos, e aos mestres bramanicos.” ( Filliozat, 1964: 11)

É provável, como colocou Filliozat, que a tradição ayurvedica durante o processo de “hindunização” tenha se mesclado a mitologia e a religião védica formando um sincretismo entre as tradições não brâmanicas, fora de castas, e a tradição dos Vedas. Porem autores hindus, sem levar em conta esta possibilidade, colocam datas do Rig e Atharva Vedas para os autores clássicos da Medicina Indiana, sem fatos ou referencias históricas ratificando as suas afirmações.

Charaka vem da raiz car que significa mover-se, provavelmente Charaka era um médico errante, que propagava o seu conhecimento e dava alivio aos seus pacientes.Havia também um médico da corte do rei Kaniska, século II da nossa era, que se chamava Charaka. Provavelmente este não era o mesmo médico que escreveu o famoso tratado. Com relação a identidade de Charaka Ramachandra Rao afirma:

“ A identidade de Charaka é inteiramente incerta. Nós não estamos certos se este era o nome pessoal de um autor que foi o principal responsável pela atual versão do Charaka Samhita. Foi sugerido (em Brhajjaka) que o médico especialista, que viajava de aldeia em aldeia, não apenas administrando remédios mas também ensinando a ciência médica era chamado de Charaka ( médico errante) pelas pessoas, assim como o cirurgião era conhecido como “Dhanvantari”. (Rao, 1985: 44)

Esta colocação de Ramachandra Rao nos faz lembrar a tradição dos Sramanas que, como médicos, ascetas errantes e filósofos levavam os seus conhecimentos de aldeia em aldeia aliviando o sofrimento das pessoas. Porem Ramachandra Rao vai mais longe fazendo uma ponte entre o termo Charaka e a antiga tradição budista:

“ Na tradição budista primitiva haviam referencias aos “eruditos errantes” sendo admitidos nas instituições educacionais, como Taxila, como “estudantes casuais” ( charikam charantã ). Taxila na parte noroeste do país tinha também uma faculdade médica que era chefiada por um Atreya, e foi onde o famoso contempora-neo de Buda, Jivaka, o pediatra, foi estudante. Charaka, mesmo, durante os séculos antes de Cristo era um termo significando médico errante e professor médico” ( Rao, 1985: 44)

Com esta colocação de Ramachendra Rao podemos fazer uma possível ligação entre a tradição de Charaka, do clássico Ayurveda, a escola budista antiga e os médicos errantes Sramanas todos fora de castas ou não védicos, a partir do momento que os textos védicos colocavam o médico como impuro e a profissão médica como inadequada ao Brâmane pois exigia o contato com todos os tipos de pessoas inclusive os das castas inferiores e os sem castas. Podemos lançar a hipótese que esta exclusão, da religião hegemônica, tenha aproximado estas tradições heterodoxas e propiciado a troca de conhecimentos e experiências que resultou em uma escola empírico-racional que posteriormente ficou conhecida como Ayurveda. Apesar da base do Ayurveda ser empirico-racional, este nunca abandonou completamente a medicina mágico-religiosa caracterizada pelo Atharva-Veda. Podemos confirmar isto na tradução de Sharma e Dash do Charaka Samhita:

“ O Ayurveda tem oito ramos:
1-Medicina Interna
2-Ciência das doenças especificas da região supra-clavicular: olhos, nariz, ouvido, boca e garganta.
3-Cirurgia
4-Toxicologia
5-Ciência do ataque demoníaco ( psicologia)
6-Pediatria
7-Ciência do rejuvenescimento
8-Ciência dos afrodisíacos”
     (Sharma e Dash, 1995:603)

A “ciência do ataque demoníaco” faz parte da medicina mágico-religiosa dos Vedas, talvez este seja o ramo do Ayurveda que tenha suas raízes naquilo que o Iogue Ramacharaca chamou de “magia branca e magia negra”do Atharva Veda.

O Charaka Samhita introduziu o conceito de Dosha, literalmente defeito, é interpretado como desequilíbrio ou disfunção : Segundo Charaka os doshas do corpo são Vata, Pitta e Kapha e os da mente Rajas e Tamas. Vata é áspero, frio, sutil, móvel, não gorduroso e leve. Pitta é oleoso, quente, agudo, liquido, ácido, e picante e Kapha tem as seguintes qualidades: pesado, frio, macio, oleoso e doce são melhorados por medicamentos que tem qualidades opostas.
O Ayurveda faz uma relação entre os cinco elementos chamados de Panchamahabhutas e os Doshas. Então Vata é formado pelos elementos ar e espaço e Pitta por fogo e água, já Kapha possui água e terra. O corpo humano possui os três Doshas e os cinco elementos e é o aumento ou diminuição destes que levam ao desequilíbrio e as doenças.

Atualmente, os programas que visam ao tratamento de  pessoas dependentes empregam táticas de confronto, enfatizando a necessidade de vigilância constante para evitar a volta ao hábito nocivo. “O macaco está em suas costas e vai ficar aí o resto da vida”, dizem aos que estão se reabilitando. O raciocínio que leva a essa insistência é de que quem tem um hábito compulsivo nunca se cura, até que se transforme em um abstêmio compulsivo.

O Ayurveda sugere uma outra abordagem: o dependente desistirá automaticamente do hábito quando lhe oferecerem uma fonte de maior satisfação. O álcool, o cigarro e as drogas causam danos incalculáveis, mas os usuários encontram neles algum tipo de prazer ou, pelo menos, o alívio do grande estresse que de outro modo sofreriam. Os dependentes conservam seus hábitos, apesar de desejarem uma saída. Pouco ajudam as crises de culpa, vergonha, remorso e auto-acusação.

