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O Ayurveda e a Meditação
O Ayurveda é a filosofia médica oriental que foi desenvolvida no subcontinente indiano há muitas centenas de anos. Nesta racionalidade a mente e o corpo sempre estiveram interligados pois benefícios ao físico influenciam positivamente a nossa dimensão mental e a bem estar psicoemocional promove harmonia a fisiologia. Afirma-se que o ser humano é uma árvore invertida, se o objetivo é melhorar as flores e frutos deve-se atuar na raiz da planta. A raiz da pessoa está no sistema nervoso e para acessá-lo deve-se abordar a mente e através da dimensão mental atuamos no cérebro. Isto demonstra claramente que não adianta recomendar medicamentos para a doença física sem abordar os distúrbios mentais que invariavelmente estão associados. O Charaka Samhita, principal texto de clinica medica ayurvedica, afirma “ O corpo e a mente constituem o substrato das doenças e da saúde e é a sua utilização equilibrada que torna-se a causa da felicidade”.
A tradição indiana afirma que a mente possui três grandes qualidades ou mahagunas em sânscrito: Sattva traz equilíbrio, paz de espirito, introspecção e autoconhecimento, Rajas promove paixões, desejos, movimento e ação porem Tamas gera inércia, escuridão, preguiça e embotamento. Apesar de ser claro a necessidade das 3 qualidades para nossas atividades diárias o Ayurveda recomenda que deve-se aumentar Sattva e diminuir Rajas e Tamas. Mais uma vez retornamos ao Charaka que ensina: “ Os fatores patogênicos do corpo são os Doshas Vata, Pitta e Kapha, enquanto as causas do adoecimento da mente são Rajas e Tamas”. Mais adiante este autor refere; “ … os fatores patogênicos da mente são apaziguados por sabedoria espiritual, estudo das escrituras, paciência, memória e meditação”.
Desde os anos 1970 que a ciência ocidental vem explorando os benefícios físicos e mentais de uma prática regular e bem orientada de meditação. Foram realizadas centenas de pesquisas, em muitos países, que apontaram para os seguintes efeitos positivos do método: maior estabilidade emocional, aumento da espontaneidade, diminuição dos quadros de ansiedade e depressão, redução da dependência por drogas, benefícios importantes para a memoria, inteligência e a criatividade, desenvolvimento da concentração, melhora a qualidade do sono, aumenta a vitalidade, diminui a pressão arterial em hipertensos, redução de estresse e doenças psicossomáticas, alivio de dores crônicas, melhora o tempo de resposta e a coordenação e diminuiu a frequência dos quadros de asma e reações alérgicas. Lawrence Leshan autor do livro “ How to Meditate” afirma de forma contundente: “…A meditação parece produzir um estado fisiológico de relaxamento profundo conjugado a um estado mental desperto e altamente alerta…O estado fisiológico produzido pela meditação parece ser oposto ao estado produzido pela ansiedade ou pela raiva”.
O autor Victor N. Davich no seu interessante livro “ O Melhor Guia para a Meditação” afirma “ Quanto mais meditação fizer mais você irá entrar em contato consigo mesmo e por conseguinte mais consciente ficará do que faz a cada momento” . A meditação silenciosa é a arte do autoconhecimento mas para atingirmos o estado de meditação profunda é necessário uma regularidade diária na prática e também, não menos importante, a orientação de um professor experiente e bem intencionado. Algo que funciona para mim é ter um cantinho de meditação e me comprometer a sentar diariamente, duas vezes ao dia, manha e noite neste espaço. Mas porque duas vezes ? A meditação da manhã prepara a mente para as atividades do dia, porem a introspecção noturna dissolve as ansiedades e tensões provenientes do estresse diário e promove um sono mais reparador. O melhor é praticar antes das refeições ou pelo menos duas horas após a comida. As melhores meditações que eu tive foram com fome, ou seja, com o estomago totalmente vazio.
Afirma-se que “a repetição é a mãe da habilidade” e este ditado esta relacionado a pratica da meditação. Quanto mais eu pratico melhor fica a minha introspecção. Na minha rotina diária utilizo duas metodologias: a respiração e o uso do mantra. A respiração é algo que está disponível a todos o que torna-se simples porem muito eficaz. Já o mantra é uma ferramenta poderosa para a transcendência. Na Índia quando o aluno recebe o mantra do professor é chamado de “guru-mantra” e este som deve apenas ir da boca do preceptor para o ouvido do estudante, ou seja, não deve ser divulgado. Meu instrutor indiano me ensinou a repetir o mantra 108 vezes a partir do ajna chakra ou terceiro olho. Com a repetição da pratica a mente torna-se mais calma, uma mente tranquila é mais concentrada e o aumento da concentração gera uma mente muito mais eficiente. Então além de melhorar a saúde física e mental a meditação também deixa a mente mais eficiente e melhor capacitada a resolver problemas. Termino com as palavras do incomparável mestre Yogananda autor do belíssimo livro “ Autobiografia de um Iogue” : “ Mergulhe novamente e novamente no oceano da meditação e capture as pérolas da comunhão abençoada”.
Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Tel: (21) 25373251, Visite: www.ayurveda.com.br

