A medicina ayurvédica é considerada como a mais antiga ciência da saúde, originada na India há cerca de 5000 anos.

Frequentemente é lembrada como “mãe de toda a saúde”, já que a partir dela muitas outras formas de medicina emergiram. Foi ensinada por milhares de anos dentro de uma tradição oral de mestres para discípulos.

Infelizmente muito se perdeu por causa disso; o conhecimento atualmente disponível sobre Ayurveda em livros representa apenas uma pequena fração desta tradição de cura védica. O Ayurveda e outros sistemas médicos antigos têm sido preservados muito mais em núcleos familiares que, de regra, não compartilham abertamente seus segredos.

O Ayurveda ensina que o homem é um universo dentro de si mesmo, composto de corpo, mente e espírito, e que seu estado de saúde reflete a harmonia dinâmica entre estes três fatores. Representa a simples e prática ciência da vida; os princípios ayurvédicos são baseados na sabedoria eterna do povo, adquirida a partir de experiência e meditação. É um sistema aplicável universalmente a todos que buscam paz e harmonia interiores.

Os Vedas

Ayurveda significa literalmente “ciência ou conhecimento da vida”. É uma palavra com 2 raízes sânscritas – AYU, significando “vida”, e VEDA, “conhecimento ou ciência”. O Ayurveda teve origem nos Vedas, a mais antiga literatura do mundo, onde eram registrados todos os conhecimentos que pudessem ser úteis à humanidade: engenharia, física, astrologia, biologia, toxicologia, filosofia, teologia, etc.. Os Vedas – Rig-Veda, Yajur-Veda, Sama-Veda e Atharva-Veda – eram coleções de hinos ou canções escritos por videntes (rishis). Essas canções eram de dois tipos: Magia Branca, com rituais de cura de doença, promovendo paz e prosperidade; e Magia Negra, com rituais de destruição por meio de feitiçaria.

Naquele tempo era muito comum o uso de encantamentos, de essência de plantas e animais, das forças naturais, como o sol, e até da energia criativa do homem para fins terapêuticos. As substâncias medicamentosas em geral eram usadas como amuletos.
Ayurveda

Ninguém sabe ao certo quando a civilização desenvolveu-se na India. Até a época de Gautama Buddha (563-483 a.C.) as datas são muito arbitrárias. A civilização mais antiga de que se tem notícia é a de Harappa, que surgiu por volta de 3000 anos a.C. e sua cultura dominou o Vale Hindu por talvez 1500 anos. A figura que segue é uma reconstrução de Harappa. O povo de Harappa construiu grandes cidades – como Mohenjo-daro – com ruas
pavimentadas, aquedutos, banheiros públicos e enormes sistemas de drenagem. O sistema de saneamento era tratado com atenção especial; este fato levou os estudiosos a concluírem que existia também um sistema médico, apesar de não haver evidências, exceto pelo fato daquele povo recorrer a substâncias que classicamente são utilizadas no Ayurveda.

A civilização de Harappa desapareceu há cerca de 1500 anos a.C. provavelmente devido a desastres naturais, mas também pelas invasões frequentes do povo Ariano, nômades da Ásia Central. O povo Ariano trouxe consigo os Vedas, seus antigos livros que continham toda a sabedoria e rituais de sacrifício. Do mais recente dos Vedas, o Atharva-Veda, desenvolveu-se o Ayurveda; este por sua vez gerou 6 grandes tratados médicos, em épocas diversas, entre eles o Charaka Samhita (tratado de medicina interna) e o Sushruta Samhita (tratado de cirurgia), escritos inicialmente para treinar médicos para tratarem de reis e princesas. O Ayurveda já estava bastante desenvolvido no tempo de Buda (563-483 a.C.), mas a medicina ayurvédica viveu uma fase grandiosa pois o próprio Buda era um grande estimulador de sua prática e estudo. O grande desenvolvimento desta ciência médica decorreu também de interesses políticos: nesta época a saúde do rei refletia a saúde do Estado, assim os serviços do médico real eram essenciais para a manutenção da estabilidade política.

No século III a.C., Ashoka, imperador sanguinário do norte da India, converteu-se ao Budismo e, motivado pelos ensinamentos de Buda, que ensinava compaixão por todos os seres humanos, construiu hospitais de caridade, com setores de cirurgia, obstetrícia e problemas mentais, por todo o seu reino, não somente para seres humanos, como também para animais. Além disso, enviou emissários para países vizinhos, o que ajudou muito a difundir ainda mais o Budismo e o Ayurveda: provavelmente foi desta forma que a ciência médica indiana chegou ao Sri Lanka. Durante os dois reinados posteriores, houve grande incentivo à medicina: o governo patrocinava hortos de plantas medicinais, construia hospitais e maternidades e punia charlatões que tentavam praticar medicina sem permissão imperial.

Toda essa Era foi intelectualmente fértil. Os budistas apoiavam todas as formas de aprendizado; construíram verdadeiras universidades onde eram ensinados, além do Budismo e da ciência védica, história, geografia, gramática, literatura sânscrita, drama, poesia, leis, filosofia, matemática, astrologia, astronomia, comércio, artes bélicas e medicina. A mais famosa destas universidades era a de Nalanda, que fechou suas portas por volta do século XII d.C., após quase 800 anos de funcionamento, equiparando-se na época, em status, ao que representa hoje a Universidade de Harvard.

A Era de Ouro acabou entre os séculos X e XII, quando o norte da India sofreu repetidas e violentas invasões dos muçulmanos, assassinando monges budistas, destruindo universidades e queimando bibliotecas. Aqueles que conseguiram escapar fugiram para o Nepal e para o Tibete levando poucos textos ayurvédicos; alguns destes são preservados hoje apenas na tradução tibetana. Os conquistadores muçulmanos trouxeram para a India seu próprio sistema médico, mas o Ayurveda mesmo assim sobreviveu. No século XVI, Akbar, o maior imperador mongol, notavelmente esclarecido, ordenou que todo o conhecimento médico indiano fosse compilado, contribuindo ainda mais para a preservação do Ayurveda.

Durante os séculos XVI e XVII, quando foram abertas as rotas para o Oriente, os europeus, além de levarem novas doenças para a India, como a sífilis, desferiram golpes que foram quase fatais para o Ayurveda, difamando a sabedoria tradicional, fazendo o povo acreditar que ela seria causa de atraso no desenvolvimento da India. O resultado foi que, após 1835, somente a medicina ocidental tinha reconhecimento legítimo nas possessões inglesas. A cultura e a medicina indianas foram ativamente desencorajadas entre o próprio povo indiano; a tradição do ensinamento oral de mestre para discípulo se perdia ¾ os mestres morriam, e seu valioso conhecimento com eles.

No início do século XX, com a ascensão do nacionalismo indiano, a arte e a ciência indianas ressurgiram e o Ayurveda voltou a renascer. Atualmente é um dos seis sistemas médicos reconhecidos na India: Ayurveda, alopatia, homeopatia, naturopatia, Unani, Siddha (variedade de Ayurveda praticada ao sul da India).

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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