Contudo, quando suas mentes se confrontam com uma fonte de maior satisfação, a tendência natural é se afastarem do mau hábito pela nova atração. Há quase vinte anos esse ponto de vista tem recebido apoio. Desde o início dos anos 70, estudos repetidos nos Estados Unidos e na Europa demonstraram que, quando os dependentes aprendem a meditar, baixa o nível de ansiedade e com ele o consumo de álcool, cigarros e drogas. Se o hábito é combatido no estágio inicial, muitos abandonam as substâncias nocivas. Esse ponto é importante porque a maioria das curas tem maior possibilidade de sucesso na fase inicial.
Ao remover a distração do estresse, a meditação renova a memória do equilíbrio do sistema nervoso. A meditação repetida diariamente estimula cada vez mais a memória até as células voltarem ao estado normal, trocando seus receptores anormais por um padrão correto. Como as vias da inteligência estão reparadas, as células passam automaticamente a selecionar sinais saudáveis como antes recebiam os distorcidos. O ciclo rompido pelo hábito nocivo foi refeito.
Vários estudos sobre MT (Meditação Transcedental) e hábitos nocivos levaram às seguintes descobertas:

  • Em 1972, o fisiologista Robert Keith Wallace e seus colegas estudaram 1860 adeptos da MT, principalmente estudantes universitários, sobre o uso de todos os tipos de drogas. O número de usuários diminuiu muito depois que eles passaram a meditar, e isso atingia todas as categorias (maconha, narcóticos, barbitúricos, alucinógenos e anfetaminas). À medida que a prática de MT prosseguia, a dependência dos estudantes diminuía, até a maioria ter abandonado completamente, depois de vinte e um meses. A maconha ainda era usada por 12 por cento do grupo; nas outras categorias havia uma variação de 1 a 4 por cento.
  • Em estudo efetuado em 1974 sobre a maconha, pessoas que meditavam foram comparadas com outras que não meditavam. Depois de um a três meses de prática da MT, cerca da metade de seus adeptos tinha diminuído ou abandonado o uso de drogas; por comparação, menos de um sexto dos que não meditavam tinha diminuído ou abandonado o hábito. Esses resultados aumentavam drasticamente de acordo com o tempo da prática de meditação. Entre os que meditavam há dois anos, 92 por cento diminuíram o uso da maconha e 77 por cento a abandonaram inteiramente. Um estudo similar chegou aos mesmos resultados sobre o álcool.
  • Em estudo efetuado com alunos do curso secundário e universitário (Katz, 1974), foram questionados os hábitos de 150 adeptos da meditação e de 110 estudantes que não meditavam. Constataram-se diminuições importantes no consumo de maconha, vinho, cerveja e bebidas mais fortes entre os que meditavam, enquanto não houve mudança entre os que não meditavam.

Todas essas descobertas se basearam em pessoas que não tinham participado de nenhum programa de reabilitação. Ninguém pediu que abandonassem o hábito, acompanhou os progressos ou premiou sua abstenção. E, principalmente, nenhum participante foi escolhido porque queria abandonar o hábito. Na verdade, no ambiente de estudantes de nível secundário e superior a pressão existe em sentido contrário, valorizando os que abusam do álcool, dos cigarros e das drogas. As diminuições em todo o ambiente estudado sugerem que a redução do estresse e da ansiedade com a elevação do nível de satisfação interior pode motivar os dependentes a abandonarem o hábito.

Um teste de campo mais restrito sobre esse princípio ocorre nas prisões. Vários estudos focalizaram a atuação da MT entre prisioneiros que não têm motivação para abandonar suas dependências. Uma avaliação de cinco estudos desse tipo, em 1978, concluiu que os resultados tinham suficiente importância para merecer uma autorização oficial tornando a MT como um dos tratamentos principais contra o abuso de drogas.

Um estudo feito em 1972 na Alemanha examinou setenta e seis dependentes que participavam de programa de reabilitação. Depois de doze meses de meditação, diminuiu o consumo de todos os tipos de drogas, inclusive heroína, barbitúricos e anfetaminas, considerados os hábitos mais difíceis de abandonar.
Os estudos estatísticos, por sua própria natureza, tendem a ser inexpressivos. Eu gostaria de voltar aos casos individuais, como o que um veterano profissional de reabilitação me contou em Nova York. Ele estava orientando uma adolescente que tinha começado a beber aos 12 anos de idade e aos 15 era alcoólatra. Ela demonstrava grande resistência à reabilitação convencional e, por fim, depois de meses de frustração, o orientador admitiu sua derrota. Quando ele liberou-a do programa, deu um último conselho:
– Por que você não tenta a meditação?
Ela pareceu interessada, mas ele não teve oportunidade de acompanhar o caso.
Alguns anos mais tarde, quando estava em um shopping center, ele reparou em uma moça atraente. Com espanto, reconheceu a adolescente naquela jovem radiante e feliz, com sua filhinha de dois anos, e foi cumprimentá-la.
– O que aconteceu com você? – ele perguntou.
Descobriu que a moça começara a praticar a MT logo depois de largar o programa de reabilitação e tinha parado de beber em poucos meses. Ela elogiou a meditação, que ainda praticava, por ter ficado livre da dependência e até por salvar sua vida, O orientador, desde então, incorporou a MT a seu trabalho, iniciando muitos outros dependentes no mesmo caminho.