Fitoterapia Ayurvedica: Malva Branca

A Malva Branca é uma planta ayurvedica, conhecida na Índia como Bala, seu nome cientifico é Sida cordifolia, deve-se evitar confundir com a Malva sylvestris que não é uma erva indiana. A Malva Branca vegeta em quase toda a extensão de nosso país e é uma planta histórica pois foi cantada pelo poeta romano Virgilio do século I antes de Cristo. Atinge cerca de um metro de altura com folhas de 2,5 a 5,0 cm com formato de coração. As pequenas flores são amareladas ou esbranquiçadas. Bala em sânscrito significa força, vigor e vitalidade, as raízes são resistentes e promovem energia e nutrição. Externamente o óleo medicado com Malva Branca é muito usado nas desordens do Dosha Vata: dores, reumatismos e edemas. Já internamente pode ser usado em uma decocção com leite para distúrbios do sistema nervoso ( Vata) e como rasayana ( rejuvenescedor), nutridor e estimulante do coração.
A erva é uma depuradora do sangue, promotora do tecido muscular, aumenta a vitalidade, sendo indicada nos casos de debilidade e fadiga. No Ayurveda utiliza-se, principalmente, as folhas, raízes e o óleo da semente para uso externo. Apresenta um sabor adocicado e uma potencia fria, beneficia os três Doshas mas pode agravar Kapha quando usada em excesso. Tem uma ação promotora dos tecidos orgânicos, fortalecedora, anabolizante, afrodisíaca, diurética, gera aumento de Ojas ( vitalidade), facilita a função respiratória, é tônica do coração, anti-oxidante, adaptógena ( anti-estresse), analgésica, anti-inflamatória e atua harmonizando o sistema nervoso.
Devido a suas múltiplas qualidades é indicada para as seguintes mazelas: fadiga, fraqueza muscular, disfunção erétil, distúrbios do sistema nervoso, sangramentos do tipo Pitta, neuralgias, dores ciáticas, dormências, reumatismos, processos inflamatórios, doenças neurológicas e respiratórias. O óleo medicado da planta está indicado na forma de massagens no caso de reumatismos, distúrbios músculo-esqueléticos e dores ciáticas. A dose diária é 1 a 2 gramas do pó que pode ser fervido com leite. Também pode ser utilizado 2 a 3 gramas da planta seca ou 4 a 5 gramas da planta fresca na forma de decocção em 200 ml de água, tomar 2 a 4 vezes ao dia. Lembre-se que esta erva ayurvedica não deve ser usada na gestação, em pacientes com hipertensão arterial, aumento do Dosha Kapha, obesidade e acumulo de Ama ( toxinas digestivas). “ Respeitando estas contra-indicações e as doses terapêuticas indicadas é uma planta medicinal segura e sua utilização segue a recomendação tradicional do Ayurveda: “Na região que nós vivemos é onde encontramos os alimentos, ervas e medicamentos naturais para tratar nossos desequilíbrios”.
Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em Acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Pharmacy e Associação Brasileira de Ayurveda. Telefone: (21) 25373251, www.ayurveda.com.br

A Origem do Yoga

A argumentação arqueológica mais recente contesta os antigos arqueólogos. A nova geração de arqueólogos, que utiliza a arqueologia processual como método de trabalho, concebe que “uma civilização é produto de um longo processo de evolução e mudança cultural que envolve longos períodos de tempo e amplas extensões de terra, e não algo que acontece da noite para o dia”.
Esta nova metodologia traz com total clareza a continuidade, entre as culturas Indus-Sarasvatí e do Ganges. Essa continuidade é evidente na tradição oral, na cosmogonia, na linguagem e nos sistemas de pesagem e medição.
Descobriu-se recentemente ruínas da cidade de Mehgahr, cujas origens estão localizadas no período entre 8215 e 7215 a.C.. Foi revelado o uso do cobre, o plantio de cevada e a criação de gado no cercado; estes são alguns elementos da cultura Védica. Tudo isto, juntamente com o achado de alguns altares domésticos de culto ao fogo em Harappa e Mohenjodaro, entre outras, derruba a argumentação dos primeiros arqueólogos, que afirmaram que o cavalo foi levado a esta região através dos invasores Arianos, por volta do ano de 1500 a.C.. O curioso é que há pouco tempo encontrou-se ossos eqüinos em assentamentos humanos anteriores ao surgimento da cidade de Harappa e o Rig-Veda, que é datado de 5000 a.C., descreve através de hinos o amor do povo pela terra que sempre habitaram — o clima, a geografia, a fauna e a vegetação que coincidem com os da Índia Setentrional. Nestes hinos são feitas inúmeras citações ao cavalo e à sua utilização, o que reforça a continuidade entre as culturas do vale do Indo e a Védica, não havendo nenhum registro da tal invasão, nem na memória coletiva, nem nas tradições dos descendentes dos supostos derrotados, os Drávidas.

Existe um número enorme de argumentos que desmontam a versão dos primeiros arqueólogos; a manipulação dos mitos de qualquer cultura, feita por investigadores, historiadores e outros especialistas, tem como único resultado aniquilá-los.

O Yoga surge junto a esta civilização de língua bem desenvolvida, rico artesanato, cidades urbanizadas, escrita pictórica muito avançada, remontando a um período de 10.000 a.C.

O que é Yoga?

A palavra Yoga deriva da raíz sanscrita “YUJ” que significa atar, unir, juntar… e indica o ato de dirigir e concentrar a atenção em alguma coisa para sua aplicação e uso. Da mesma forma significa união ou comunhão e é, na realidade, a verdadeira união de nossa vontade com a vontade do ABSOLUTO. A sujeição de todos os poderes do corpo, pensamento e alma, ao CRIADOR; significa a disciplina da inteligência, da mente, da emoção e da vontade que o próprio Yoga pressupõe; significa um equilíbrio da alma que nos permite olhar da mesma forma todos os aspectos da vida.

O Yoga é um dos seis sistemas ortodoxos da filosofia da Índia que foi codificado por PATAÑJALI.

Feche os olhos e entre em estado meditativo. Agora imagine incontáveis esferas gigantescas em volta das quais há outras esferas gigantescas, as quais estão envolvidas por uma terceira esfera tão grande que abarca todas as demais esferas. Estas três categorias de esferas, de tão imensas, estão muito além da sua capacidade sensorial de percepção.

Metade da esfera maior é ocupada pelo Oceano Causal, conhecido como Karanodakashayi em sânscrito. Sobre este Oceano flutua a incomensurável serpente Ananta, sobre a qual repousa em yoganidra (o sono místico) o Purusha primordial, chamado Karanodakashayi Vishnu. O sonho deste Purusha é a criação do cosmos – a cada inspiração dEle, a criação se torna imanifesta; e a cada expiração, a criação se torna manifesta, podendo-se ver saírem dos poros de Seu imenso corpo deitado inúmeros universos. A Deusa Lakshmi, absorta em massagear os pés do Purusha, contempla este movimento de dimensões de tempo extraordinárias e sorri extasiada.

