A palavra Veda em sânscrito vem da raiz vid que significa conhecer, os Vedas são quatro, a saber: Rig Veda, Sama Veda, Yajur Veda e Atharva Veda.Diz-se que os hinos dos Vedas são revelações divinas feitas aos rishis, videntes ou sábios da antiga Índia e que vêm de uma tradição oral milenar que só teria sido escrita recentemente. O Professor Max Muller eminente erudito alemão de Oxford em seu trabalho “Os seis Sistemas de Filosofia Indiana” afirmou:

“ De qualquer maneira que os Vedas possam ser chamados eles são para nós únicos e guias sem preço em abrir perante nossos olhos tumbas de pensamentos mais ricos em relíquias que as tumbas reais do Egito e mais antigos e primitivos em pensamentos do que os mais antigos hinos da Babilônia… Se nós garantirmos que eles pertencem ao segundo milênio anterior a nossa era nós estaremos provavelmente em solo seguro…”

A religiosidade do povo védico caracterizava-se por um grande vigor e naturalidade nas preces, eles rogavam por uma vida longa, saudável e prospera em harmonia com a ordem cósmica. Porem os hinos védicos também deixam claro que haviam pessoas de iniciação mais mística que aspiravam a comunhão com o deus ou a deusa de sua eleição ou mesmo a fusão com o Ser supremo.

Os Vedas são hinos religiosos, da tradição hindu, que são a fonte das principais filosofias da Índia. A Medicina Védica é encontrada em dois dos quatro Vedas: o Rig Veda e o Atharva Veda. Nos Vedas a religião, mitologia, magia e a medicina são coisas inseparáveis o que levou alguns autores a afirmar que a Medicina Védica foi um sistema mágico-religioso baseado no contato com o sobrenatural. A doença, segundo os Vedas, era resultante da invasão de espíritos malignos e demônios e para afastá-los eram necessários rituais e sacrifícios feitos pelos sacerdotes ou Brâmanes.

Segundo textos do período védico tardio ( 900 a 500 a C ) os médicos e a medicina foram denegridas pela hierarquia sacerdotal dos Brâmanes, que censuravam os médicos pela sua associação com todo tipo de pessoas tornando-os impuros. Os médicos entravam em contato com pessoas das castas mais baixas, devido a sua profissão, e isto os tornavam impuros na visão dos sacerdotes Brâmanes.

O dogmatismo da religião hegemônica dos Vedas levou a medicina e os médicos a buscarem refugio em outras tradições fora de castas ou seja não védicas, pois a tradição védica considerava a medicina inadequada para o sacerdote e os médicos impuros.Naquela época, primeiro milênio antes da nossa era, surgiram duas tradições que estavam relacionadas com as praticas médicas: os budistas e os ascetas errantes, ambos não védicos ou seja sem a restrição do rígido sistema de castas.

Estas tradições não védicas deram origem, segundo nossa tese de mestrado, a uma nova medicina que veio concorrer com a medicina mágico-religiosa dos Vedas. O novo sistema era baseado na observação dos fenômenos naturais e de suas influencias no ser humano, de uma forma racional a nova abordagem a saúde não estava limitada pelo rígido sistema de castas e era baseado no empirismo e no racionalismo. Alguns autores chamaram esta nova medicina de empírico-racional.

As tradições não védicas foram, diferente do que se acredita, o combustível adequado para a formação da medicina empírico-racional que de uma forma diferente da medicina mágico-religiosa dos Vedas, baseada em fenômenos sobrenaturais, esta estruturada na relação do ser humano com os fenômenos da natureza. Esta medicina tornou-se popular na Índia antiga, então os hindus brâmanes resolveram referendar esta pratica ao integra-la ao corpo de conhecimento dos Vedas ou seja a religião hegemônica e passaram a denomina-la Ayurveda ou literalmente conhecimento da vida e divulgaram a idéia que a raiz do Ayurveda esta nos Vedas porem não existe em nenhum dos seus hinos qualquer referencia ao Ayurveda como ele esta descrito pelos seus autores clássicos.

A conclusão da nossa pesquisa feita nos Vedas e nos textos clássicos do Ayurveda é que houve uma ou varias tradições intermediarias que levaram a mudança de paradigma de uma medicina mágico-religiosa dos Vedas, baseado no contato com o sobrenatural, para uma medicina empírico racional, através da observação dos fenômenos naturais, dos textos clássicos do Ayurveda. Estas tradições foram os budistas e os ascetas errantes que eram prevalentes na Índia da segunda metade do primeiro milênio antes de Cristo ou seja do século V a C ao século I da nossa era.

O Ayurveda é uma medicina indiana que foi desenvolvida a partir da época de Buda, no século V a C, e propõe uma vida em harmonia com as leis da natureza mas também uma vida útil a sociedade como um todo. Na Medicina Ayurvédica saúde é um estado de felicidade e para alcança-lo o ser humano deve trilhar um caminho de auto-conhecimento. Como dizia o oráculo de Delphos na Grécia antiga: “conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”.

Aderson Moreira da Rocha

Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

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