O Astanga Hrdaya foi escrito pelo acharya ( mestre) Vagbhata no século VII da nossa era, o texto é muito importante pois faz um resumo de todo conhecimento acumulado da tradição do Ayurveda, no subcontinente indiano, até aquele momento. Vagbhata foi um médico e sábio de Sindh, região norte da índia, de uma famosa família de médicos ayurvédicos e acumulou um enorme conhecimento. Os pesquisadores ayurvedistas consideram que ele nasceu um brâmane hindu, foi educado nos seus preceitos e práticas e posteriormente adotou o budismo como religião. Por conseguinte ele tinha uma combinação harmoniosa das duas religiões que tiveram um papel importante no desenvolvimento da Medicina Ayurvédica no subcontinente indiano.
O texto de 120 capítulos é um resumo de um trabalho maior e mais completo denominado Astanga Samgraha com 150 capítulos, do mesmo Vagbhata ou de um parente próximo a ele. Estes dois importantes textos da Índia medieval apresentam um sumário do Charaka Samhita ( tratado de clinica médica ayurvedica) e do Susruta Samhita ( compendio de cirurgia ayurvedica) além de outros textos menos valorizados pela tradição. No final do Astanga Hrdaya nós encontramos a seguinte afirmação:

“ Este texto ( Astanga Hrdaya) dotado com tantra gunas ( méritos e
virtudes de um tratado) e destituído de tantra dosa ( deméritos e de-
feitos) e abrangendo todos os outros textos da ciência da medicina
ergue-se igual a eles. Seguindo os ensinamentos dos grandes sábios
que possuem conhecimento ilimitado e não corrompido surgiu o
Astanga Samgraha, que é profundo como o grande oceano, este tex-
to ( Astanga Hrdaya) é uma síntese dele.”

“ Pela batida do grande oceano dos oito ramos da ciência médica, um
grande depósito de néctar – o Astanga Samgraha foi obtido. Deste
( Astanga Samgraha) nasceu este texto ( Astanga Hrdaya) separada-
mente, que é de grandes benefícios para os menos estudiosos”

Pelo próprio texto observamos que o Astanga Hrdaya é uma síntese do Ayurveda, fundamentado no Astanga Samgraha, para os profissionais menos estudiosos. Na Índia medieval os estudantes memorizavam o Astanga Hrdaya como âmago da sua educação médica. Esta tradição foi mantida no sul do subcontinente, no estado de Kerala, onde as famílias dos asthavaidya (as 8 famílias tradicionais especializadas em Medicina Ayurvédica, onde o conhecimento somente era transmitido dentro do clã para os parentes) ainda hoje memorizam o texto e recitam seus versos em sânscrito. Os 8 ramos da Medicina Ayurvédica são : cirurgia geral (salya), doenças da cabeça e pescoço ( salakya), medicina interna ou clínica médica ( kaya chikitsa), ginecologia e pediatria ( kaumarabhrtya), toxicologia e envenenamento (agadatantra), terapia de rejuvenescimento ( rasayana) e terapia dos afrodisíacos ( vajikarana).

Vagbhata foi um autor extremamente importante na tradição e seu trabalho ganhou fama rapidamente devido a isto foi traduzido para outras línguas como o tibetano, árabe e persa. Mas o seu sucesso maior sempre foi no estado de Kerala, sul da índia, onde é reverenciado como o mestre que ensinou a ciência ayurvédica aos ancestrais da linhagem asthavaidya ( as 8 famílias tradicionais do Ayurveda). O treinamento de um médico astavaidya termina com a recitação diária de 10 capítulos do Astanga Hrdaya no santuário familiar, que deve ser praticado durante todo ano. Um médico astavaidya era também obrigado a fazer uma cópia, em folhas de palmeira, do Astanga Hrdaya como parte da sua graduação.
Apesar do Astanga Hrdaya ser descrito como um “ texto de grande beneficio para os menos estudiosos”, pelo próprio Vagbhata, é um trabalho enciclopédico dividido em seis seções, com 120 capítulos, contendo 7444 versos. O tratado unifica e harmoniza uma grande massa de conhecimentos acumulados na tradição por centenas de anos. As dificuldades, muitas vezes, encontradas no estudo dos textos mais antigos de Charaka e Susruta são sanadas por Vagbhata, colocando-o como um dos grandes acharyas ( mestres) da ciência ayurvédica do subcontinente indiano.

O principal objetivo deste importante trabalho foi colocar em apenas um texto os assuntos mais relevantes dos antigos clássicos de Charaka e Susruta. Na antiga Índia, havia uma separação ou rachadura entre as duas escolas principais do Ayurveda: a medicina interna ou escola de clínica médica do sábio Atreya do Charaka Samhita e a cirurgia ou escola de Dhanvantari do Susruta Samhita. Vagbhata consegue, de forma brilhante, sintetizar estes conhecimentos e afirma que a ciência ayurvédica dos antigos acharyas Charaka e Susruta devem ser combinadas na prática médica. O compendio é estritamente racional e as discussões filosóficas e espirituais, encontradas em outros trabalhos, foram deixadas de lado para colocar ênfase na Medicina Ayurvédica. Nas palavras de Vagbhata:

“ Este Hrdaya ( Astanga Hrdaya) é como o coração ( essência) do com-
pleto oceano da literatura do Ayurveda. Devido a boa sorte que ad-
vem disto possa o mundo inteiro alcançar a felicidade”

Terminamos esta pequena introdução ao compendio com a mensagem do sábio Vagbhata, retirada do próprio Astanga Hrdaya:

“ Aquele que satisfaz-se diariamente com alimentos saudáveis e ati-
vidades que discriminam (o bom e ruim em tudo e age sabiamente),
que não é apegado ( demasiadamente ) aos objetos dos sentidos, que
desenvolve o ato da caridade, que considera a todos como iguais
( agindo com gentileza), com sinceridade, com perdão e mantendo a
companhia de pessoas boas, torna-se livre de todas as doenças”

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, médico de família, reumatologista, especialista em acupuntura pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pela Associação Brasileira de Ayurveda. Tel: (21) 25373251. Visite: www.ayurveda.com.br

 

 

 

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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