Cada um dos universos surgidos dos poros do corpo de Karanodakashayi Vishnu corresponde a uma segunda esfera. Metade de cada segunda esfera é ocupada pelo Garbhodakashayi (o Oceano Placenta), sobre o qual repousa uma segunda expansão do Purusha chamada Garbhodakashayi Vishnu, também adormecido em yoganidra. Do umbigo deste Purusha, surge uma flor de lótus de proporções espetaculares, e, ao se abrirem suas pétalas, surge Brahma, a primeira criatura, sentado em padmasana, a postura do lótus. Assim, Brahma é filho unigênito de Garbhodakashayi Vishnu. Este mesmo Brahma entra em meditação e recebe, através do som da flauta de Krishna, a semente de todo o conhecimento. Ele rega esta semente com a água de sua dedicação e, deste modo, faz surgirem todas as formas de vida do universo, inclusive os planetas. Neste momento, nascem da inteligência de Brahma os primeiros naras, ou seres humanos, a quem Brahma incumbe de povoar os planetas terrestres, ou intermediários; os primeiros devas, ou semideuses, a quem Brahma incumbe de povoar os planetas celestiais, ou superiores; e os primeiros assuras, a quem Brahma incumbe de povoar os planetas sombrios, ou inferiores.

Concomitantemente, naquelas que seriam as terceiras esferas manifestam-se as expansões do Purusha chamadas Kshirodakashayi Vishnu (pois repousam sobre o Oceano de Leite, Kshira). Estas formas do Purusha assumem dimensão infinitesimal para penetrarem em cada átomo e entre cada átomo e passarem, assim, a ser companheiras de cada atma, ou alma espiritual individual, e a testemunhar os desejos de cada uma dessas atmas enquanto estão condicionadas às diversas formas de vida material (os reinos mineral, aquático, vegetal, animal, humano, dêvico e assúrico).

Agora, procure compreender que estes três Purushas ocupam apenas um terço do Reino de Deus, exatamente o espaço reservado para aqueles que se esqueceram de sua consciência divina e de sua relação eterna com Deus. Entenda, ainda, que, além deste um terço regido pelos três Purushas, não existe nascimento nem morte, muito menos necessidade de luz do sol, da lua ou de eletricidade, pois basta o brilho emanando de cada ser habitante desta região para iluminar tudo.

E o nara, ou ser humano? O nara é a forma de vida propícia para a atma, a centelha divina, entender quem é de fato e despertar para o seu elo natural com Deus.

Existe um mistério profundo por trás do comportamento e da atitude do filósofo védico. Trata-se de um mistério que se revela naturalmente no coração de quem mergulha em sharanagati (palavra sânscrita que significa ‘rendição plena’ ou ‘entrega plena’). Toda vez que refletirmos sobre esta palavra, poderemos visualizar duas entidades experimentando um relacionamento especial: a pessoa que se entrega ou se rende e a pessoa a quem a primeira se entrega ou se rende. Que motivo teria a primeira pessoa para se render plenamente à segunda? Na resposta a esta pergunta está a raiz do mistério profundo já mencionado.

Voltemos ao nosso filósofo védico.

Na Índia, os filósofos em geral são conhecidos como munis, sendo tradicionalmente aceitos como os membros mais importantes da sociedade por representarem o princípio de orientação e harmonização do sistema social. Ao formularem códigos de pensamento através dos quais o homem logra evoluir material e espiritualmente, os munis imortalizam sua obra e consolidam a tarefa da preservação da verdade superior. No entanto, a ilusão do muni reside em achar que pode acessar esta verdade por seus próprios méritos intelectuais.

O filósofo védico é um muni diferente simplesmente porque não propõe o seu sistema de filosofia. Em virtude de seu sadhana e de outras práticas espirituais, bem como de seu entendimento da importância de guru-tattva (a verdade transcendental relativa ao papel do mestre espiritual), o filósofo védico é sobretudo um mantenedor da riqueza filosófica dos Vedas eternos sob sua forma original. Não lhe interessam modismos, influências circunstanciais, interpretações tendenciosas da sabedoria védica e tantos outros elementos que vão surgindo na história do pensamento humano e se distanciando cada vez mais da Fonte.

No relacionamento especial por conta de sharanagati, o filósofo védico é a primeira pessoa (aquela que se entrega ou se rende plenamente), e a segunda pessoa é a Fonte. Na verdade, a Fonte é a Primeira Pessoa, ou Adi Purusha em sânscrito. Toda a vida e obra do filósofo védico gira, portanto, em torno da intenção de demonstrar ao observador atento e de mente aberta que:

1. Somos todos partes integrantes da Pessoa Suprema, ou Deus;
2. Tanto como Deus, somos pessoas eternas qualitativamente iguais a ele e quantitativamente diferentes d’Ele;
3. A Pessoa Suprema é shaktiman, o Energético ou Fonte Primordial, e tudo mais é Sua shakti, ou energia;
4. Inteligência verdadeira significa entender que, por trás de tudo na existência, há um princípio pessoal, reflexo do Supremo Princípio Pessoal;
5. Embora sejamos emanações da Pessoa Suprema, Ele sempre permanece o Todo Supremo inalterável;
6. A inalterabilidade é uma qualidade do plano espiritual, onde vive a Pessoa Suprema com Seus companheiros eternos;
7. A partir de sharanagati, começamos a mergulhar na ananda (bem-aventurança) ilimitada de nosso relacionamento eterno com a Pessoa Suprema;
8. Yoga verdadeiro é sinônimo de relacionamento pessoal com a Pessoa Suprema;
9. O objetivo da filosofia védica é ajudar-nos a conhecer Deus, de modo que possamos nos relacionar com Ele.
Concluindo, o filósofo védico não é adepto de um sistema filosófico-religioso sectário e regionalista. O filósofo védico sempre existiu em todas as culturas do planeta – mas jamais procurou chamar a atenção de outra pessoa que não o próprio Deus. E é aí que reside o mistério profundo de seu contentamento.

