NO ultimo mês de setembro passei 4 semanas na Gujarat Ayurved University, em Jamnagar, noroeste do subcontinente indiano estudando Ayurveda e praticando Yoga e meditação. Nós éramos 5 profissionais brasileiros buscando aprimorar nosso conhecimento em um grande centro de ensino e pesquisa da Medicina Ayurvedica.  Ficamos amigos do hoteleiro Mustak, muçulmano, que é o proprietário do Hotel Presidente e também organiza viagens pelo estado de Gujarat.  A noite visitávamos seu hotel pois a comida era excelente e em um destes encontros ele perguntou : “ Vocês já ouviram falar em Dholaviira ? Nos olhamos em um sinal de interrogação e ele explicou: “ A civilização do Vale do Indu com mais de 5000 anos tem um famoso sitio arqueológico aqui em Gujarat, seria interessante vocês conhecerem”. Claro que topamos na hora…

No ultimo sábado do curso acordamos cedo para a nossa aventura pelo interior do estado de Gujarat em direção ao sítio arqueológico de Dholavira, há cerca de 6 horas de distancia, de carro, ao norte da  cidade de Jamnagar, próximo a fronteira do Paquistão. O carro era um potente Land Rover com ar condicionado. Tínhamos nos abastecido com frutas e muita água pois o calor beirava os 40 graus. O pequeno grupo era formado por 7 pessoas; 5 estudantes brasileiros de Ayurveda, Mustak ( proprietário do Hotel Presidente de Jamnagar) e um experiente e habilidoso motorista. Após mais de 6 horas de uma cansativa viagem em uma região inóspita e desértica chegamos a isolada ilha de Kadir, onde encontra-se um pequeno vilarejo com apenas uma simples pousada controlada pelo governo indiano.

A pousada tinha pequenos chalés redondos, muito simples e rústicos. Ao entrar no meu chalé, surpreso, descobri que ele já tinha um habitante mais antigo: um bonito pássaro indiano que entrava e saia através dos buracos no teto que era feito de madeira com sape. Olhei detalhadamente o quarto e observei um bom ar condicionado, uma cama com lençóis brancos e limpos porem com pequenos insetos, que retirei pacientemente, um banheiro singelo e ainda um ventilador de teto. Foi ai que “ caiu a ficha”, perguntei aos meus botões:  “o que poderá acontecer se chover a noite ?” As minhas preocupações aumentaram quando fui informado que a região era infestada por Najas venenosíssimas que costumavam rondar os chalés. A única solução que encontrei foi rezar para os Deuses indianos nos protegerem das chuvas e das cobras venenosas…

Passado o susto inicial me juntei a Mustak e os outros brasileiros e fomos encontrar o motorista e nosso guia local para a nossa travessia ao sítio arqueológico. O nosso guia chamava-se Jamal, tinha cerca de 50 anos, um típico indiano de Gujarat, moreno, simpático, robusto e receptivo as nossas perguntas. Ele era a pessoa certa para nos orientar pois tinha participado das escavações na cidade arqueológica de Dholavira nos anos 1990 e guardava muitas informações interessantes sobre esta cultura de mais de 5000 anos que é considerada o berço da civilização indiana. Após um pequeno percurso de 20 minutos chegamos ao nosso destino final: O sitio arqueológico de Dholavira da antiga civilização do vale do Indu.

Eu me senti voltando no passado de 5000 anos atrás, já tinha estudado e escrito sobre esta antiga cultura mas nunca me imaginei pisando em uma de seus principais sítios arqueológicos., além de Dholavira as outras 2 importantes cidades são Mohenjo Dharo e Harappa que ficam no inacessível Paquistão.  A emoção de estar visitando o berço da civilização do subcontinente indiano é indescritível.  Os arqueólogos descobriram que estes sítios eram únicos para o seu tempo, as suas ruas bem planejadas formavam uma rede , já as casas eram de tijolos cozidos e muitas com 2 andares tinham banheiros próximos as ruas para facilitar a drenagem. Este desenho arquitetônico das construções aponta para uma preocupação com a saúde pública e o saneamento e sugere uma crença explicita em um ritual de purificação que é prevalente no posterior pensamento indiano dos Vedas. Com tamanha preocupação com higiene e saneamento, com certeza, eles tinham um sistema organizado de medicina. Mas como afirma Wendy Doniger no seu espetacular livro “ The Hindus”: “ A Civilização do Vale do Indu não é silenciosa, nós é que somos surdos. Nós não podemos ouvir suas palavras mas podemos ver suas imagens”. A escrita deste antigo povo asiático não foi, apesar de inúmeros esforços, decifrada. Muitos selos e artefatos foram descobertos mas a mensagem escrita continua inacessível aos pesquisadores. Acredita-se que  este povo sucumbiu devido a mudanças climáticas e catástrofes geológicas por volta de 1500 a. C

No final do sábado voltamos para a pousada com seus esburacados tetos de sape e suas prevalentes cobras asiáticas mas, graças aos Deuses, não sofremos nenhum ataque porem ficou a mensagem que esta misteriosa e enigmática civilização ainda apresenta muitos segredos que não foram, ainda, decifrados pelos pesquisadores. Um tema interessante revelado pelos arqueólogos foram os sinetes exibindo “ figuras em postura de Yoga”. Destaca-se um personagem com 3 rostos, sentado em um trono baixo, diante do qual estão 2 gazelas uma de frente para a outra. Além disto apresenta 4 animais: um tigre, um elefante, um rinoceronte e um búfalo. Na sua cabeça observa-se um enfeite com 2 imensos chifres e um  objeto semelhante ao tridente. Os pesquisadores que analisaram esta figura perceberam nela um protótipo do deus Shiva, o senhor do Yoga. Será que eles tinham alguma prática semelhante ao Yoga desenvolvido no subcontinente indiano posteriormente ? Somente o tempo poderá responder esta e muitas outras perguntas ainda sem respostas.  Os leitores interessados, nesta arcaica cultura indiana, podem acessar o site:   www.harappa.com

 

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, clínico geral, reumatologista, especialista em Ayurveda e Acupuntura. Presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda”. Tel: (21) 25373251,   visite: www.ayurveda.com.br

 

 

 

 

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