|
OBJETO DE ESTUDO, OBJETIVO E SUA ABORDAGEM
Durante este trabalho de pesquisa estaremos utilizando a proposta de Bourdieu (1994): selecionar temas relevantes no campo e em seguida formular questões dirigidas ao tema. O objeto de estudo será constituído por análise de temas que consideramos fundamentais na teoria do Ayurveda que vem sendo modificados e adaptados ao ocidente. Associado a isto tentaremos formular uma gênese histórica da Medicina Ayurvédica e a comparação dos textos clássicos em fontes primárias e secundarias. Esta pesquisa tem uma abordagem teórico-conceitual, com uma perspectiva predominantemente filosófica, embora incluindo, secundariamente, um olhar sócio-histórico e antropológico. Estes temas serão analisados a luz do pensamento médico dos autores clássicos e as suas representações históricas e teóricas conforme se apresentam nas escolas autorizadas do Ayurveda.
A Medicina Ayurvédica tornou-se popular nas ultimas 2 décadas mas grande parte dos autores que publicaram livros, no ocidente, tentam modificar e adaptar o Ayurveda, ou associá-lo a outras práticas, que não fazem parte dos trabalhos clássicos, onde podemos encontrar o assim denominado “Suddha Ayurveda” ou o puro e verdadeiro Ayurveda. No ocidente encontramos textos ou divulgações com as seguintes denominações: “ pedras quentes no Ayurveda” , “acupuntura ayurvédica”, “astrologia ayurvédica”, “yoga tridosha”, “meditação ayurvédica”, “método Kussun Modak”, “equilíbrio dos chacras”, “shantala”, “aromaterapia ayurvédica” dentre outras abordagens sincréticas. Isto é aquilo que Zysk chamou de “New Age Ayurveda” (Ayurveda da Nova Era) (Zysk, 2001, citado em Wujastyk, 2003: p xxiii) ou o que Meulenbeld denominou “neo-ayurveda” (novo ayurveda) (Meulenbeld, 1999: p 2). Podemos afirmar que nenhum destes sincretismos faz parte do Ayurveda clássico que é baseado nos compêndios autorizados em sânscrito. Estas abordagens são invenções sincréticas modernas sem fundamento histórico na tradição milenar do subcontinente indiano.
Nosso trabalho de pesquisa objetiva tentar trazer a essência da racionalidade médica ayurvédica como ela é descrita nos trabalhos clássicos referendados. A tradição do Ayurveda coloca dois grupos de compêndios como os mais importantes e autorizados: o chamado “Brihat Trayi” ou grande trio de Caraka, Susruta e Vagbhata (A. Hrdaya e A. Samgraha), alem destes também investigaremos os textos de Bhela e Kasyapa, que chegaram incompletos aos nossos dias. E o denominado “Laghu Trayi” ou pequeno trio composto por Madhava Nidana, Sarngadhara Samhita e Bhavaprakasa. Estes nove textos serão nossas fontes primárias da pesquisa. Porem também utilizaremos, alem das fontes primárias, as fontes secundárias que são constituídas por aquilo que Umberto Eco designou por literatura crítica. No caso da nossa pesquisa as fontes secundárias serão relevantes, não apenas pelo conhecimento que agregam para uma melhor compreensão do pensamento clássico, mas também e principalmente, pelos valiosos extratos das fontes primárias que freqüentemente apresentam comentários interessantes. Consideramos como fontes secundárias os comentários realizados pelos acharyas (professores) e vaidyas (médicos ayurvédicos) referendados e autorizados. Eco chama a atenção que “o verdadeiro objeto da tese” (Eco, 1988; 35) depende da acessibilidade as fontes. Onde podem ser encontradas? São facilmente acessíveis? Como resposta a esta questão, foi possível, ao longo dos últimos doze anos, reunir os textos clássicos do Ayurveda, com as melhores traduções para a língua inglesa e os comentários feitos pelos principais autores antigos e modernos a estas obras. Iremos descrever as fontes primárias e também as fontes secundárias:
CARAKA SAMHITA
Fontes primárias
1- Tradução de Bhagwan Dash e R.K. Sharma com os comentários de Cakrapani Datta “Ayurveda Dipika”. Edição de 2007, em sete volumes, publicado pela Chowkhamba Sanskrit Series Office, Varanasi
2- Tradução de P. V. Sharma. Sétima edição de 2001, em quatro volumes, publicado pela Chaukhambha Orientalia, Varanasi
Fontes secundárias
1- Mehta, P.M., Introdução ao Caraka Samhita. Edição de 1949, publicado pela Shree Gulabkunverba Ayurvedic Society, Jamnagar
2- Valiathan, M.S. The Legacy of Caraka. Edição de 2003, publicado pela Orient Longman, Chennai.
3- Giri, R. V. e Rajneesh, S. Synopsis on Caraka Samhita. Edição de 2005, publicado pela Chaukhambha Orientalia, Varanasi
SUSRUTA SAMHITA
Fontes primárias
1- Tradução de P. V. Sharma com os comentários de Dalhana. Edição de 2004, em 3 volumes, publicado pela Chaukhambha Visvabharati, Varanasi.