Dattatreya era absolutamente livre de intolerância ou preconceitos de qualquer tipo. Ele aprendia a sabedoria de qualquer fonte que viesse. Todos os que buscam a sabedoria devem seguir o exemplo de Dattaterya.

Uma certa vez o rei Yadu avistou Dattaterya que estava caminhando alegremente pela floresta. Ao ver tamanha felicidade, Yadu perguntou à Dattatreya o nome de seu Guru. Dattatreya por sua vez disse à Yadu: “Somente Atma é meu Guru, porém obtive a sabedoria de 24 indivíduos, logo estes são meus Gurus:”

1 – Terra
2 – Água
3 – Ar
4 – Fogo
5 – Céu
6 – Lua
7 – Sol
8 – Pombo
9 – Jibóia
10 – Oceano
11 – Mariposa
12 – Abelha coletora
13 – Abelha
14 – Elefante
15 – Veado
16 – Peixe
17 – Dançarina
18 – Corvo
19 – Bebê
20 – Donzela
21 – Cobra
22 – Artesão
23 – Aranha
24 – Besouro

1 – Eu aprendi paciência e a fazer o bem para os outros através da Terra, pois ela suporta cada ofensa que o homem comete em sua superfície e assim mesmo lhe faz o bem ao produzir os frutos, grãos, etc.

2 – Da água eu aprendi a qualidade da pureza. Assim como a água pura limpa os outros, também o sadhu, que é puro e livre do egoísmo, luxúria, raiva, ganância, etc; purifica todos aqueles que entram em contato com ele.

3 – O ar está sempre se movendo através de vários objetos, mas ele nunca se apega a nenhum deles; então eu aprendi do ar a ser não-apegado, mesmo movendo-me com muitas pessoas neste mundo.

4 – Assim como o fogo brilha ao queimar, assim também o sadhu deve resplandecer com esplendor do seu conhecimento e Tapas (Austeridade).

5 – O ar, as estrelas, as nuvens, etc estão todos contidos no céu, mas o céu não entra em
contato com nenhum deles. Eu aprendi do céu que Atma é todo-penetrante e ainda assim não tem contato com nenhum objeto.

6 – A lua é em si mesmo completa, mas parece aumentar ou diminuir, de acordo com a sombra da terra por sobre ela, que varia. Disto eu aprendi que Atma está sempre perfeito e imutável e que são somente os Upadhis (corpos) ou adjuntos limitantes que sobrepõem sombras sobre Ele.

7 – Assim como o sol, refletido em diversos potes de água, aparece como muitas diferentes
reflexões, assim também, Brahman aparece em diferentes formas por causa dos Upadhis causados por sua reflexão através da mente. Esta lição eu aprendi do sol.

8 – Certa vez vi um casal de pombos com seus filhotes. Um passarinheiro jogou uma rede e capturou os jovens pássaros. A mãe pombo estava muito apegada a seus filhotes. Ela não se importava em viver, então entrou na rede e foi capturada. O pombo macho era apegado a pomba fêmea, logo ele também caiu na rede e foi capturado. Disto eu aprendi que o apego era a causa do cativeiro (Samsara).

9 – A jibóia não se move para obter comida. Ela contenta-se com o que quer que ela capture e fica deitada em um lugar somente. Disto em aprendi a ser não me preocupar com comida e a me contentar com o que quer eu consiga pegar para comer (Ajahara Vritti).

10 – Assim como o oceano permanece imóvel mesmo que centenas de rios desemboquem nele, assim também o homem sábio deve permanecer imóvel entre os diversos tipos de tentação, dificuldades e problemas. Esta é a lição que eu aprendi do oceano.

11 – Assim como a mariposa, sendo atraída pelo brilho do fogo, cai dentro dele e se queima, assim o homem passional que se apaixona por uma linda garota chega à tristeza. Controlar o sentido da visão e fixar a mente no Ser é a lição que eu aprendi da mariposa.

12 – Assim como a abelha-coletora suga o mel de diferentes flores e o suga de somente uma flor, assim eu também pego um pouco de comida de uma casa e um pouco de outra e assim apasigüo minha fome (Madhukari Bhiksha ou Madhukari Vritti). Eu não sou um fardo para os chefes-de-família.

13 – As abelhas coletam o mel arduamente, mas o caçador vem e pega o mel com facilidade. Do mesmo modo, as pessoas acumulam riquezas e outras coisas com grande dificuldade, mas eles têm que deixar todas elas quando partem ou quando o Senhor da Morte as chama. Disto eu aprendi a lição de que é inútil acumular coisas.
14 – O elefante macho, cegado pela luxúria, cai dentro de um buraco coberto por folhas ao simples vislumbre de uma elefoa feita de papel. Ele é capturado, acorrentado e torturado pelo caçador. Do mesmo modo os homens passionais caem nas armadilhas das mulheres e são levados à tristeza. Logo deve-se destruir a luxúria. Esta é a lição que eu aprendi do elefante.

15 – O veado é seduzido e capturado pelo caçador através de seu amor pela música. Do mesmo modo, um homem é atraído pela música da mulher de caráter duvidoso e é levado a destruição. Não deve-se ouvir canções libertinosas. Esta é a lição que eu aprendi do veado.

16 – Assim como o peixe é cobiçoso pela comida e é vítima fácil de uma isca, assim também, o homem que é ganancioso por comida, e permite que seu sentido da gustação o domine, perde sua independência e é facilmemte arruinado. A ganância por comida deve estão ser destruída. Esta é a lição que eu aprendi do peixe.

17 – Havia uma dançarina chamada Pingala na cidade de Videha. Ela estava cansada de
procurar por clientes uma noite. Ela ficou sem esperanças. Então ela decidiu permanecer contentada com o que ela tinha e dormiu suavemente. Eu aprendi desta mulher caída a lição de que o abandono de esperanças leva ao contentamento.

