Caraka o autor do clássico denominado de Caraka Samhita pertence a escola de Atreya ou escola de medicina interna. Ao analisarmos o antigo texto temos que estudar as 3 principais períodos históricos do desenvolvimento deste tratado de Ayurveda: o período de Atreya, a época de Caraka e por último a influência de Drdhbala.
Purnavasu Atreya é a figura central do Caraka Samhita, seus conceitos são elaborados na forma de diálogos com seu discípulo Agnivesa ou ao concluir as discussões como coordenador dos vários simpósios sobre Ayurveda. No Caraka Samhita é dito que Atreya recebeu seus conhecimentos de Bharadwaja, este teria recebido a “ciência da vida” diretamente de Indra, o rei dos deuses indianos. O principal discípulo de Atreya foi Agnivesa que escreveu o Agnivesa Tantra ( tratado de Agnivesa). P V Sharma coloca este clássico após o período do Atharva Veda ( 1500 a.C.) ou seja em torno de 1000 a. C.

O segundo período do texto é a época de Caraka que foi o primeiro autor a refinar o tratado de Agnivesa com suas interpretações e anotações. A contribuição de Caraka foi tão espetacular que o texto original passou a ser conhecido como Caraka Samhita. Alguns pesquisadores acreditam que Caraka pertencia ao ramo do Yajurveda negro, porém outros autores afirmam que um extinto ramo de vaidyas ( médicos) do Atharva Veda conhecidos como carana, moviam-se de cidade em cidade, servindo as populações com seus conhecimentos de medicina e esta ( carana) seria a fonte do nome Caraka. Porém Sylvan Levi, fundamentado em um texto budista chinês, coloca Caraka na corte do rei Kaniska, seguidor do budismo do século II. Todas estas especulações demonstram que os autores e historiadores do Ayurveda não chegam a um consenso sobre quem foi o revisor do Agnivesa Tantra. P. V. Sharma, tradutor do clássico para a língua inglesa, coloca Caraka no século II a. C., baseado em evidências internas e externas ao clássico.
Por último temos a influência de Drdhabala, filho de Kapilabala, que é citado por Cakrapani, que escreveu o principal comentário ao clássico de Caraka, e também por Vagbhata ( século VI da nossa era). Devido a isto P.V. Sharma coloca Drdhabala no século IV da era cristã, período anterior ao de Vagdhata. Afirma-se que Drdhabala reconstruiu o Caraka Samhita que estava com um terço do seu texto perdido.

O tratado possui 120 capítulos divididos em 8 partes:
1- Sutrasthana ( princípios básicos) – 30 capítulos
2- Nidanasthana ( diagnóstico ) – 8 capítulos
3- Vimanasthana ( conhecimentos específicos ) – 8 capítulos
4- Sarirasthana ( corpo físico ) – 8 capítulos
5- Indriyasthana ( sinais de vida e morte) – 12 capítulos
6- Cikitsasthana ( terapêutica ) – 30 capítulos
7- Kalpasthana ( formulações ) – 12 capítulos
8- Siddhisthana ( complicações) – 12 capítulos

O Ayurveda tradicionalmente é um conhecimento derivado dos Vedas, reconhecido como um upaveda do Rig Veda ou do Atarva Veda. Esta ciência tradicional foi dividida em 8 especialidades principais:
1- Kayacikitsa ( medicina interna)
2- Salya ( cirurgia)
3- Salakya ( doenças da cabeça e pescoço)
4- Kaumarabhrtya ( ginecologia, obstetrícia e pediatria)
5- Agadatantra ( toxicologia)
6- Bhutavidya ( doenças mentais e invasões de espíritos)
7- Rasayana ( rejuvenescimento )
8- Vajikarana ( afrodisíacos)
Vários tratados foram escritos em cada uma destas especialidades porem duas delas se destacaram, com um grande desenvolvimento, tornando-se duas escolas distintas e principais do Ayurveda clássico: a escola de Atreya, de Kaya cikitsa, ou medicina interna, representada pelo Caraka samhita e a escola de Dhanvantari, de Salya, ou cirurgia, representada pelo Susruta Samhita. Em nosso próximo artigo iremos escrever sobre esta escola do cirurgião Susruta. Até lá.

 

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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