2- Tradução de Srikantha Murthy. Segunda edição de 2004, em três volumes, publicado pela Chaukhambha Orientalia, Varanasi
3- Tradução de Kaviraj Kunjalal Bhishagratna. Quarta edição de 1991, em três volumes, publicado pela Chowkhamba Sanskrit Series Office, Varanasi.
Fontes secundárias
1- Valiathan, M. S. The Legacy of Susruta. Edição de 2007, publicado pela Orient Longman, Channai
2- Giri, R.V. Synopsis of Susruta Samhita. Edição de 2002, publicado pela Chaukhambha Orientalia, Varanasi
ASTANGA SAMGRAHA
Fontes Primárias
1- Tradução de Srikantha Murthy. Segunda edição de 1998, em três volumes, publicado pela Chaukhambha Orientalia, Varanasi.
2- Tradução de “A Board of Scholars” (uma junta de eruditos). Primeira edição de 1999, em três volumes, publicado pela Sri Satguru Publications, Delhi
ASTANGA HRDAYAM
Fonte primária
Tradução de Srikantha Murthy. Quinta edição de 2007, em três volumes, publicado pela Chaukhamba Sanskrit Series Office, Varanasi.
KASYAPA SAMHITA
Fonte primária
Tradução de P.V. Tewari com comentários. Edição de 2008, publicado pela Chaukhambha Visvabharati, Varanasi.
Fonte Secundária
Tewari, P. V. Introduction to Kasyapa Samhita. Edição de 1997, publicado pela Chaukhambha Visvabharati, Varanasi.
BHELA SAMHITA
Fonte primária
Tradução de K. H. Krishnamurthy. Edição de 2000, publicado pela Chaukhambha Visvabharati, Varanasi
MADAVA NIDANAM
Fonte primária
Tradução de K. R. Srikantha Murthy. Segunda edição de 1995, publicado pela Chaukhambha Orientalia, Varanasi
SARNGHADHARA SAMHITA
Fonte primária
Tradução de Srikantha Murthy. Terceira edição de 1997, publicado pela Chaukhamba Orientalia, Varanasi
BHAVAPRAKASA
Fonte primária
Tradução de Srikantha Murthy. Edição de 2008, publicado pela Chowkhamba Krishnadas Academy
Alem destes textos clássicos utilizaremos os seguintes importantes trabalhos como fontes secundárias:
1- Filliozat, J. The Classical Doctrine of Indian Medicine. Edição de 1964, publicada pela Munshiram Manoharial, New Delhi
2- Jolly, J. Indian Medicine. Terceira edição de 1994, publicada pela Munshiram Manoharial Publisher, New Delhi
3- Meulenbeld, G. J. A History of Indian Medical Literature. Edição de 1999 a 2002, em cinco volumes, publicada pela Egbert Forsten, Groningen.
4- Mukhopadhyaya, G. History of Indian Medicine. Edicao de 1994, em três volumes, publicada pela Munshiram Manoharial Publisher, New Delhi.
5- Rao, S.K.R. Encyclopaedia of Indian Medicine. Ediçao de 1998, em três volumes, publicada pela Ramdas Bhatkal, Mumbai.
6- Varier, N.V.K. History of Ayurveda. Edição de 2005, publicada pela Arya Vaidya Sala, Kotakkal.
7- Wujastyk, D. The Roots of Ayurveda – Selections from Sancrit Medical Writings. Edição de 2003, publicada pela Peguin Books, London
8- Zysk, G.K. Medicine in The Veda – Religious Healing in the Veda. Edição de 1998, publicada pela Motilal Banarsidass Publisher, Delhi
9- Zysk, G.K. Ascetism and Healing in Ancient Índia – Medicine in the Buddhist Monastery. Edição de 1998, publicada pela Motilal Barnasidass Publisher, Delhi.
A MEDICINA NA INDIA DO SËCULO XXI
Modernamente o governo indiano reconhece 6 racionalidades médicas distintas:
1- Medicina Ocidental ou Alopatia
2- Homeopatia
3- Ayurveda
4- Medicina Unani (introduzida pelos muçulmanos na idade média)
5- Medicina dos Siddhas (antiga medicina e alquimia indiana, praticada no sul do subcontinente, fundamentada na tradição dos siddhas)
6- Naturopatia (medicina natural)
A prática destes sistemas é reconhecida e apoiada pelo governo central da Índia moderna. Cada uma destas racionalidades médicas dispõe de formação universitária com clínicas e hospitais especializados. O Yogaterapia também é outra abordagem que utiliza as técnicas do Yoga para tratar as patologias, e é considerada uma profissão recente na história do subcontinente indiano. A graduação em Ayurveda ou BAMS dura cinco anos e meio, segue-se a pós-graduação M.D. em Ayurveda ou especialização de 3 anos e o doutorado com 2 anos de duração. No século XXI uma formação completa incluindo graduação, especialização e doutorado ( PHD) duram em torno de 11 anos de estudo em uma faculdade reconhecida pelo governo central da Índia. Existem atualmente cerca de 200 instituições que oferecem a graduação em Ayurveda com mais de 450 mil médicos ayurvédicos registrados. Encontrei vários ocidentais fazendo o BAMS, graduação em medicina ayurvédica e cirurgia, na Gujarat Ayurved University, o que demonstra o interesse, cada vez maior, do ocidente pela tradição médica do subcontinente indiano.
|