18 – Um corvo pegou um pedaço de carniça. Ele foi perseguido e surrado por outros pássaros. Ele deixou o pedaço de carniça cair e então obteve paz e descanço. Disto eu aprendi a lição de que um homem mundano passa por todos os tipos de problemas e desgraças quando ele corre atrás da satisfação dos sentidos e torna-se tão feliz como o pássaro que abandona os prazeres sensuais.

19 – O bebê que suga o leite é livre de todas as preocupações e ansiedades e está sempre alegre. Eu aprendi esta virtude de um bebê.

20 – Os pais de uma jovem donzela sairam em busca de um pretendente apropriado para ela. A garota estava sozinha em casa. Durante a ausência dos pais, uma comitiva de pessoas foi até a casa com o mesmo propósito. Ela mesmo recebeu a comitiva. Ela foi para dentro para debulhar o arroz com casca. Enquanto ela estava debulhando, os braceletes de vidro em suas mãos fizeram um ruido estridente. E sábia garota então refletiu: “A comitiva irá perceber, pelo barulho dos braceletes, que eu estou debulhando o arroz sozinha e que minha família é muito pobre para contratar outros para ter o trabalho feito. Deixe-me quebrar todos os braceletes, deixando apenas dois em cada mão.” Então ela quebrou todos os braceletes deixando apenas dois em cada mão. Ainda assim os braceletes criavam muito barulho. Então ela quebrou mais um bracelete em cada mão. Não havia mais barulho e então ela prosseguiu o debulhar. Eu aprendi da experiência desta garota o seguinte: “Vivendo em meio a muitos causaria discórdia, pertubações e brigas. Mesmo entre duas pessoas podem haver palavras desecessárias ou conflitos. O asceta ou Sannyasi deve permanecer sozinho na solidão.

21 – Uma cobra não constrói o seu buraco. Ela habita nos buracos perfurados pelos outros. Do mesmo modo um asceta ou Sannyasi não deve construir uma casa para ele. Ele deve viver nas cavernas ou templos construídos pelos outros. Esta é a lição que eu aprendi da cobra.

22 – A mente de um artesão estava totalmente focada em afiar e plainar uma flecha. Enquanto ele estava engajado neste trabalho, um rei passou em frente ao seu estabelecimento com toda sua comitiva. Após algum tempo, um homem veio até o artesão e perguntou-lhe se o rei havia passado por sua loja e o artesão respondeu que não havia percebido nada. O fato era que o a mente do artesão estava unicamente absorta em seu trabalho e então ele não notou a passagem do rei em frente a sua loja. Eu aprendi deste artesão a qualidade da intensa concentração da mente.

23 – A aranha produz de sua boca longos fios as tece em uma teia. Ela mesmo acaba ficando presa na teia que acabara de tecer por si só. Do mesmo modo, o homem faz uma teia de suas próprias idéias e fica emaranhado nelas. O homem sábio deve então abandonar todos os pensamentos mundanos e pensar em Brahman unicamente. Esta é a lição que eu aprendi com a aranha.

24 – O besouro captura um verme, coloca-o em seu ninho e lhe dá uma picada. O pobre verme, sempre temeroso do retorno do besouro e da picada, e pensando constantemente no besouro, se torna o besouro em si próprio. O que quer que seja que um homem pense constantemente, ele atinge no curso do tempo. Assim como um homem pensa, ele então se torna. Eu aprendi do besouro e do verme a me tornar o Atma ao contemplar constantemente Ele e então abandonar todo o apego ao corpo e atingir Moksha ou libertação.

O Rei Yadu ficou imensamente impressionado pelos ensinamentos de Dattaterya. Ele abandonou o mundo e praticou constante meditação no Ser.

A medicina ayurvédica é considerada como a mais antiga ciência da saúde, originada na India há cerca de 5000 anos.

Frequentemente é lembrada como “mãe de toda a saúde”, já que a partir dela muitas outras formas de medicina emergiram. Foi ensinada por milhares de anos dentro de uma tradição oral de mestres para discípulos.

Infelizmente muito se perdeu por causa disso; o conhecimento atualmente disponível sobre Ayurveda em livros representa apenas uma pequena fração desta tradição de cura védica. O Ayurveda e outros sistemas médicos antigos têm sido preservados muito mais em núcleos familiares que, de regra, não compartilham abertamente seus segredos.

O Ayurveda ensina que o homem é um universo dentro de si mesmo, composto de corpo, mente e espírito, e que seu estado de saúde reflete a harmonia dinâmica entre estes três fatores. Representa a simples e prática ciência da vida; os princípios ayurvédicos são baseados na sabedoria eterna do povo, adquirida a partir de experiência e meditação. É um sistema aplicável universalmente a todos que buscam paz e harmonia interiores.

Os Vedas

Ayurveda significa literalmente “ciência ou conhecimento da vida”. É uma palavra com 2 raízes sânscritas – AYU, significando “vida”, e VEDA, “conhecimento ou ciência”. O Ayurveda teve origem nos Vedas, a mais antiga literatura do mundo, onde eram registrados todos os conhecimentos que pudessem ser úteis à humanidade: engenharia, física, astrologia, biologia, toxicologia, filosofia, teologia, etc.. Os Vedas – Rig-Veda, Yajur-Veda, Sama-Veda e Atharva-Veda – eram coleções de hinos ou canções escritos por videntes (rishis). Essas canções eram de dois tipos: Magia Branca, com rituais de cura de doença, promovendo paz e prosperidade; e Magia Negra, com rituais de destruição por meio de feitiçaria.

Naquele tempo era muito comum o uso de encantamentos, de essência de plantas e animais, das forças naturais, como o sol, e até da energia criativa do homem para fins terapêuticos. As substâncias medicamentosas em geral eram usadas como amuletos.
Ayurveda

Ninguém sabe ao certo quando a civilização desenvolveu-se na India. Até a época de Gautama Buddha (563-483 a.C.) as datas são muito arbitrárias. A civilização mais antiga de que se tem notícia é a de Harappa, que surgiu por volta de 3000 anos a.C. e sua cultura dominou o Vale Hindu por talvez 1500 anos. A figura que segue é uma reconstrução de Harappa. O povo de Harappa construiu grandes cidades – como Mohenjo-daro – com ruas
pavimentadas, aquedutos, banheiros públicos e enormes sistemas de drenagem. O sistema de saneamento era tratado com atenção especial; este fato levou os estudiosos a concluírem que existia também um sistema médico, apesar de não haver evidências, exceto pelo fato daquele povo recorrer a substâncias que classicamente são utilizadas no Ayurveda.

