Alem do Rig Veda a tradição médica na Índia está ligada a um outro texto védico, considerado pelos hindus ortodoxos um texto menor e menos valorizado, que foi compilado em período posterior ao Rig Veda porem muito importante dentro da historia da Medicina Indiana: O Atharva Veda. Nas palavras de Ramachandra Rao:

“ Atharvangiras, o antigo nome para o Atharva-Veda, sugere uma abordagem dupla : práticas curativas e pacificadoras e práticas de bruxaria e encantamento( ghora). Ambas as práticas estavam nas mãos de sacerdotes mágicos e “medicine-men” ( os atharvans) que dominavam a cena antes e durante o período do Rig Veda. A situação tem continuado assim até agora, após quase 7000 anos, nas partes rurais da Índia e entre as populações tribais.”(Rao, 1985:5)

O Atharva Veda sempre foi muito usado no período védico mas por muito tempo não foi tido como parte do cânone sagrado dos Vedas; mesmo depois de ser incorporado a este, nunca recebeu da casta sacerdotal ortodoxa, os Brâmanes, o mesmo status dos outros três Vedas: o Rig Veda, o Yajur Veda e o Sama Veda. Com relação a isto Ramachandra Rao afirma:

“ É bem conhecido que o Atharva-Veda está do lado de fora do complexo védico clássico que originalmente era apenas triplo (trayi): Rig, Yajus e Saman. Apesar do Atharva Veda ter vindo a adquirir o status védico em alguma data posterior, o seu conteúdo é claramente mais antigo que próprio Rig. Foi demonstrado que o Atharva, realmente, volta até a era do Indu. Na verdade, o panorama de feitiços, amuletos, encantamentos e bruxarias que nós encontramos predominantemente neste Veda, reflete uma realidade primitiva que é também encontrada no Rig Veda. (Rao,1985:5).”

A explicação para a exclusão deste importante texto da tradição védica ortodoxa talvez esteja na utilização da chamada magia negra pelos atharvans. O Iogue Ramacharaca resu- me o Atharva Veda:

“ O Atharva Veda foi chamado “o Veda dos poderes psíquicos”, pela razão que dedica muita atenção aos vários métodos reputados como proveitosos para o desenvolvimento de faculdades supranormais, sentidos e forças. Menciona-se aqui tanto o emprego baixo, como elevado, das forcas; discutem-se todas as formas de poderes psíquicos, das mais elevadas as mais baixas formas de feitiçaria, bruxaria e magia negra; pois a mente hindu costuma tratar da totalidade, e depois procura sem medo ou hesitação, a conclusão lógica. Os livros que compõem o Atharva Veda, cujo numero é vinte, contém muitíssimas receitas e fórmulas de bênçãos, maldi-ções, encantamentos, cerimônias mágicas, invocações, etc. que excedem em variedade e pormenores todos os escritos dos hebreus e gregos, e mostram quão longe pode ir a mente humana nesta direção. É notável que no meio destes numerosíssimos “métodos”, apareçam certas partes da obra que contem idéias elevadas, pensamentos sublimes e interessantes especulações, e que evidentemente foram es critas ao mesmo tempo e foram incluídas com as outras na obra, devido antes ao período de sua composição, do que a alguma semelhança ou conexão de pensamento. Os hindus modernos reconhecem uma divisão decisiva entre as partes do Atharva Veda, separando-as em divisões correspondentes, nos termos ocidentais, à magia branca e à magia negra.” ( Ramacharaca, 1975: 225)

No Atharva Veda, assim como no Rig Veda, as plantas medicinais sempre foram parte da matéria medica dos “medicine men”.Este perspicaz interesse nas propriedades médici- nais das plantas levou ao desenvolvimento de uma vasta farmacopéia. Além de explicar as virtudes curativas de diferentes plantas e ervas, que eram separadas uma das outras e das árvores os profissionais também faziam distinções taxonômicas e ecológicas. No Atharva Veda encontramos:

“ A raiz destas plantas se tornou doce, doce o seu ápice, doce o seu meio, doce as suas folhas a doce as suas flores. Desde que eles possuem o mel e são a bebida da imortalidade. Deixe eles produzirem o ghee e o alimento que tem o leite de vaca como principal ingrediente”( Zysk,1998:101)

Neste hino do Atharva Veda observamos vários “medicamentos” que serão utilizados posteriormente pela clássica Medicina Indiana ou Ayurveda. Em primeiro momento o uso das plantas medicinais que são os principais remédios do Ayurveda, os sabores que são fundamentais nas propriedades e classificação dos alimentos e plantas. O mel muito utilizado e citado nos textos clássicos, o ghee, a manteiga clarificada que possui propriedades terapêuticas louvadas pela Medicina Ayurvedica. E por último o leite e seus derivados que são considerados alimentos purificadores e possuem propriedades terapeuti-
cas importantes. É provável, que seja neste contexto dos hinos do Atharva Veda, que o Ayurveda seja classicamente colocado como um derivado ou um ramo auxiliar do cânone do corpo de conhecimento dos textos védicos. Porem é classificado por alguns autores como o quinto Veda devido a sua importância. Ramachandra Rao afirma:

“ Atharvan, o videntes de todos os hinos médicos, é conhecido como um mágico assim como um médico. O outro sábio, Angira associado com este Veda, também era um médico e Charaka, autor do principal texto do Ayurveda, refere-se a ele como “entre os criadores da Medicina Indiana”. Neste contexto o Ayurveda é associado ao Atharva Veda, como uma disciplina derivada ou como um ramo auxiliar de conhecimento ( upa- veda).” (Rao,1985:27)

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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