A civilização de Harappa desapareceu há cerca de 1500 anos a.C. provavelmente devido a desastres naturais, mas também pelas invasões frequentes do povo Ariano, nômades da Ásia Central. O povo Ariano trouxe consigo os Vedas, seus antigos livros que continham toda a sabedoria e rituais de sacrifício. Do mais recente dos Vedas, o Atharva-Veda, desenvolveu-se o Ayurveda; este por sua vez gerou 6 grandes tratados médicos, em épocas diversas, entre eles o Charaka Samhita (tratado de medicina interna) e o Sushruta Samhita (tratado de cirurgia), escritos inicialmente para treinar médicos para tratarem de reis e princesas. O Ayurveda já estava bastante desenvolvido no tempo de Buda (563-483 a.C.), mas a medicina ayurvédica viveu uma fase grandiosa pois o próprio Buda era um grande estimulador de sua prática e estudo. O grande desenvolvimento desta ciência médica decorreu também de interesses políticos: nesta época a saúde do rei refletia a saúde do Estado, assim os serviços do médico real eram essenciais para a manutenção da estabilidade política.

No século III a.C., Ashoka, imperador sanguinário do norte da India, converteu-se ao Budismo e, motivado pelos ensinamentos de Buda, que ensinava compaixão por todos os seres humanos, construiu hospitais de caridade, com setores de cirurgia, obstetrícia e problemas mentais, por todo o seu reino, não somente para seres humanos, como também para animais. Além disso, enviou emissários para países vizinhos, o que ajudou muito a difundir ainda mais o Budismo e o Ayurveda: provavelmente foi desta forma que a ciência médica indiana chegou ao Sri Lanka. Durante os dois reinados posteriores, houve grande incentivo à medicina: o governo patrocinava hortos de plantas medicinais, construia hospitais e maternidades e punia charlatões que tentavam praticar medicina sem permissão imperial.

Toda essa Era foi intelectualmente fértil. Os budistas apoiavam todas as formas de aprendizado; construíram verdadeiras universidades onde eram ensinados, além do Budismo e da ciência védica, história, geografia, gramática, literatura sânscrita, drama, poesia, leis, filosofia, matemática, astrologia, astronomia, comércio, artes bélicas e medicina. A mais famosa destas universidades era a de Nalanda, que fechou suas portas por volta do século XII d.C., após quase 800 anos de funcionamento, equiparando-se na época, em status, ao que representa hoje a Universidade de Harvard.

A Era de Ouro acabou entre os séculos X e XII, quando o norte da India sofreu repetidas e violentas invasões dos muçulmanos, assassinando monges budistas, destruindo universidades e queimando bibliotecas. Aqueles que conseguiram escapar fugiram para o Nepal e para o Tibete levando poucos textos ayurvédicos; alguns destes são preservados hoje apenas na tradução tibetana. Os conquistadores muçulmanos trouxeram para a India seu próprio sistema médico, mas o Ayurveda mesmo assim sobreviveu. No século XVI, Akbar, o maior imperador mongol, notavelmente esclarecido, ordenou que todo o conhecimento médico indiano fosse compilado, contribuindo ainda mais para a preservação do Ayurveda.

Durante os séculos XVI e XVII, quando foram abertas as rotas para o Oriente, os europeus, além de levarem novas doenças para a India, como a sífilis, desferiram golpes que foram quase fatais para o Ayurveda, difamando a sabedoria tradicional, fazendo o povo acreditar que ela seria causa de atraso no desenvolvimento da India. O resultado foi que, após 1835, somente a medicina ocidental tinha reconhecimento legítimo nas possessões inglesas. A cultura e a medicina indianas foram ativamente desencorajadas entre o próprio povo indiano; a tradição do ensinamento oral de mestre para discípulo se perdia ¾ os mestres morriam, e seu valioso conhecimento com eles.

No início do século XX, com a ascensão do nacionalismo indiano, a arte e a ciência indianas ressurgiram e o Ayurveda voltou a renascer. Atualmente é um dos seis sistemas médicos reconhecidos na India: Ayurveda, alopatia, homeopatia, naturopatia, Unani, Siddha (variedade de Ayurveda praticada ao sul da India).

O cirurgião Susruta, filho do sábio Visvamitra, é o autor do tratado que leva seu nome. No início do texto podemos ler: “Certa vez Aupadhenava, Vaitarana, Aurabhra, Pauskalavata, Karavirya, Gopuraraksita, Susruta e outros, todos eles filhos de sábios, foram até Divodasa-Dhanvantari em seu ashram e solicitaram ser aceitos como estudantes de Ayurveda com especial ênfase em Salya Tantra ( cirurgia)”. Susruta e seus colegas aprenderam Ayurveda de Divodasa-Dhanvantari e cada um deles escreveu um tratado contendo os ensinamentos de seu mestre.

Os preceitos e práticas formulados por Divodasa-Dhanvantari posteriormente tornaram-se conhecidos como a escola de Dhanvantari, proposta pelo Susruta Samhita, onde a terapêutica principal era a cirurgia ( Salya), tornou-se distinta da escola de Atreya, proposta pelo Caraka Samhita, onde o ênfase foi a medicina interna ( Kayachikitsa ). Estes seguidores de Atreya encaminhavam os pacientes para os seguidores de Susruta quando faziam o diagnóstico de patologias cirúrgicas.

O prof. Srikantha Murthy coloca o cirurgião Susruta em torno de 1000 a. C.. O Caraka Samhita, fundamentado nos ensinamentos do sábio Atreya, cita os seguidores de Dhanvantari como autoridades em cirurgia, porem no texto de Susruta não há referências a escola de Atreya ( medicina interna). Isto demonstra que o compêndio de Susruta é mais antigo que o de Caraka.

Segundo PV Sharma temos 4 períodos de desenvolvimento do Susruta Samhita desde o período de Divodása-Dhanvantari, sábio que trouxe o conhecimento da ciência da cirurgia:

Divodasa-Dhanvantari e seu aluno Susruta I – Em torno de 1000 a.C.
Susruta II – Em torno do século II d. C.
Nagarjuna ( compilador do Susruta Samhitá) – século V d. C.
Candrata ( corrigiu o Susruta samhita ) – século X d. C.
Estes 4 períodos históricos na formação do Susruta Samhita demonstram uma evolução de 2000 anos até o compêndio tomar o seu formato atual.

Na sua presente formatação o Susruta Samhita é composto por 186 capítulos divididos da seguinte forma:

Sutrasthana ( princípios básicos ) – 46 capítulos
Nidanasthana ( diagnóstico) – 16 capítulos
Sarirasthana ( corpo físico ) – 10 capítulos
Cikitsasthana ( terapêutica) – 40 capítulos
Kalpasthana ( toxicologia ) – 8 capítulos
Uttarasthana ( suplementar ) – 66 capítulos
Salakya Tantra ( doenças da cabeça e pescoço) – 26 capítulos
Bala Roga ( pediatria) – 11 capítulos
Kaya Chikitsa ( medicina interna ) – 25 capítulos
Outros asuntos – 4 capítulos

O Susruta Samhita é um texto médico que compreende todos os ramos do Ayurveda porem o ênfase aqui é o Salya Tantra ou tratamento cirúrgico. Todo estudante de Ayurveda deve aprofundar seus conhecimentos buscando as verdadeiras fontes originais desta antiga medicina originária da Índia. Porem de todos os muitos livros sobre Ayurveda, os tratados clássicos de Caraka ( medicina interna) e Susruta ( cirurgia) destacam-se como os mais confiáveis e imprescindíveis na formação de um profissional de saúde especialista em Medicina Ayurvedica.

Alem do Rig Veda a tradição médica na Índia está ligada a um outro texto védico, considerado pelos hindus ortodoxos um texto menor e menos valorizado, que foi compilado em período posterior ao Rig Veda porem muito importante dentro da historia da Medicina Indiana: O Atharva Veda. Nas palavras de Ramachandra Rao:

“ Atharvangiras, o antigo nome para o Atharva-Veda, sugere uma abordagem dupla : práticas curativas e pacificadoras e práticas de bruxaria e encantamento( ghora). Ambas as práticas estavam nas mãos de sacerdotes mágicos e “medicine-men” ( os atharvans) que dominavam a cena antes e durante o período do Rig Veda. A situação tem continuado assim até agora, após quase 7000 anos, nas partes rurais da Índia e entre as populações tribais.”(Rao, 1985:5)

O Atharva Veda sempre foi muito usado no período védico mas por muito tempo não foi tido como parte do cânone sagrado dos Vedas; mesmo depois de ser incorporado a este, nunca recebeu da casta sacerdotal ortodoxa, os Brâmanes, o mesmo status dos outros três Vedas: o Rig Veda, o Yajur Veda e o Sama Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao afirma:

“ É bem conhecido que o Atharva-Veda está do lado de fora do complexo védico clássico que originalmente era apenas triplo (trayi): Rig, Yajus e Saman. Apesar do Atharva Veda ter vindo a adquirir o status védico em alguma data posterior, o seu conteúdo é claramente mais antigo que próprio Rig. Foi demonstrado que o Atharva, realmente, volta até a era do Indu. Na verdade, o panorama de feitiços, amuletos, encantamentos e bruxarias que nós encontramos predominantemente neste Veda, reflete uma realidade primitiva que é também encontrada no Rig Veda. (Rao,1985:5).”

A explicação para a exclusão deste importante texto da tradição védica ortodoxa talvez esteja na utilização da chamada magia negra pelos atharvans. O Iogue Ramacharaca resu- me o Atharva Veda:

“ O Atharva Veda foi chamado “o Veda dos poderes psíquicos”, pela razão que dedica muita atenção aos vários métodos reputados como proveitosos para o desenvolvimento de faculdades supranormais, sentidos e forças. Menciona-se aqui tanto o emprego baixo, como elevado, das forcas; discutem-se todas as formas de poderes psíquicos, das mais elevadas as mais baixas formas de feitiçaria, bruxaria e magia negra; pois a mente hindu costuma tratar da totalidade, e depois procura sem medo ou hesitação, a conclusão lógica. Os livros que compõem o Atharva Veda, cujo numero é vinte, contém muitíssimas receitas e fórmulas de bênçãos, maldi-ções, encantamentos, cerimônias mágicas, invocações, etc. que excedem em variedade e pormenores todos os escritos dos hebreus e gregos, e mostram quão longe pode ir a mente humana nesta direção. É notável que no meio destes numerosíssimos “métodos”, apareçam certas partes da obra que contem idéias elevadas, pensamentos sublimes e interessantes especulações, e que evidentemente foram es critas ao mesmo tempo e foram incluídas com as outras na obra, devido antes ao período de sua composição, do que a alguma semelhança ou conexão de pensamento. Os hindus modernos reconhecem uma divisão decisiva entre as partes do Atharva Veda, separando-as em divisões correspondentes, nos termos ocidentais, à magia branca e à magia negra.” ( Ramacharaca, 1975: 225)

No Atharva Veda, assim como no Rig Veda, as plantas medicinais sempre foram parte da matéria medica dos “medicine men”.Este perspicaz interesse nas propriedades médici- nais das plantas levou ao desenvolvimento de uma vasta farmacopéia. Além de explicar as virtudes curativas de diferentes plantas e ervas, que eram separadas uma das outras e das árvores os profissionais também faziam distinções taxonômicas e ecológicas. No Atharva Veda encontramos:

“ A raiz destas plantas se tornou doce, doce o seu ápice, doce o seu meio, doce as suas folhas a doce as suas flores. Desde que eles possuem o mel e são a bebida da imortalidade. Deixe eles produzirem o ghee e o alimento que tem o leite de vaca como principal ingrediente”( Zysk,1998:101)

Neste hino do Atharva Veda observamos vários “medicamentos” que serão utilizados posteriormente pela clássica Medicina Indiana ou Ayurveda. Em primeiro momento o uso das plantas medicinais que são os principais remédios do Ayurveda, os sabores que são fundamentais nas propriedades e classificação dos alimentos e plantas. O mel muito utilizado e citado nos textos clássicos, o ghee, a manteiga clarificada que possui propriedades terapêuticas louvadas pela Medicina Ayurvedica. E por último o leite e seus derivados que são considerados alimentos purificadores e possuem propriedades terapeuti-
cas importantes. É provável, que seja neste contexto dos hinos do Atharva Veda, que o Ayurveda seja classicamente colocado como um derivado ou um ramo auxiliar do cânone do corpo de conhecimento dos textos védicos. Porem é classificado por alguns autores como o quinto Veda devido a sua importância. Ramachandra Rao afirma:

“ Atharvan, o videntes de todos os hinos médicos, é conhecido como um mágico assim como um médico. O outro sábio, Angira associado com este Veda, também era um médico e Charaka, autor do principal texto do Ayurveda, refere-se a ele como “entre os criadores da Medicina Indiana”. Neste contexto o Ayurveda é associado ao Atharva Veda, como uma disciplina derivada ou como um ramo auxiliar de conhecimento ( upa- veda).” (Rao,1985:27)

A civilização na Índia é muito antiga, estudos recentes colocam as primeiras cidades no sub-continente indiano em 3200 a C., a chamada civilização do vale do Indu que desapareceu em 1900 a C.. Seguiu-se a tradição dos Vedas onde a medicina tinha uma abordagem mágico-religiosa, ou seja, as doenças estavam relacionadas ao sobrenatural e a cura viria de rituais e oferendas aos deuses. O Atarva Veda é o livro dos Vedas relacionado a saúde e medicina, basicamente é um ritual de magia, a tradição coloca o Ayurveda como um derivado do Atharva Veda.
Os primeiros textos de Ayurveda surgiram em torno de 1000 a 1500 a C., muitos se perderam ou foram destruídos nestes mais de 3000 anos de história, mas três importantes livros daquela época chegaram aos nossos dias: Kashyapa Samhita, representa a escola de ginecologia e pediatria, Caraka Samhita, representa a escola de medicina interna e Susruta Samhita que representa a escola de cirurgia.

Alem destes temos 2 importantes livros que foram escritos em torno do século VI e VII por um autor budista chamado Vaghbata: Ashtanga Sangraha e Ashtanga Hrdaya são compilações de todo o conhecimento, até aquela época, do Ayurveda no sub-continente indiano. Estes dois compêndios são muito importantes pois citam outros tratados que não chegaram íntegros aos nossos dias.
Este período é conhecido como idade de ouro da Medina Ayurvedica e terminou quando os invasores muçulmanos tomaram o norte da índia a partir do século X e XI. Os invasores mataram muitos budistas e destruíram grandes centros de conhecimento e queimaram suas bibliotecas. Muitos fugiram para o Nepal e Tibete levando alguns textos que somente sobreviveram nestes países.

Posteriormente ao final da idade média ( século XV), com a invasão de portugueses e ingleses o Ayurveda teve um outro período de declinio. No século XVIII e XIX os invasores britânicos proibiram o ensino do Ayurveda e a tradição recebeu outro choque pois os ocidentais divulgaram as idéias de que a medicina da Europa era mais avançada e científica sendo então mais eficiente que a Medicina Ayurvedica.
No inicio do século XX com o movimento nacionalista indiano que culminou com a expulsão dos britânicos, em 1947, houve em uma volta pela tradição da própria Índia e o retorno do estudo do Ayurveda. Muitas faculdades foram fundadas no século XX para formar médicos Ayurvédicos, o chamado BAMS ou Bacharel em Ayuvedic Medicine and Surgery, curso de graduação que dura cinco anos e meio. Atualmente existem cerca de 200 instituições que formaram 450 mil médicos registrados em Ayurveda na Índia do século XXI

Alem da graduação existem os cursos de pós-graduação, ou medical doctor em Ayurveda, onde o médico faz 3 anos de especialização dentro de uma faculdade registrada pelo governo da Índia. Após a especialização o profissional pode desenvolver uma tese de doutorado ou PHD que dura 2 anos. Uma formação completa em Ayurveda, na Índia moderna, com graduação, pós-graduação e doutorado leva em torno de 11 anos de estudos em uma faculdade.

O Ayurveda é uma racionalidade médica reconhecida pelo governo da Índia, porem existem ainda outros sistemas: Alopatia ou medicina ocidental, Unani ( medicina dos muçulmanos que vem de Hipócrates), medicina dos Siddhas ( medicina que é prevalente no sul da Índia da tradição dos Siddhas), Homeopatia ( introduzida na Índia pelos ingleses), Naturopatia ( medicina natural), e yogaterapia ( utiliza as técnicas de yoga para tratar as patologias).
Todas estes sistemas de medicina são oferecidos a população através de clínicas e hospitais financiados pelo governo da Índia. Quando estive frequentando o hospital-escola da Gujarat Ayurved University pude acompanhar o atendimento gratuito de muitos pacientes, crianças, adultos e idosos e observar como eles recebem gratuitamente os medicamentos ayurvedicos, feitos na própria universidade, localizada na cidade de Jamnagar, estado de Gujarat, noroeste da Índia. Nesta grande universidade de Medicina Ayurvedica muitas pesquisas estão sendo realizadas para o desenvolvimento e promoção deste sistema médico com o objetivo de demonstrar, que apesar do grande desenvolvimento da ciência moderna, existe espaço para uma tradição que possui milhares de anos de experiência clínica.